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América Latina 2016 – Dia 51 – Bogotá

Primeiro e único dia completo em Bogotá. Dormi bem. Felizmente pela noitinha o hostel e a rua acalmam e o sossego impera. Estava assim pela manhã pronto para sair à descoberta da cidade. E que dia!

É que era fim-de-semana, e ao fim-de-semana o principal eixo viário de Bogotá encerra ao trânsito automóvel, ficando entregue aos peões, que lhe dão um uso incrível. Essas avenidas enchem-se de pessoas e um ambiente é fantástico. É como se toda a cidade descesse à rua, todo o mundo vai passear. Há artistas que enchem de animação os passeios, os garotos que jogam à bola, os namorados que seguem de mão dada, os velhotes que procuram um dia diferente.

Lá em cima, no céu, o dia também se anunciava melhorado. Na véspera, o fascínio que a cidade me inspirou fez-me esquecer a luz pardacenta que atravessava um tecto de nuvens. Mas elas estavam lá. Agora o azul dominava e o dia sorria para mim.

A princípio, como era muito cedo, errei pelas ruas sem destino certo. Precisava de queimar algum tempo para os projectos que tinha para o dia. Encontrei uma cerimónia que imagino fosse a recepção aos novos recrutas do exército. Pelo menos assim pensei. O que poderia ser aquele grupo de rapagões bem constituídos, acompanhados por uma banda militar, vestidos à civil, em formação mas sem grande jeito para as manobras e para a marcha?

Por falar em “militar”… tentei visitar o Museu Militar mas ou estava fechado ou estava noutro lugar, porque na morada indicada não encontrei nada que se parecesse com a entrada para um museu e a presença de segurança armada deu-me vontade para me afastar dali.

Caminhei por ruas belas, impregnadas de história, ladeadas por velhas casas coloniais, por vezes com a montanha espreitando por detrás. Estavam calmas, as pessoas dormiam ainda ou tinham ido para outras partes. Observei pormenores, absorvi o ambiente, deliciei-me e cada vez estava a gostar mais de Bogotá.

Voltei a passar junto ao meu hostel, já a apontar para o exterior do bairro. Atravessei uma vasta praça por onde já tinha passado no dia anterior. Descobri as tais avenidas despidas de carros, mas apesar de alguns passeantes, ainda não havia muita gente por lá. Isso seria mais tarde.

Gostei de ver uma cidade diferente, sem os edifícios centenários, sem o festival de murais. Esta era uma Bogotá que me parecia dos anos 60 ou 70 do século XX. Com um forte perfume a classe média. Isso foi uma coisa que me impressionou aqui. Esperava uma assimetria social imensa, uma cidade dividida entre ricos e pobres, e afinal vim encontrar uma metrópole com uma forte classe média.

Encontrei o Museu Nacional, de entrada gratuita e instalado numa antiga prisão. Visitei-o, com calma. É um espaço muito bem preparado, um museu moderno com colecções de qualidade. Não posso dizer que adorei, porque não me impressionou especialmente e nem sei porquê. Mas recomendo!

Voltei às ruas que estavam agora mais animadas. Pensei no fenómeno da construção de mitos e de como era suposto tremer de medo ao visitar esta maravilhosa cidade. É certo que terá áreas assim. A própria menina do Turismo me informou diligentemente de onde estas se encontram. Mas isso também acontece em quase todas as capitais europeias, tidas com muito seguras e tranquilas, como Estocolmo ou Dublin. Agora, ali estava eu, andando tranquilamente, nas ruas de uma urbe pacífica, rodeado por pessoas que tiravam daquele dia o melhor que podiam.

O objectivo agora era encontra o edifício sede de um determinado banco, uma torre altíssima cujo terraço se pode visitar a troco de uma quantia simbólica. É preciso esperar por determinada hora e aconselho a ir um pouco mais cedo porque se forma uma fila considerável para entrar. Não é preciso muito antes. Acho que cheguei com uns 15 minutos de antecedência e era logo o segundo ou terceiro, mas quando a segurança convidou as primeiras pessoas a entrar já havia uma pequena multidão atrás de mim.

Paga-se o ingresso num balcão e depois para o elevador. O terraço é fabuloso! Vê-se a cidade quase toda, a perder de vista, é como se estivesse num avião. E o Montserrat a trazer um toque único à paisagem. Adorei! Uma experiência imperdível em Bogotá.

Depois disto, voltei às avenidas. Por essa hora o movimento era intenso mas o que mais me impressionou foi quantidade, variedade e qualidade de artistas de rua. Pensando melhor, Bogotá mostrou-me o melhor cenário de street artists de que me recordo. Uns desenhavam elaboradas cenas no asfalto deserto de carros com paus de giz coloridos. Havia uma banda de rock que actuava como se estivesse no palco da melhor arena do mundo. Homens estátua de todos os géneros, com um enorme poder imaginativo. Alguém passeava um lama. Sim, Bogotá é assim, louca!

Mas o que mais me encantou foi um conjunto de danças folclóricas, quatro moças e quatro rapazes, com vestidos de garridas cores que enchiam um trecho da avenida com música e alegria. Um cego cantava jazz. Artistas criavam retratos-caricatura. Malabaristas faziam a sua magia. E contorcionistas. Fui ao circo sem dar por isso. Surpreendi-me e fascinei-me nas ruas de Bogotá.

 

Regressei ao hostel para repousar um pouco a meio do dia. Estendi-me no beliche de olhos fechados, a rever tudo o que tinha observado até então. Mas não consegui estar muito tempo afastado. A vida é só uma e este seria o único dia completo que teria para passar em Bogotá apesar de por essa altura já ter decidido voltar noutra ocasião.

Voltei às ruas antigas de La Candelaria, entrei num restaurante barato e acolhedor para tomar uma refeição completa. Mais da minha querida “carne desmachada”. Paguei os costumeiros 2 Euros por tudo. Prato, bebida, sopa. Ainda voltei à Praça Bolivar para um adeus. Os dias de Bogotá estavam a chegar ao fim. Aliás, os dias da Colômbia. E de forma mais alargada, apesar de ainda ter duas ou três noites pela frente, os próprios dias desta incrível viagem pela América Central com um saltinho a este maravilhoso país.

Retirei-me para o hostel. Cansado e satisfeito, pois claro.


 

 

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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