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África 2017 – Dia 10 – De Zinguichor a Cap Skering

Acordo cedo. Agora estou assim, a adormecer pouco depois do jantar e a despertar antes do nascer do sol. Vou dar uma volta, ver Ziguinchor pela manhãzinha. Tinha lido que a Rue du Commerce vale a pena, há estaleiros tradicionais e uma boa vista.

Ora a Rue du Commerce é já ali à esquina. Quanto aos estaleiros não vejo nenhum. Se o Lonely Planet os conheceu, não resistiram para contar a história. Mas vejo muito melhor: lá ao fundo, o mercado do peixe está ao rubro e é um mercado fabuloso. Não há como descrever com palavras. Passa-se um posto de controle e ainda há uma área dantesca, de lodo, pirogas destruídas, lixo e pássaros que bicam o terreno em busca de alimento. Logo a seguir as embarcações com peixe encostaram a terra e os comerciantes inspeccionam o produto. De ambos os lados da estrada as vendedoras já oferecem muito peixe e até outros produtos.

É um espectáculo de cor e de tradição. As pessoas vestem-e de forma exótica. Exótica, para mim, claro. Roupas tradicionais, homens e mulheres. Continuam a chegar pirogas, a azáfama é imensa. Redes de pesca, um homem que monta um motor pintado com as cores da bandeira senegalesa numa piroga. Chegam barcos, afastam-se barcos e as aves, sentido o peixe, pairam, aguardando uma oportunidade.

Deixo-me estar ali um bom bocado, é um espectáculo que vale a pena. Suspeito que é o melhor que Ziguinchor tem para oferecer.

Regresso ao centro, calmamente. Está na hora de usufruir do meu pequeno-almoço incluído no preço do quarto. A caminhada para lá não é desagradável, há coisas para ver, movimento.

Vou-me vingar da quantia que pagarei quando entregar a chave. Bolinhos, croissants e pão com manteiga, leite, uma preciosidade, salada de frutas. Encho a barriga, certificando-se que está na cota máxima, o que normalmente me dá para rolar durante sete ou oito horas. Não é a melhor ideia para o corpo mas são contigências da viagem.

Ainda é cedo. Quero sugar ao máximo o privilégio do quarto e vou-me aninhar no ar condicionado e pendurar-me na Wi-Fi, limando as últimas arestas para o plano do dia: ir para Cap Skiring. Reservo no Booking uma cabana num “encampment” ao pé da praia. Vamos lá ver se desta vez acerto. Agora é esperar.

Pago o quarto com o meu cartão Revolut novo, que se porta lindamente e caminho para a horrível estação de autocarros. A partida foi mais dócil do que a chegada. Pergunto ao porteiro onde apanho o transporte “dans le Cap” e recebo uma indicação vaga que dá para ter uma ideia. Pelo caminho vou sendo passado de mão em mão por uma série de “ajudantes” e até para comprar a senha tenho ajuda. Corre tudo bem. Vou numa carrinha Mercedes, um mini-bus que deve ter mais ou menos a minha idade.

E agora é esperar. Infelizmente quando chego está quase vazio o que significa que ainda vai demorar um bom bocado a arrancar. Espero. Chegam pessoas, quase todas senegalesas, mas também viajantes. Já há tanto tempo que não via viajantes…

Calor, claro. Estamos ao sol e aquilo não enche ao ponto de satisfazer o condutor. Ao fim de uns 40 minutos estamos prontos a arrancar, mas chega carga de última hora que tem de ir para o tejadilho. Agora saímos do terminal, para parar logo a seguir na bomba de gasolina. Mais uma vez vou sentado em cima do depósito.

Assim que saímos da gasolineira, umas correrias na rua, uns arranjos e negociações e estamos outra vez parados, a meter mais carga no tejadilho. Vamos saindo devagar da cidade. Controle da polícia. E outro.

Finalmente embalamos, internando-nos na paisagem senegalesa, africana, verde. Vão ser uns 60 km, que se fazem bem, apesar de estar comprimido. Somos cinco num espaço para três. Tenho uma conversa lá para trás, com um inglês que lê o mesmo que eu – que querem, tenho bons ouvidos e gosto de me meter em conversas. Entra um velhote de chapéu que traz exames clínicos na mão. Muito digno, com ar de patrão. Vamos animados. Também sereno, este povo é mesmo assim mais agitado – no bom sentido – do que ali ao lado na Guiné, onde os carros, pelo menos os muitos que usei, vão envolvidos num silêncio sepulcral.

Depois de algumas aldeias ficamos mais à larga. Estou a controlar no GPS onde devo sair e corre bem, nem preciso de pedir para pararem, há outras pessoas para ali. A carrinha afasta-se, virando logo à direita, e eu viro à esquerda, andando uns 600 metros até chegar ao Musswan, com algumas ajudas e muitos “bonjours” pelo caminho.

Gosto logo deste lugar, desta oásis, deste refúgio sobre a praia. O proprietário ainda não tinha visto a minha reserva no Booking mas arranja-me logo um quarto. Na realidade é metade de uma cabana, gosto do ambiente, cores alegres, bom gosto na simplicidade. O azul domina o Musswan, dá-lhe ares de Grécia.

Por pouco mais de 15 Euros por dia é uma exclente opção. A praia não me conquista de imediato. É-me complicado preferir praias às minhas. As portuguesas são as melhores da Europa e não é fácil serem ultrapassadas mesmo em paragens mais exóticas.

Agora, o alojamento é uma maravilha. O pessoal é agradável, o local tranquilo, especialmente durante o dia, quando os clientes andam a explorar. O recinto é sobre o comprido, piso  de areia fina, branca, e tem umas cinco cabanas de cada lado, como restaurante e o bar aofundo, seguindo-se um terraço com algumas mesas de onde se tem acesso directo à praia através de uma escadaria privada.

Instalo-me, arrumo as coisas, bem-disposto. Ajeito-me ao lar para os próximos dias. Reservei duas noites, o que foi excelente ideia, e até talvez fique mais tempo. Se nada patinar, ficarei. Bebo logo uma cerveja geladinha. Relaxar. Encomendo o jantar. A refeição fica por uns 7 Euros.  E o pequeno-almoço, opcional, uns 2 Euros.

Mais tarde vou dar um passeio pela praia, para já para a direita, para norte. Não é um passeio longo, porque a seguir há um Club Med e um cabo, o tal Cabo Skering, e não dá para passar. Deu para perceber que os estrangeiros são alvo de muitas atenções. É normal as pessoas aqui cumprimentarem. Umas sem qualquer outra intenção, outras procurando fazer algum negócio. Mas de forma simpática, educada, respeitadora e nada persistente. Cada vez gosto mais.

Volto para trás, e assim está iniciada a minha permanência em Cap Skiring. O jantar será servido à noite, depois dos batuques na praia se silenciarem. Antes, tinha visto o pôr-de-sol, alinhado aqui mesmo à frente.

Dormir é um pouco complicado. O pessoal da casa tem os alojamentos perto do meu quarto e passa-me junto à janela, a falar, até bem tarde. E ao longo da noite estou dividido entre o frio que entra pela janela e o calor que está lá dentro… gelado nas costas, a suar no resto do corpo, isto pode não dar bons resultados. Por outro lado, aqui não há mosquitos, que bem que me sabe poder dormir sem estar untando naquela coisa gordurosa. 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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