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América Latina 2016 – Dia 13 – Granada

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Fui o primeiro a acordar no dormitório. Senti-me logo dividido entre a necessidade de descansar e a tentação de sair à exploração de Granada. Acho que consegui um consenso deixando-me ficar um pouco mais na cama, preparando as coisas com muita calma. Há uma primeira missão que é encontrar um outro hostel. Este não tem nada de errado. É até bastante bom. Mas para o meu gosto é excessivamente grande, prefiro espaços mais intimistas. E os hóspedes são na maioria demasiado jovens e há muitos norte-americanos. E não é dos mais baratos, a 9 USD.

Fiz uma lista de hosteis mais económicos. São apenas dois. O Hamacas e o El Floresta. Já tinha até as coordenadas deste segundo e foi o primeiro que procurei. Passei junto a ele e estava um tipo espojado num sofá, claramente o guarda da noite, e achei melhor prosseguir e regressar mais tarde. Pensando melhor, não eram horas decentes para esta tarefa. Demasiado cedo. Parti então para uma caminhada urbana sem destino marcado. Simplesmente girar pelas ruas.

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As primeiras impressões, estranhamente e sem razão aparente, não são boas. Vem-me à ideia que demorarei aqui menos tempo do que planeava. Talvez mais uma noite, no máximo duas. Talvez me tenha chocado com uma certa pobreza urbana depois da pureza das pequenas comunidades rurais dos dias anteriores. Com o contraste entre carros novos e casas antigas. Não sei, mesmo mais tarde, reflectindo sobre estes sentimentos, não consegui chegar a conclusões. Mas vá… andei pelas ruas.

Também achei que tudo aquilo era sempre um pouco mais do mesmo. Cada rua semelhante à anterior, as mesmas casas da época colonial. Tudo isto mudou mais tarde, mas neste dia era o que sentia.

Estava calor. Vi bancas de fruta nas ruas. E vi muito mais, mas são coisas que não cabem bem na escrita, são cores e detalhes nas casas. Não pude deixar de pensar em Trinidad, provavelmente a mais pitoresca localidade de Cuba e em como as semelhanças são evidentes. Com naturalidade, considerando que o ambiente histórico e climatérico seria o mesmo quando tudo isto foi construído. Assim como uma igreja portuguesa em Goa não é muito diferente de uma outra em Salvador da Baía.

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Mas Granada é maior, tem muito mais carros e cromos no meio da fauna local. Há quem se queixe da falta de segurança. Depois de vários dias não me senti muito mais ameaçado do que em certas partes de Lisboa que nem são nos subúrbios. Simplesmente há alguns figurões em que convém manter um olho, existe crime, sim, mas não é nada de mais.

Gostei de ver a igreja de Mercedes, a típica construção religiosa das colónias espanholas, com fachada decadente em tons amarelados. Pode-se subir à sua torre sineira em troca de algum dinheiro. E agora sim, ia bater as capelinhas em busca de um refúgio para a noite.

Voltei ao El Floresta. Mostraram-me o dormitório. Decadente, mas com uma grande vantagem: a tranquilidade. Estava uma moça a ler um livro numa mesa e mais ninguém. Gostei do imóvel, uma nobre casa dos velhos tempos como um pátio amplo, muita mobília antiga nas arcadas e um preço agradável (6 USD). Disse que iria buscar as minhas coisas e regressaria mais tarde, mas o Hamacas estava ali mesmo em frente e resolvi ir espreitar.

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Ali nem pensar. Não gostei de nada. O pessoal teve uma atitude desinteressada e rude, como se estivessem a fazer-me um grande favor ao me atenderem. E se o Oasis tinha um público jovem, os clientes que vi no Hamacas pareciam estar numa viagem de finalistas. Agradeci e saí. Agora, ao Oásis, aproveitar o que tenho direito até às 11 horas.

Explorei os recantos que desconhecia. Descobri a cozinha e uma zona com uma pequena piscina. Sweet! Não há dúvida que apesar de não ser para mim é um bom hostel com um preço justo. E nisto reparei que havia pessoas a comer. Olha, querem ver…. Há uma espécie de pequeno-almoço incluido no preço. Já tinha comido qualquer coisa, mas não é um bom karma recusar alimentos gratuitos. Panquecas, bananas, geleia. Enchi a barriga, bebi um chá a fechar e deixei-me estar na Internet até se fazerem horas da despedida.

Regressei ao La Floresta e foi como se o visse com outros olhos. Foi nesse momento que pensei que se calhar em vez de menos tempo iria ficar mais tempo em Granada. Invadiu-me uma boa onda que me pôs com um sorriso pateta nos lábios. É verdade que os carros e motas que de vez em quando passam na rua fazem um bom barulho, mas a tranquilidade do páteo interior compensa o incómodo sonoro.

