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Argélia 2018 – Dia 1

Esta viagem ganhou contornos de rompante. A Argélia seria um país que queria visitar. Por nenhuma razão em particular. Porque seria mais um país a adicionar à colecção, algo que faço sem pudores nem problemas de consciência, apesar de ser cool dizer-se que estas contagens não importam para nada. Eu curto. E depois, porque tenho aquele projecto, agora dificultado pela situação da Líbia de passar por todos os países que formam a orla mediterrânica. Falta-me agora, lá está, a referida Líbia, a Tunísia, Israel, o Líbano e o Egipto.

Mas dizia eu… ganhou contornos de rompante porque para mim era um destino complicado em termos de visto. E parece que era, de facto, no passado. Mas já não. Basta visitar a embaixada, localizada no Restelo, e levar:

  1. Passaporte com validade para seis meses
  2. Seguro de Saúde incluindo explicitamente repatriamento e cobrindo a Argélia
  3. Cartão Multibanco para pagar 60 Euros. Só pagamentos por Multibanco
  4. Reservas de alojamento
  5. Bilhetes de ida e de volta
  6. Formulário preenchido, em duplicado
  7. Duas fotos tipo passe de preferência já coladas nos respectivos formulários

E pronto. Simples. É isto. Depois, passado uma semana certa, é passar por lá a levantar e pode-se partir à descoberta da Argélia. Mas atenção que a validade do visto é relativamente curta e não convém tratar do assunto com grande antecedência. Temos 30 dias para entrar na Argélia e 30 dias para lá passear.

Mesmo assim, a viagem à Argélia não seria uma prioridade, só que descobri voos de Faro, via Barcelona, por 170 Euros, com a Vueling, e entusiasmei-me. Alugaria um carro no aeroporto de Barcelona e passaria uns dias em Andorra, um dos quatro países europeus que me faltavam visitar (todos micro-Estados).

E assim foi. De Faro para Barcelona, procurar um cantinho para passar a noite. Por acaso uma noite terrível, basicamente sem pregar olho, e depois pela manhã a saída para Argel. Por lá, tudo preparado em termos de Couchsurfing! Seriam 3 noites em Argel, 3 noites em Ghardaia e 2 noites em Constantine… e no fim uma noite cuja localização seria determinada no curso da viagem mas que digo já voltou a ser em Argel, a única que efectivamente foi passada a pagantes, num belo apartamento no centro da capital argelina.

Cheguei a Argel bem cedo pela manhã. Formalidades de entrada ultrapassadas sem problemas, seguiu-se a troca de algum dinheiro. Muito pouco, só para chegar ao centro e para comprar um SIM card para o telemóvel. Isto porque a diferença de valor entre o câmbio oficial e o câmbio no mercado negro é abismal. No aeroporto, recebi 138 Dinars por cada Euro. Um oportunista andava pelo terminal a oferecer com voz melíflua 150 Dinars por 1 Euro. Mas uma vez com o meu anfitrião tratámos de o fazer a 213 Dinars!

Comprar um SIM é essencial, quanto mais não seja porque são muito baratos e a internet móvel é excelente na Argélia. Trata-se logo do assunto no aeroporto e com uns 10 Euros fiquei dotado de 12 Gb de tráfego e ainda chamadas e SMS’s. Uma maravilha! Ah! Diz-se que é complicado comprar SIM cards na Argélia, mas essa informação apesar de não ser falsa está obsoleta. Era complicado. Mas já não é.

Despachados os assuntos no terminal, com algum mau humor por causa da noite bem passada, foi tempo de procurar o autocarro para o centro, para a Place Audin. Simples. Anda-se até ao terminal doméstico, depois vira-se à esquerda e é sempre em frente, atravessando o estacionamento. Estava um autocarro para sair, pergunta-se, é mesmo aquele. A bordo, e em breve a caminho. Para o centro de Argel por 0,20 Euros.

É uma viagem relativamente longa e pouco interessante, mas quando me aproximo do destino as coisas começam a mudar e quando chega a altura de sair do autocarro já estou basicamente fascinado. Sabia que os edifícios coloniais franceses tinham um papel importante no charme do centro histórico de Argel, mas não esperava que fossem tão encantadores.

Há ali uma pequena confusão com o GPS e uma vez vencida posso pôr-me a caminho. O Abdou está a pouco mais de 1 km daquele ponto e é um passeio agradável, um passeio que repetirei muitas vezes nos dias que se seguem. Logo a seguir vejo pela primeira vez Le grande Poste, o antigo edifício principal dos correios e uma das grandes referências arquitectónicas da cidade. Segue-se a maravilhosa Place Emir Abdelkader, pequena e acolhedora, onde se encontra o café Milk Bar, umlocal com um passado dramático, atingido duas vezes por ataques bombistas, o primeiro durante a luta pela independência, quando uma jovem argelina deixou uma mala armadilhada para explodir no interior do estabelecimento, frequentado por franceses. O segundo deu-se no período da guerra civil, após as eleições de 1990. Ao centro da praça a estátua do Emir e em redor a Câmara Municipal e uma secção do Parlamento. Muita coisa para uma praça tão pequena, é espantoso.

