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América Latina 2016 – Dia 38 – Tikal e El Remate

O plano era ver o nascer do sol no recinto principal da cidade Maia de Tikal. O tempo era mais ou menos à justa para acordar com alguma luminosidade e atravessar a floresta até ao local mesmo a tempo da hora certa. E assim foi. Cheguei um bocado antes, aliás, e passei por detrás do templo que está preparado para isto, o tal com uma plataforma de madeira que permite aos visitantes subir até ao topo.

Já havia lá em cima um número considerável de outras pessoas à espera do momento mágico, que não tardou. OK, aquilo não foi assim tão especial como eu tinha imaginado. Nem conseguir fotografar nada de jeito, o melhor que saiu foi isso que coloquei no início deste texto.

Consumado o momento, fui dar mais uma volta pelo parque, ver outras pirâmides, concluir o que não tinha feito na véspera. Gostei de visitar Tikal. Não foi um dos momentos mais altos desta viagem e certamente não o foi das minhas voltas pelo mundo. É uma constante: lugares antigos sem vida não me cativam especialmente. Foi bom ter visto pirâmides maias de proporções consideráveis, isso foi.

Por falar em pirâmides, trepei a outra. Aquilo é uma actividade que por vezes é arrepiante. Visto à distância parece fácil, é como que subir uma escada gigante, com níveis a servir de degraus. Mas a inclinação é bastante acentuada e um passo em falso, uma escorregadela e a coisa pode acabar mal. Muito mal. É caso para vir a cair e a bater com tudo em pedra dura e acabar ali mesmo.

Trepei sem problemas e sentei-me lá em cima. Momento glorioso. Temperatura perfeita, céu azul, e o mundo lá em baixo. Estou muito acima da topo das árvores e dali vejo outras pirâmides a uma certa distância. Chega uma família guatemalteca, sobem até onde estou, tiram umas fotos e descem. Uma das moças cai, felizmente para ela no último degrau, por isso sem grandes consequências.

Isso faz-me ter um cuidado redobrado quando um pouco mais tarde decido ir embora.

Voltei ao recinto principal. A luz agora é diferente. É pleno dia. Exploro um pouco a zona, fotografo de vários ângulos. No centro algumas mulheres procedem a ritos religiosos maias. Uma cerimónia privada com muito incenso queimado e cânticos.

Dou por encerrada a minha passagem por Tikal. Vou ao hotel, recolho as minhas coisas, entrego as chaves e parto em busca da carrinha para regressar. Desta vez não irei até Flores, ficarei em El Remate onde penso procurar qualquer sítio onde ficar. Se não tiver sorte posso sempre apanhar um transporte e acabar mesmo o dia em Flores.

Há uma certa confusão com as carrinhas. Não se percebem bem quais são, quais nos podem levar. Encontrei um dos viajantes que tinha partilhado o transporte para cá e estamos juntos nisto. Há alguma agitação, um ambiente de luta pelos lugares e conseguimos entrar os dois numa carrinha. Pronto, já estou instalado.

Seguimos viagem e ao pé da estrada vimos um grupo amplo de Pizotes, um animal estranho a que os ingleses chamam Coati.

Quando salto para fora da carrinha em El Remate começo a ter dúvidas se tomei a decisão certa. Aquilo parece um grupelho de casas ao longo da estrada. Vejo uma rua que parte dali e sinto que é por ali que devo ir. Pouco depois passo junto a um estabelecimento mas parece ser demasiado caro para mim.

Para aqueles lados as coisas são mais bonitas. Há um lago, o mesmo lago que banha Flores. E vejo La Casa de Doña Tonita. Entro, parece um café, mas sem porta, completamente aberto. Ali não têm muito medo dos ladrões. Falo com uma mulher, que me mostra o alojamento que têm para me oferecer. Uma cama no piso sobre o café, onde há mais quatro ou cinco camas. Aquilo é completamente aberto também, mas OK. E o preço? Não gostei da hesitação dela, a avaliar quanto me poderia sacar pela estadia. Saiu-se com USD 6. Aceitei, sei que foi mais do que o normal mas não é muito e estou a gostar do lugar.

Em frente, do lado de lá da estrada, há um pontão de madeira. O local é paradisíaco. Vou até lá, com calma. Está óptimo. E agora, o que vou fazer o resto do dia? Ando ao longo da estrada, vejo outros pontões do mesmo género. Passo por uma praia privada, que me deixam visitar brevemente. Habitualmente paga-se para se usar, mas só para espreitar tudo bem. Ia com a ideia num parque natural que havia lá mais para a frente, mas acaba por não acontecer.

Volto para trás. Passo em frente à “minha” casa e regresso à estrada. Tenho fome. Como meio frango com arroz numa venda de rua. Há uma mesa de plástico e fico com ela. É muito barato, acho que USD 2 pela refeição e mais um pouco por uma bebida que compro do outro lado da estrada, porque a senhora ali não trata com bebidas. Como na companhia de um cão, de um porco e de um cavalo, nenhum deles a mais de dois metros de mim. Ali ao pé dois rapazes jogam basquetebol num campo de piso de cimento.

Depois do almoço vou comer um gelado numa loja à beira da estrada principal. E agora, hora de regressar, para apreciar o cenário e relaxar. O pôr-de-sol ali é algo de fabuloso, um dos dois mais bonitos que vi, a par com o de Díli, em Timor. Podia colocar aqui umas dez fotografias do local. Foi difícil seleccionar.

Entretanto com o correr do dia tinham chegado mais viajantes. Peço jantar. Mais uma vez, como com o quarto, sei que estou a pagar um preço que não é o real, é preço para estrangeiro. Cada bebida que encomendei foi preço para estrangeiro. É uma coisa que me aborrece sempre.

Chega um grupo de rapazes, sentam-se a uma mesa comprida a beber e a conversar sobre o jogo de futebol de onde vieram. Como jogadores. É um caso sério, debatem as incidências da partida, onde falharam, porque falharam.

Ao jantar há ali um ambiente que não me agrada mais. Há viajantes a fazer caixinha, com uma atitude de exclusão, e isso é outra coisa que me chateia sempre, felizmente rara nestas andanças. Até prefiro nem entrar em pormenores. O que sei é que à mesa, mesmo à minha frente, estava um casalinho muito jovem, e quando falam, baixinho… é em português. Eu não abri a boca, não disse nada. Acabei a minha refeição, fui ao pé do pontão e quando voltei eles estavam sentados nos degraus da casa, e digo… “Boa noite”. O resto, já contei, neste artigo aqui, dedicado a eles. E aconselho a leitura. É um daqueles momentos que faz viajar valer toda a pena.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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