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América Latina 2016 – Dia 9 – Los Chiles

Um dia muito cheio e com imensa aventura. Inicia-se em casa do amigo Edward, após despertar da última noite naquele simpático quarto onde dormi tão bem nestes dias em Heredia.

Vamos apanhar um primeiro autocarro para San José. Mas é confuso, não sei onde é a paragem e há dezenas de autocarros por todo o lado. Entro num barbeiro onde três jovens de aspecto duvidoso se encontram à conversa. Lição: o aspecto não é nada. O duvidoso transforma-se em simpatia e sorriso. Um deles sai para a rua para nos indicar melhor onde fica a paragem que procuramos, mas de repente diz, “é este, é este”, porque avista o autocarro que precisamos que se aproxima rapidamente, iniciando a sua viagem. O moço não está com meias medidas. Salta-lhe para a frente, como quem diz, “alto aí que os meus amigos estrangeiros precisam de ir para San Jose”. O condutor não acha muita piada à ousadia, mas lá nos abre a porta. Começa bem, o dia.

Viagem suburbana sem problemas. Olhos abertos, a absorver o cenário. As pessoas que vão para o trabalho, o muito trânsito, as conversatas no autocarro, os jovens namorados que viajam juntos, a emigrante nicaraguense que fala connosco. E como é um trajecto curto, logo estamos no centro de San José. Agora é encontrar a estação de autocarros certa, o que não é difícil mas apenas graças ao GPS e ao trabalho de casa.

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As ruas de San José não são pêra doce. O Edward já tinha avisado. Não é especialmente perigoso, pelo menos a esta hora e nesta área, mas é pouco agradável. Há personagens suspeitos por todo o lado. Uma miúda de uns 12 anos dá cabeçadas numa parede, com um saco de cola numa mão. Homens de rua dormem nos seus agasalhos improvisados, cartões e embalagens industriais. A estação é já ali. Obrigado GPS!

Agora é comprar o bilhete para Ciudad Quesada, a meio caminho de Los Chiles. Ah! Não tinha dito!? Pois, o destino para hoje é Los Chiles, uma pequena localidade fronteiriça que será a nossa porta de entrada para a Nicarágua. Só que autocarros directos a partir da capital são limitados. Já com escala nesta outra cidade, há mais, e decidimos fazer essa paragem a meio caminho.

Embarque sem problemas, com a ajuda do pessoal sempre amistoso, sempre disposto a ajudar e dar indicações. Que bênção que é falar um pouco de espanhol! Vamos a caminho. Deixamos o emaranhado urbano de San José para trás e a paisagem vai-se renovando. Fascinante.

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Entretanto, lá em cima, o céu escurece. Começa a chover. Como estamos em altitude tinha a esperança de ser algo passageiro, mas quando descemos a montanha, do outro lado, chove ainda mais. Já é um dilúvio, bem tropical. Cai tanta água que não se vê nada. Nem vale a pena tentar observar a paisagem. E é nesta tempestade de água que chegamos a Ciudad Quesada. Um pequeno milagre: a estação é coberta!

Assim que saímos indagamos logo onde será o autocarro para Los Chiles e apontam-mos para uma longa fila de pessoas que aguardam. Parece-me difícil que todo aquele pessoal caiba no autocarro que começa a abrir as portas. Mau! Era só o que faltava, ficar atascado – literalmente – em Ciudad Quesada. Juntamo-nos à fila, muito ordeira, que se vai lentamente escoando para o interior da viatura. O bilhete compra-se ao condutor.

É uma espécie de corrida contra o espaço. Felizmente que se viaja também de pé. Se fossem só lugares sentados já há muito que o autocarro se teria esgotado. Mas há mais uma razão de stress… o nosso dinheiro é, espantosamente, à conta. Na realidade, após contar múltiplas vezes, penso que faltam uns cêntimos, mas não tenho a certeza. Quando e se chegarmos ao motorista já se vê o que acontece. E chegamos. Na realidade, somos as últimas pessoas admitidas para a viagem! E o dinheiro, nunca saberei se estava certo, porque o tipo não se deu ao trabalho de contar: mandou a mão cheia de moedas para a caixa e siga!

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Este segundo trajecto é menos agradável. A chuva continua. Tudo lá fora é triste e cinzento. Lama. Escuridão de dia. E lá dentro as pessoas vão encostadas umas às outras, sem espaço. Felizmente o autocarro vai-se esvaziando e às tantas conseguimos lugares sentados. Reparo nas infinitas plantações de ananás. Ananás. Uma fruta que foi, na meninice, a minha favorita. Nunca o tinha visto na natureza, a crescer. São campos sem fim.

E por fim, Los Chiles. Foi um longo dia e sinto-me como se tivesse chegado ao fim do mundo. Os primeiros passos são, como me costuma acontecer, dados com prudência. Será seguro mostrar a minha câmara? Mas logo percebo que sim, mas que seguro, é super-seguro. Seguríssimo. Estou já apaixonado por Los Chiles, uma localidade que não tem nada a mencionar… para além de ser uma pitoresca cidadezinha que se abre para mim mostrando-me um admirável mundo novo (desculpa lá, Aldous).

A primeira tarefa é encontrar um lugar para dormir. Tinha tirado algumas notas. Na rua não haveria de ser, mas queria saber que opções existiam. E quando se entra num posto da polícia para perguntar onde é que é porreiro para dormir, para mim, significa que se está num bom sítio. Ainda mais se a informação chega completa e com muita simpatia, na forma de uma lista anotada numa folha de papel.

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Posto de polícia de fronteira, com boas dicas sobre alojamento em Los Chiles

Vamos aos três locais indicados, para além do que já sabia, e que é o mais caro, demasiado caro mesmo, para o orçamento. O primeiro, OK, pode ser se não houver nada melhor. Quarto dentro do esperado, um ambiente um bocado conventual para o meu gosto. O segundo, excelente preço e condições mas… e há quase sempre um mas… o bar com música alta é mesmo muito mau. Vamos à terceira e vai ser mesmo ali. Quartinho simpático, boa localização, preço agradável e um restaurante anexo. Sim, ficamos!

Agora é partir à descoberta desta cidade que tanto me encanta. Está calor, um calor húmido, o céu continua cinzento mas parou de chover. E tudo ali me agrada. As ruas que se estendem em planta de quadrícula, amplas, com edificação castiça, alguma com estilo colonial,  a maioria improvisada, com um perfume tropical. O comércio é adorável, na sua criatividade. A noite cai, tranquilamente. Vamos até ao rio, a fronteira, talvez a razão de ser original de Los Chiles. Do outro lado da margem os macacos estão agitados. Há juventude que por ali anda, a viver os seus doces tempos. Namorados, amigos de bicicleta. Amigos a pé. Uns quantos mais velhos, de olhar nostálgico.

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Já sem luz natural vamos caminhando para o “hotel”, apreciando o palpitar da comunidade. Os miúdos que jogam futebol na praça central, a igreja que abre as portas deixando sair os fiéis que foram à missa. Estou rendido a Los Chiles, que na sua simplicidade ficou marcada como uma das memórias mais doces das muitas boas recordações desta viagem.

Jantamos no restaurante anexo. Somos os únicos clientes e a refeição contribui para a boa impressão geral. Estava muito boa e o preço foi óptimo.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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