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América Latina 2016 – Dia 1 – Cidade do Panamá

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15 de Janeiro de 2016, Cidade do Panamá, Portobelo e Colón

A noite foi complicada. Aqui, sem importar a época do ano ou a hora, o calor é sempre imenso, esmagador. Tanto mais perturbante quando se chega de um local onde as temperaturas rondam os dez graus. E para piorar as coisas o apartamento do amigo Nide tem uma capacidade fora do comum para manter toda a energia térmica acumulada durante as horas em que o sol lhe incide directamente. Ora sucede que o Nide, sendo panamiano, tem horror a calor. Não diria que vive no sitio ideal, mas as coisas são o que são e sucede que para conseguir dormir ele liga uma ventoinha que emite mais ou menos os mesmos decibéis do que um dos motores do avião que me trouxe até ao Panamá.

Tinha chegado na véspera. Um voo que aterrou ao fim da tarde, já depois do sol posto. A primeira contrariedade, esperada, planeada, estava prestes a acontecer: desembolsar 30 USD, que nos dias que correm correspondem a 30 Eur, para um táxi. Existem transportes públicos a servir o aeroporto. Bastante bons até. Autocarros modernos, com ar condicionado, que de meia em meia hora ou algo assim passam em frente ao aeroporto rumo à grande estação de autocarros e de metro de Albrook. Mas, e há este “mas” maldito, é preciso um cartão para usar estes autocarros. Cartão esse que, já se vê, não se encontra à venda nem no aeroporto nem nas suas imediações. Ou seja, à partida a coisa será diferente, mas à chegada a única forma de escapar à situação é convencer alguém local a passar o cartão dele para nós, mediante justo pagamento, claro.

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Mas naquele dia, num país desconhecido, já tarde, preferi vender a alma ao diabo, optar pelo conforto. Entretanto conhecemos uma senhora francesa, pássaro perdido no caos do aeroporto de Tocumen, que ajudámos a encontrar as malas e que sugerimos dividir as despesas do táxi. Assim foi. Depois de uma breve batalha para obter uma corrida por um preço justo, seguimos para a cidade. Numa noite quente na Cidade do Panamá… o grande amor da minha vida de viajante não poderia deixar de surgir nos pensamentos… a “caliente” Havana… foi numa noite assim que também ali tinha chegado. Vindo do Inverno europeu, para as temperaturas escaldantes da Caraíbas.

O táxi rodava, as luzes passavam, lá fora, e aos poucos fomo-nos internando numa metropolis de grandes arranha-céus. Uma primeira vez! Com esta idade ainda consigo, a tempos cada vez mais espaçados, esta sensação de viver uma primeira vez. É verdade, nunca tinha estado numa cidade assim, como só tinha visto em filmes. Claro, já estive em Banguecoque, por exemplo, onde há talvez mais edifícios desta ou de maior estatura. Mas aqui estão concentrados, o efeito é diferente, como um cenário de um qualquer Blade Runner.

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Acabámos por chegar. O Nide espera-nos e há logo aquela ligação forte, positiva. Conversamos um bocadinho e logo ele nos diz que se não estivermos demasiado cansados gostaria de nos levar de carro para uma volta de introdução à cidade. Um gesto de generosidade que caiu muito bem. Foi maravilhoso receber aquela inesperada visita guiada, uma verdadeira introdução como ele a definiu, para ter uma noção dos ambientes e dos principais eixos da metrópole.

Mas tudo isto se passou no dia anterior. Um jornada basicamente preenchida pelos voos, que não estou a considerar para a contagem dos dias desta aventura latino-americana. Para esta Sexta-feira tínhamos pensado em ficar em quarentena psicológica, explorar calmamente a Cidade do Panamá, num trabalho de ambientação. Mas não foi assim que aconteceu. Deu-nos na mona ir logo a Portobello. Um projecto que tínhamos apresentado ao Nide que foi torcendo o nariz, com consequências que veremos mais adiante. E assim pensámos… “Vamos mas é já a Portobello, que o Nide não está muito interessado, e amanhã que é Sábado logo fazemos qualquer outra coisa juntos”.

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E assim foi. Depois de um pequeno-almoço surpresa preparado pelo santo Nide – um pão delicioso à moda panameña acompanhado de uns cereais cozidos em leite, uma coisa deliciosa – tínhamos uma primeira missão: carregar o cartão dos transportes que o Nide nos emprestou. Depois de algumas peripécias lá nos enfiámos no metro, um sistema simples e moderno que funciona na perfeição. É só uma linha, não tem nada que saber. E uma das estações finais é Albrook, que é também o mega terminal de autocarros e um dos mais famosos centros comerciais da capital do Panamá.