Passamos por esplanadas onde um público variado se encontra sentado, vendo-se até mulheres sozinhas e em grupo, algo pouco comum no mundo árabe. E logo à frente encontramos o Abdou, que nos espera na esquina da rua dele. O Abdou é francês de origem argelina e como eu é formado em História, encontrando-se na Argélia em trabalhos de pesquisa para a sua teste sobre a importância das mulheres no movimento intelectual pós-independência. Tive muita sorte, não podia ter melhor anfitrião. A casa está localizada no melhor ponto possível e o Abdou é uma infindável fonte de informações!

Vamos a casa, deixamos as coisas e logo saímos com ele. Vamos visitar o hotel histórico Saint-George, inaugurado em 1927 e frequentado por grandes personalidades deste então: Edith Piaf, Simone de Beauvoir, General Dwight D. Eisenhower e Winston Churchill são apenas alguns exemplos. O hotel, ou melhor, as suas áreas comuns, pode ser visitado e destacam-se os seus belos jardins. 

Depois vamos ao Musée National des Antiquités et des Arts Islamiques, que fica ali perto e que é essencialmente um museu de arqueologia. Relativamente pequeno mas com uma bela colecção, especialmente da Argélia Romana.

Passámos horas nisto, porque quer o hotel quer o museu foram vistos com  muita calma e muita conversa pelo meio. Já se fazia tarde. O Abdou devia trabalhar mas o tempo passou num instante. Estávamos numa área de Argel um pouco afastada do centro. Tínhamos ido num carro, tipo Uber, mas não Uber.. um sistema argelino que funciona bastante bem. Agora, para regressar, como era a descer, vínhamos a pé. O clima estava óptimo, céu sobretudo azul, boa temperatura.

De repente noto a falta do GPS! Não está comigo. Talvez tenha ficado esquecido em casa ou talvez tenha caído no carro… o Abdou liga ao condutor. Vai ver e encontra-o. Gente honesta! Mais tarde passará por casa do Abdou para o deixar. Deixou-me feliz.

Bem, já no centro vamos trocar dinheiro a um homem que o Abdou conhece. Tem uma loja de roupa num mercado e trata de nos trocar Euros por Dinars a um valor fabuloso. Acho que foram 213 Dinars por cada Euro. Nas casas de câmbio o valor é de 138 Dinars! Isto reduz quase para metade o preço de tudo!

De resto aquela zona é encantadora. É uma zona de mercado. Na rua vende-se muita fruta, mas tudo extremamente limpo. Cada vez gosto mais de Argel.

Bem, mas agora há fome. Todos temos fome. Vamos comer ao Arabesque, um restaurante sírio, de que gostei tanto que voltei lá mais três vezes nos poucos dias que por aqui andei. Refeições saborosas, de muita qualidade, por preços tão baixos… 3 ou 4 Euros e toma-se um manjar inesquecível com vários pratos! Muito bom e recomendado. Mas atenção, que o ambiente é simples, como se fosse uma casa de fast food.

Depois de me deliciar com uma selecção de pastas para barrar no pão e com falafel e sumo de morango, despeço-me do Abdou que vai para casa ver se trabalha um pouco. A bem dizer estou estourado, apetece-me ir também e descansar, e ele diz que não há problema nenhum, mas quero dar-lhe espaço, a ele que foi tão generoso. Acho que precisa mesmo de trabalhar e com gente em casa não é a mesma coisa.

Ele faz-nos um plano de passeio que se revelou excelente. Subir a colina junto ao Grand Poste, pelas escadinhas, que parecem não ter fim. A meio há um jardim, muito frequentado pela comunidade. Nas costas a vista vai-se alargando à medida que subimos. Vê-se o mar, e a cidade antiga. Há navios na água, é a actividade portuária.

Uma vez lá em cima contornamos o estádio, que aquela hora está cheio de pessoas a fazer desporto. Joga-se futebol, corre-se e um grupo de homens pratica uma espécie de luta do pau. Grande ambiente. Dali a vista ainda é melhor!

Depois entramos numa área que o Abdou definiu como “proletária” e que, claro, é fascinante. Área residencial, edifícios um pouco degradados, a fazer lembrar de certa forma as ruas de Havana. Não há muito mais a escrever. O que vale ali é mesmo a observação das pessoas, das casas, das lojas. Estamos ao lado do kasbah, o bairro árabe tradicional, o único vestígio que sobreviveu á renovação urbana trazida pelos franceses. Mas isso ficará para o dia seguinte, com o Abdou.

Descemos. A orientação é fácil. É sempre a descer. Escadinhas, ruas pouco frequentadas e algumas mais agitadas. À medida que nos aproximamos da baixa encontramos mais movimento e chegamos a uma rua que fervilha de lojas e gente. Simplesmente fascinante. Grande passeio que o Abdou nos mandou fazer. Estava estafado – não esquecer que praticamente não dormi – mas valeu a pena.

Agora chegamos a casa e será descansar. O Abdou, coitado, acabou por não conseguir trabalhar nada. Ao serão ainda conversámos um pouco mas por fim,vencidos pelo cansaço, fomos dormir.

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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