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A Merced e o Roger são o pessoal, digamos, permanente. Entre eles, e excluindo o período nocturno, está sempre por aqui pelo menos um. E ficamos logo amigos. Adoro tudo isto, é o hostel perfeito para mim. Há cadeiras de balouço pintadas rusticamente, cadeirões confortáveis, redes de balanço, e elementos decorativos que parecem retirados de uma loja de antiguidades. Atrás do páteo principal há um espaço coberto por trepadeiras que dão bonitas flores brancas que ficam suspensas, e onde se encontram umas quantas mesas, também elas pintadas rusticamente. A passarada canta e descubro que existe uma pequena selva – aposto que foi daí que veio o nome do hostel – onde se encontram os papagaios da casa. Que cumprimentam. “Holla!”, “Holla!”. Olá papagaio!

Tem uma cozinha, como que em ilha, parece um bar de jardim e é a única coisa que me desagrada. Tem um aspecto repugnante, sujo, tresanda a óleo de fritar, não é um sítio onde prepararia alguma coisa se o pudesse evitar. Um pequeno detalhe negativo que é irrelevante.

As arcadas têm uma pintura a meia altura em amarelo ocre com uma barra com elementos decorativos a vários tons de azul. A escolha certa de cores para um local assim. E estão cobertos por telhados assentes numa pesada estrutura de madeira e tudo isto se torna uma marca da lonha história do edíficio. É como viver, mesmo que temporariamente, num museu.

Andei por ali a flutuar. Fotografei imenso. Tiradas gerais, detalhes. Relaxei, li, conversei com o pessoal. Neste momento não está nenhum outro hóspede. Há um cliente mas foi dar uma volta. Gosto tanto disto que se de repente os preços fossem trocado com o Oasis, ficaria na mesma.

Leio um pouco esticado na rede de balanço. A temperatura e o cantar das rolas transporta-me para outros tempos, para as férias de família no Portugal de finais de anos 70. Aqueles verões escaldantes passados em parques de campismo, na época dos Dianes e dos bigodes farfalhudos e barbas desordenadas. Eram horas a fio de livro na mão, em redes assim, com um calor tal e qual. Sacudo as memórias. Vou caminhar mais.

Agora, lavado de espírito, vejo Granada com outros olhos. Quero ficar aqui. Podia viver aqui uns tempos. Talvez não, mas semanas, certamente. Sinto-me bem com o ritmo descontraído, os preços baixos, o clima. A mi me gusta la Nica. Aconteça o que acontecer, um país onde voltarei, se surgir a oportunidade certa.

Como de manhã, cruzo ruas e avenidas. Vou até à praça central, olho para a catedral. Demasiado imaculada. Vou pela calçada abaixo, essa via pedestre onde ao serão todas as festas têm lugar, todos os bares abrem e onde artistas de rua mostram as suas perícias esperando ganhar o dia. Termina nas águas pacíficas do lago Nicarágua, num molhe onde deveria ter chegado se o baixo nível do lago não tivesse ditado a suspensão por tempo indeterminado da ligação por ferry desde San Carlos.

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Vou almoçar a um “comedor” que estava recomendado pelo Oasis. O cliente compõe o seu prato com módulos e desenha assim uma refeição a seu gosto. Para já fiquei-mepor uns ovos mexidos com chouriço que custaram uns poucos cêntimos. Lugar a voltar, localizado na principal rua de comércio, que atravessa a zona onde se faz o mercado.

Continuei a caminhar livremente, afastei-me do centro do centro, passei para a sua periferia. Cheguei à antiga estação de caminhos de ferro, que foi recuperada por um grupo de estudantes técnicos. O guarda deixou-me visitar a troco de um donativo… tipo 20 COR, ou seja, 0,65 Eur. É uma espécie de museu simplificado, existe uma locomotiva e o vagão presidencial do ditador Somoza.

Nas ruas passam alguns autocarros, daqueles que associamos no nosso imaginário à América Central. Os “school buses” pintados com cores garridas, decorados ricamente. São ruidosos, deixam uma nuvem de poluição negra atrás de si, mas é impossível não os amar.

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Andar, andar. Ver casas, pessoas. É um mundo diferente. Só os carros modernos maculam o cenário. Começo a fazer compras para o jantar. Trago umas quantas bananas. Adquiro um ananás. Uma saqueta com pãezinhos doces. Descubro um pátio partilhado por vários bares e restaurantes e pergunto a um casal quanto pagaram pela garrafa de cerveja de um litro com um aspecto super geladinho que têm em cima da mesa. Oh! Menos de 2 Eur. Quero uma só para mim! Trago-a na mochila, para o hostel.

Aproveito o finalzinho de tarde já no La Floresta. Chega um grupo grande, são vinte pessoas. Vão ficar duas noites, para já são sossegados mas quebram um pouco a magia doméstica. Converso com o Morris, um puto norte-americano que viaja sozinho. Boa conversa. Será uma companhia para os próximos dias.

Acabei por me ir deitar, satisfeito com o rumo que o dia tomou, já apaixonado por Granada, e cada vez mais enamorado da Nicarágua.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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