Em Albrook foi simples… encontrar o autocarro para Colón, que sai, por assim dizer, a toda a hora, e seguir até Sabanitas. Não tem nada que saber. Os panamianos não deixam o estrangeiro perdido, e de resto é sair em frente ao supermercado Rey, cruzar a esquina e esperar pelo autocarro seguinte, que passa em Portobelo, logo ali. No nosso caso o verbo “esperar” pode-se retirar da equação porque ainda estavamos a andar para lá quando um “chicken bus” fabuloso se aproximou. Perguntei logo a alguém que se aprestava para entrar se ia bem para Portobelo naquele. E lá fomos, primeira vez num autocarro destes, experimentando um dos ícones culturais da América Latina.

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Aquele troço da viagem é muito interessante. É melhor manter os olhos bem abertos para melhor apreciar as aldeias que cruzamos, a placidez do oceano, que ainda de manhã era o Pacífico mas aqui já é Atlântico. A beleza que passava pelos vidros da janela era óptima, mas nem  tudo estava a correr assim tão bem: foi por esta altura que começou a chover. Espera, não estamos na época seca? Não tinha o Nide dito, ainda na véspera que isso de chuva agora não e, vá, em casos extremos podia cair um aguaceiro que logo cessava? Tinha. Mas a verdade é que chovia e quando chegámos a Portobelo a água caía em bátegas. Só deu tempo de sair disparado do autocarro e procurar abrigo num café ali defronte. Um café para estrangeiros, onde paguei uma pequena fortuna por um bolito seco para fazer vezes de almoço. Por outro lado, o investimento resultou num abrandamento gradual da chuva, que por fim parou.

Portobelo é uma pequena localidade à beira do oceano, procurada por velejadores e estrangeiros em busca de um cantinho para passar uma temporada das suas vidas. E é também um local classificado como World Heritage pela UNESCO, devido ao sistema de fortes que os castelhanos aqui erigiram.

Pequena mas não tanto que não entretenha durante umas boas horas, e sendo um excelente passeio de dia inteiro a partir da Cidade do Panamá. A chuva parou. Por pouco tempo mas parou. Vamos até ao primeiro forte, o que se encontra à entrada, de quem vem da capital. A entrada é livre, andam por lá alguns visitantes mas todos panamianos. É agradável, e a humidade suspensa no ar, os céus cinzentos, o cheiro a mato molhado, tudo isso, enfim, contribui para melhorar o ambiente, para sublinhar a atmosfera tropical do local, acentuada pelo calor abafado que faz suar sem parar.

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Os pingos de chuva regressam, primeiro timidamente, depois engrossando, a ponto de nos fazer abrigar sobre o arco do que era a entrada principal da fortaleza. Um jovem vende ali bijuteria. A ninguém, porque num dia assim não há muitas pessoas por aquelas bandas. Ficamos todos ali, à conversa, uma conversa com pontas soltas, que nestes primeiros dias de América Central o meu castelhano ainda está muito enferrujado.

Ele diz que esta chuva não é muito natural, mas não está nada aborrecido com a falta de pessoas. Está na média, afirma. Uns dias vêm mais, noutros um pouco menos, mas aparece sempre alguém que eventualmente comprará qualquer coisa. Chove e chove, levanta-se vento e às tantas não há cantinho seco naquela galeria coberta. Mas como nada dura para sempre também esta chuvada acaba por parar. Podemos prosseguir com a visita a Portobelo.

Há o largo da igreja, onde um trio de coloridos autocarros se encontra parqueado. Daqueles clássicos, como o que viemos, vindo do sistema escolar dos EUA, directamente para o Panamá. E o próprio templo, que visito, um acto pouco usual em mim. Mas apeteceu-me. Dali ao edifício da antiga alfândega é um saltinho. A decadência é evidente. Hoje é um museu e algo mais, mas precisa claramente de uma obra de manutenção que não chega. Pessoas de aspecto triste e pobre senta-se nos degraus que conduzem às arcadas. E ali ao lado encontramos outra fortaleza. nas ameias corvos marinhos enxugam as asas, preparando-se para a próxima pescaria. Há turistas estrangeiros, não muitos, felizmente, mas há.

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Ainda não chove mas a humidade é omnipresente e o céu carregado não augura nada de bom. Os canhões estão alinhados. Já não há piratas para alvejar, mas mantêm-se nos seus postos. A visita a Portobelo esteve para não acontecer. Por necessidade de gestão dos poucos dias disponíveis. Mas ainda bem que decidimos vir. Afinal foi simples, muito simples. E o local é fascinante. É a materialização de um imaginário caribenho, as fortalezas, os corsários, os regedores de Castela. Faz-se contudo tempo de iniciar o regresso. Esperamos pelo autocarro para Sabanitas na estrada. Quando aparece vem quase vazio, a música latina enche o espaço, está-se bem. Decidimos seguir até Colón para evitar fazer a viagem para a Cidade do Panamá de pé, o que provavelmente sucederá se entrarmos na junção de estradas. Não sei se terá sido boa ideia.

