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América Latina 2016 – Dia 2 – Cidade do Panamá

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O plano para este dia tinha ficado alinhavado na véspera. Iríamos então a Vale Anton, uma enorme cratera vulcânica de outros tempos que hoje abriga uma pequena cidade com muitos atractivos.

Acordámos, comemos qualquer coisa, mais ligeira do que a maravilha gastronómica do dia anterior e saímos. Pararíamos para recolher outro viajante com que o Nide tinha estado em contacto. Um holandês de aspecto caribenho, um viajante de longa duração que estava a fazer Couchsurfing num bairro menos central da cidade.

De manhã as ruas estavam desertas. Nada de trânsito. Quase nenhuns carros. Foi simples encontrar a morada e enquanto esperávamos comprei o jornal local. No Panamá compra-se um calhamaço de um jornal, do tipo do Expresso, por uns quarenta cêntimos. Aquilo vem dividido por dossiers temáticos e há leitura para dias. Maravilhas de poder ler castelhano.

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Chegou o Paul, ainda a calçar os ténis. Estava a dormir, acordou com a nossa chamada a dizer que estávamos à porta. E lá fomos, o Nide ao volante, pela auto-estrada que deixa a Cidade do Panamá depois de cruzar o canal. Parámos num restaurante de beira de estrada. Não um restaurante de mesas e garfo e faca, mas num local onde todos os petiscos panamianos são servidos para levar. O Nide entusiasmou-se, encomendou e encomendou e saímos de lá com um carregamento de abastecimentos brutal. Ainda por cima os preços ali são diferentes, muito acessíveis, nada parecidos com o que tinha visto no supermercado.

Fomos comendo no carro, todos os bandulhos bem cheios, javardice total, guardanapos para trás e para a frente. Chegámos a Vale Anton. Parámos o carro, fomos a um mercadozinho que era até bastante turístico, não me cativou. Andavam por lá estrangeiros, provavelmente residentes no Panamá. Era um pequeno mercado, simplesmente esperei que os meus amigos se despachassem.

O problema de Vale Anton é que tudo se paga. Um problema geral no Panamá. Nascentes de água quente? Pagam-se. Uma cascata? Paga-se. Um parque botânico? Paga-se. Ora isto é  algo a que tenho uma resistência natural. Poucas pessoas gostam de gastar dinheiro, mas eu deverei ser mais forreta do que a média e sobretudo não pago para contactar com a Natureza, para entrar em igrejas e em cemitérios e em locais onde não posso fotografar. Com as devidas excepções, claro.

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O Nide e o Paul ainda visitaram uma cascata. Para entrar, 3 Eur. Fiquei no exterior, a beber um refrigerante. Depois procurámos o início de um trilho que nos levaria ao topo de um dos cerros envolventes do vale. Não foi por demais complicado lá chegar. Por estradas de terra batida, entre quintas e floresta, e depois de perguntar a um peão, lá demos com o início do trilho. De novo a pagantes. Lá deixámos os 6 Eur ao guarda (malvado, quanto voltámos já não estava lá!) e internámo-nos na na selva.

A primeira parte do percurso coincidia com o trilho oficial. Sempre a subir, calor, humidade. Mas o trilho estava lá e era evidente. Era relativamente exigente, do ponto de vista físico, mas nada de especial. E fascinante. Foi o meu primeiro contacto com este tipo de floresta tropical. Vegetação densa, enormes, borboletas coloridas, vegetação exótica. Mas o melhor foram as formigas transportadoras de folhas. O carreirinho de formigas toma a aparência de uma auto-estrada de folhas, verdes, muito verdes, transportadas pelos pequenos insectos numa correria incessante. Estende-se por dezenas de metros, talvez centenas. É um espectáculo.

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Deixo-me ficar para trás, quero gozar deste momento na paz da Natureza, sem escutar as vozes dos meus companheiros. Adoro o som da selva. Misteriosos, intensos.

Chegamos a uma plataforma de madeira, já muito podre. Um ponto para observar a envolvência. Já estamos bem altos e teoricamente o passeio ali inicia o retorno ao ponto de partida, mas tenho uma referência no GPS que me desafia a prosseguir, a atingir um local mais distante. Ainda não imaginava onde me ia meter…

Dali para a frente os caminhos preparados tornaram-se num estreito carreirinho, por vezes com a vegetação a invadir o trilho, noutros pontos com mares de lama. Metade do grupo deixou-se ficar. Foi um percurso fisicamente puxadinho. Havia partes que implicavam o uso de cordas para ascensão quase vertical. No final desistimos, até porque o tempo corria e para chegar ao ponto – que entretanto se tinha revelado, o alto de uma colina aparentemente intransponível – ainda teríamos que gastar um par de horas.

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Voltámos para trás mas diverti-me imenso. Foi um excelente exercício. Suei perdidamente, devo ter emagrecido dois quilos.

Depois de reencontrar o resto do grupo descemos até ao carro. Ainda era relativamente cedo, mas não sabíamos o que fazer. Tudo em Vale Anton era a pagar e a mim não me apetecia nada pagar. Parámos no supermercado. E decidimos iniciar o regresso a casa. O carro começou a fazer um barulho estranho. Era no rodado. Até que chegou a um ponto que se tornou evidente que tínhamos que parar.  Tirámos a roda, e era o que eu pensava… um rolamento. Aproveitámos para beber água fresca de uma fonte ali à beira da estrada. Com roda ou sem roda, estava um dia agradável. Depois de a recolocar a situação melhorou e deu para fazer a viagem.

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As horas que se seguiram escoaram-se rapidamente sem na realidade acontecer muita coisa. A viagem correu bem. Algum trânsito na cidade. Deixámos o Paul perto de casa e quando chegámos a noite já tinha caído. Não havia energia para mais, ficámos por ali durante o serão

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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