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América Latina 2016 – Dia 32 – Chichicastenango e Antigua Guatemala

A ideia era acordar bem cedo, considerando que geralmente nos meios muito rurais os mercados se iniciam também muito cedo. Há pouco tempo estive num, em Myanmar, que quando cheguei o sol ainda se estava a levantar, mas o mercado já estava a acabar!

Bem, depois de uma noite mal dormida por causa do frio – e que frio faz aqui na Guatemala em altitude – saltei para fora da cama, comi qualquer coisa que levava no saco e dirigi-me para a zona central do mercado.

 
 

A animação já era muita, sentia-se no ar uma alteração em relação à véspera. Isto porque mercado há todos os dias, mas o de Sábado é em grande. É o momento alto da vida da aldeia, renovado a cada semana que passa.

Postei-me a uma esquina, sentado baixinho, para reduzir a minha presença, câmara ao colo, discreta, a tirar fotografias, como lhes chamo, “de anca”, sem levar a máquina à face para apontar. É complicado porque fotografo em modo manual e tenho que calcular a configuração a olho, literalmente falando.

Passam por ali meninas com cabras pela trela, xamãs a caminho não sei de onde, velhotes com pesados fardos de mercadoria às costas. Ainda o dia mal nasceu e já uma multidão anda por ali, e quando olho para o fundo da longa rua que conduz ao mercado, vejo-a cheia, toda a gente vindo para onde eu estou.

O ambiente em redor das igrejas, porque há uma de cada lado deste centro da aldeia, é como na véspera, estranho, místico, medieval, com o sino a soar a cada poucos minutos, os fumos dos incensos dos ritos pagãos que se misturam com a fé cristã. As senhoras que vendem flores lá estão, nos degraus.

Dou uma volta pelo mercado, e mesmo com o tempo bem nublado, consigo perceber facilmente porque é considerado dos mais coloridos do mundo. De facto é uma orgia de cores, especialmente devido aos panos tradicionais, com que as mulheres fazem os seus vestidos. Não só para dias especiais. As pessoas por ali vestem-se como sempre se vestiram, por vezes parece uma viagem no tempo ou um festival de folclore sem o ser.

As máscaras contribuem para o cenário, apesar de suspeitar que estas estão ali mais para os estrangeiros que visitam o mercado, mas isso é apenas uma teoria minha, até posso estar enganado. E por falar nisso… apesar de ainda ser cedo já não é de madrugada e começam a chegar estrangeiros. E com o aparecimento das cabeças louras uma parte daquela magia esbate-se. Com o tempo serão cada vez mais, até um ponto em que sinto que está na hora de colocar um ponto final no capítulo Chichicastenango desta odisseia centro-americana.

 

Antes de retirar, dou ainda uma volta por algumas ruas periféricas. Descubro o mercado de animais. São apenas pequenos animais, contudo, galinhas, perus, mas também é interessante.

Passo pelo meu alojamento para trazer a mochila e vou para a estrada principal, que a esta hora está caótica. Uma multidão cobre o asfalto e os veículos passam vagarosamente, a custo. Agora tenho que descobrir um autocarro que vá para os meus lados. A ideia é fazer o percurso inverso ao da véspera, esperando algo que me leve até Chimaltenango.

Ainda demorou um bocado. Passaram alguns autocarros mas tão cheios que não abriam as portas. Mas lá me safei e segui viagem. Chegado à pequena cidade, fui forçado a sair numa paragem bem longe de onde queria, de onde tinha passado na véspera. Pelos vistos com este autocarro ou era ali ou não era.

Então fui andando, a pé, o que não gosto muito, na Guatemala, se levo a mochila, porque é um bocado conspícuo. Ah! Mas isto ia melhorar! Dou por mim a passar em frente à zona de prostituição de Chimaltenango. Elas às portas dos bares, a olhar para mim de olhos arregalados, como quem vê um unicórnio com oito patas a passar junto a casa, e eu a olhar pelo canto do olho mais ou menos com uma sensação igual. Foi uma passagem em grande, de respeito mútuo, que terminou depois de quatro ou cinco bares.

Terminado este momento Coca-Cola Light vejo um autocarro a passar a assobiar numa rua perpendicular a uns 200 metros. Olha, é capaz de ser ali. E era. Virei a esquina e estava ali a paragem de autocarros para Antigua. Já estava mais próximo de casa.

Não demorou muito a passar o próximo, bastante cheio, e lá fui. A certo ponto vagou um lugar sentado mesmo ao pé de mim e aproveitei. Coloquei a mochila na plataforma bagageira por cima da cabeça, sempre sem tirar de lá os olhos, porque já se sabe, é um clássico. E não foi preciso esperar muito para um artista carteirista começar a sua arte, que não foi mais longe porque não tirei os olhos dele e das suas mãos, que entretanto estavam sobre a minha mochila com o casaco a tapá-las.

Pensava que tinha escapado ao ataque – e na realidade escapei – mas não de forma tão limpa, como vamos ver….