Para começar tinha a ideia que a distância que se iria andar para mais longe, para Colón, era bem menor. Foi uma seca. Lá fora a chuva regressou, e para ficar. O dia tornou-se mesmo pesado, invernoso. Chegamos a Colón, uma das cidades mais perigosas da América Central, uma espécie de enorme bairro de lata com problemas sociais quase a cada milímetro. E ao contrário do que os xungosos do autocarro tinham dito a estação rodoviária não ficava no seu percurso. Tivemos que sair noutra parte qualquer da cidade, da tal cidade de que qualquer panamiano tem medo, sob chuva forte. E agora… onde apanhar um autocarro para casa? E a direcção apontada, não nos leva pela pior vizinhança de Colón? Uma senhora abriga-se sob o mesmo toldo que nós e diz-nos que ouviu a nossa conversa e que não recomenda mesmo nada que façamos aqueles meros quatrocentros metros a pé. Melhor apanhar um táxi. O que fizemos. Passou logo ali um, um jovem muito dread ao volante, a namorada sentada ao lado, para aliviar o tédio dos minutos livres entre corridas. O preço que pediu era justo, basicamente o que a senhora nos tinha dito. E logo chegámos ao terminal.

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A viagem de regresso não teve grande história. Entretanto punha-se lentamente escuro. A entrada da Cidade do Panamá era um caos de trânsito, um engarrafamento monumental. O autocarro avançava como um caracol. No GPS via onde estava e… olha… há aqui uma estação de metro! Vamos pedir para nos deixarem sair. Altamente irregular, mas quando percebeu que não tinhamos bagagem no porão o “comandante” do autocarro autorizou. Saímos disparados, yupy! Vamos para o Metro. Em vez de, sei lá, mais uns quarenta e cinco minutos no trânsito, passados quinze minutos estávamos na área da casa.

Ainda deu para passear junto ao mar, no maravilhoso passeio a que deram o nome de Cintura Costera e que permanecerá como uma das memórias mais doces de toda esta viagem. É um lugar sem nada de mais, mas o ambiente é agradável, descontraído, as pessoas têm uma energia positiva. Ficou-me no coração.

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Ainda fizemos uns quilómetros por ali, para cima, para baixo, queixos caídos, olhos em cima, nos arranha-céus imperiosos que nos rodeiam. Comemos um “raspado” de uva. Consiste no raspar de lascas de gelo de um enorme bloco, que são depositadas num copo, cobertas com um concentrado de fruta e com uma porção de leite condensado e entregue nas mãos do guloso cliente com uma palhinha. Custa 0,75 USD e faz parte da tradição de passear por ali.

Foi um cair de tarde histórico. Inesquecível. O reflexo do sol poente sobre o mar onde se desenhou uma faixa prateada, esta Manhatan caribenha a dourar com os últimos raios do astro-rei. As pessoas nos seus passeios, namorando, correndo, jogando voleibol, andando de bicicleta, de patins em linha. Ou simplesmente amigos conversando, famílias em momentos comuns, crianças a brincar. E a escuridão a chegar, os primeiros candeeiros a acenderem-se enquanto o trânsito, incessante, assobia pelas largas avenidas que ali passam.

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Ainda passámos pelos supermercado. Preços chocantes, algo entre a Europa “normal” e a Europa de luxo, da Suiça, da Noruega, da Suécia, da Dinamarca. Por fim chegámos a casa, comemos qualquer coisa, conversámos um pouco com o Nide. Até à hora de dormir, que para ele é muito cedo. Entretanto ele tinha uma surpresa para nós: irmos todos juntos no dia seguinte a…. Portobelo. Ooops!! Olha lá pá, torceste tanto o nariz que ficámos mesmo com a ideia que não queríamos ir a já lá fomos. Azar. Temos que arranjar outra solução para passar o Sábado.

Ele tinha algumas ideias e uma era bem aliciante mas na prática, sendo realista era inviável: viajar até à sua cidade e assistir a um imenso festival de vestidos tradicionais panamianos, uma ocasião em que toda a senhora que se preze enverga a sua vestimenta. Mas isso implicaria seis horas na estrada para cada lado e seria cansativo, com pouco tempo para efectivamente apreciar o desfile… muito aliciante mas não. Então, entre várias hipóteses, decidimos ir a Vale Anton, provavelmente com outro viajante que estava em contacto com o Nide e que apanharíamos no caminho. E foi assim que fomos dormir, com os planos para um Sábado em grande já traçados.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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