Quando o autocarro chegou, saltei para o chão e ouço chamar… uns cidadãos com o meu Kindle nas mãos avisavam-me por o ter deixado cair. Agradeço imenso, coloco-o no bolso e… zás…. no chão… mau… querem ver… pois… o bolso do meu colete onde ia o Kindle tinha um rasgão enorme… enquanto o artista do casaco se fazia à minha mochila, outro tinha trabalhado o colete com uma lâmina afiada. Não se pode dizer que tenha sido uma manhã proveitosa para a dupla, mas o meu colete, coitado dele, tinha ficado assim, aberto.

 

 

Ia mudar de hostel, outra vez, e este ficava ali perto da estação de autocarros, na rua central mais próxima. O Hostel Casa Jacaranda tinha um bonito nome e na verdade revelou-se um belo hostel. É verdade que era um pouco mais caro do que a média em Antigua mas é certo que é uma espécie de Rolls Royce dos hosteis. Em todos os aspectos. Bom dormitório, um espaço amplo, ambiente mesmo de hotel a sério, áreas comuns de qualidade, um pequeno-almoço com menus à escolha. E na recepção um frigorífico de bebidas com a cerveja mais barata que vi em Antigua e que me ia dar muito jeito nas 24 horas seguintes. Gostei de ali ficar e recomendo, sem hesitações.

Instalei-me, senti o conforto deste hostel como se fosse um Sheraton, depois do alojamento de Chichicastengango, e fui à recepção perguntar se conheciam algum costureiro que me pudesse arranjar o colete. Deram-me algumas dicas e saí para a rua à procura do salvador da minha roupa. Estava fechado. Mas ao virar da esquina encontrei outro. Entrei, mostrei os danos a uma senhora, que logo chamou o patrão, que fez outra análise, e enquanto isto decorria, sentia-me bem, porque o profissionalismo e gentileza daquela gente era evidente.

Portanto, depois de prolongada conversa técnica entre eles sobre a melhor forma de restabelecer a forma devida ao meu colete, anunciou-me: a meio da tarde estará pronto. Serão 2 USD. Aceito? Oh por quem sois, então não aceito!

Saí dali logo mais bem disposto. Afinal de contas não se tinha perdido nada, havia a promessa de um reparo integral e estava de volta na minha bem-amada Antígua. Só queria andar, ver, respirar, viver. E foi isso mesmo que fiz!

Dizem que uma atitude positiva é sempre premiada pelo destino e se isso não é verdade, pelo menos aconteceu naquele dia. Andava eu todo feliz pelas ruas quando descubro a procissão que andava por Antigua. O costureiro já me tinha falado nela, havia muito trabalho extra por causa dos fatos e fatiotas para o desfile e o dia era até feriado por ali (razão pela qual fui encontrar o outro costureiro encerrado).

 
 

 

E pronto, ali estava eu com um espectáculo inesperado mas pleno de encanto. Era uma procissão a sério, com diversas trupes, mais do que uma banda, muita gente, tudo a desfilar. Apanhei o desfile em pontos diferentes da cidade, o que não era difícil, porque se ouvia bem à distância e se sentia a onda humana que se movimentava, a excitação a crescer. E estava nisto quando me deu fome. Muita fome. Veio de repente e não estive de modas, entrei num estabelecimento que vendia comida “mexicana”, e as aspas são porque na realidade bem pode ser comida guatemalteca. Eu não aprecio. Em condições normais nunca seria a minha escolha. Mas estava tão necessitado que foi logo ali. E aprendi uma coisa: talvez fosse até da fome extrema que estava a sentir, mas aqueles tacos não tinham nada a ver com qualquer outra experiência gastronómica da minha relação com a cozinha daquela parte do mundo. Estavam deliciosos!

Como era dia de festa, Antigua estava ainda mais interessante. Havia artistas pelas ruas e barraquinhas de comes e bebes por todo o lado. O ambiente era de folia, religiosa, mas mesmo assim, folia. Andei por ali, tentei descobrir novas ruas, cantos diferentes, e de certa forma consegui… fui andando na direcção de uma das saídas da cidade, e como sempre, à medida que saía do centro deixei de ver pessoas. Estava tudo tão calmo!

Fui visitar o meu amigo costureiro e lá estava o meu colete, como novo! Por mais que olhasse não via nenhuma marca do ataque que tinha sofrido. Aquilo foi um trabalho de se lhe tirar o chapéu. Paguei com gosto, vim-me embora, para descobrir logo a seguir que havia outro bolso com um golpe, bem menor. Lá voltei. O pobre homem quando me viu entrar até mudou de cor… devia pensar que vinha reclamar de alguma coisa… mas quando lhe disse o que se passava, recolheu de novo o colete, mandando-me regressar no dia seguinte de manhã… e desta vez não cobraria nada… segundo ele para tentar recuperar a minha boa impressão da Guatemala. Não teria sido necessário. A minha impressão continuava bem no alto. Há carteiristas e safados por todo o mundo, e quanto mais não fosse, estava ali à minha frente um tipo às direitas.

Recolhi-me ao hostel, para descansar e relaxar. Tanta coisa tinha acontecido neste dia! Bebi umas cervejas, daquelas geladinhas que havia na recepção. Travei conhecimento com uns backpackers simpáticos e à noite, antes de dormir, quando fui lá fora despedir-me do dia, vi algum espantoso: em redor de Antigua havia mais do que um vulcão a despejar as entranhas para o nosso mundo. Ainda fiquei preocupado, mas o pessoal local disse-me que era totalmente normal.

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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