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Argélia 2018 – Dia 2

Para a manhã deste primeiro dia completo na Argélia o meu anfitrião tinha prometido uma visita guiada pelo Kasbah. E falando sobre o Kasbah, há algo que queria dizer: é comum encontrar informação sobre o bairro antigo de Argel que diz que não é boa ideia andar sozinho por aqui. Que será recomendável usar um guia. É um absurdo. A sério. Talvez isto fosse verdade no passado. Afinal, até 1962, o kasbah era um centro de resistência à ocupação francesa e estrangeiros que aqui entrassem não teriam um bom fim. Até mais recentemente era um bairro com alguma margem de insegurança. Mas as coisas mudam. Esta coisa mudou. O Kasbah de Argel – que, já agora, é lugar classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade – é tão bom para passear sem guia como Alfama o era antes da vaga de turismo que assola Lisboa.

E portanto, a meio da manhã, lá fomos. Primeiro na zona mais próxima da cidade nova construída pelos franceses, quase ao nível do mar. É o chamado Baixo Kasbah. Muito comércio tradicional e por todo o lado aquele charme do antigo negligenciado, de novo a fazer lembrar algumas ruas de Havana.

Ali descobrimos um belo edifício de arquitectura pouco usual por aquelas paragens, com colunas dóricas. O Abdou ficou também intrigado, o que despoletou um longo debate com as pessoas que por ali estavam a vender numa espécie de mercado de rua. Parece que era uma associação para invisuais, mas antes disso ninguém sabe.

Prosseguimos o passeio, com muitas explicações por parte do Abdou, que traçou um historial da evolução da cidade e como o antigo Kasbah era na realidade muito mais amplo, cobrindo áreas que hoje estão ocupadas por edifícios caracteristicamente franceses.

Vimos um antigo teatro, que na realidade ainda funciona como tal para além de ser um centro cultural e depois iniciámos a subida para a parte mais profunda do Kasbah, que sobe pela colina acima, terminando junto ao cume, onde se encontra a fortaleza que na altura da visita se encontrava encerrada para renovação.

São ruas estreitas, como se esperam encontrar em qualquer medina árabe, não muito diferentes de algumas vielas da nossa Alfama. As casas estão degradadas, algumas em total ruína e outras, apesar de habitadas, parece ir desmoronar-se a qualquer momento. Na realidade este é um risco efectivo e têm acontecido casos com perdas de vidas.

Escolhemos esta hora porque as ruas são relativamente sossegadas. O que terá as suas vantagens, mas também retirou um pouco do aspecto humano à experiência e é óbvio que o Abdou não está muito interessado em contactar com as pessoas, está muito mais centrado nas coisas históricas e na arquitectura. Escusado será dizer que foi muito enriquecedor caminhar por ali com ele. Os seus conhecimentos são imensos e, claro, em determinadas ocasiões deu jeito ter um tradutor.

Na realidade fiquei surpreendido (muito surpreendido) com o número de pessoas que falam um pouco de inglês na Argélia. Esperava que apenas alguns argelinos, mais viajados e cultos, o fizessem, e afinal foi uma constante. Não para grandes conversas, mas para coisas básicas. Logo ali na medina, numa pequena praça onde nos detivemos por um bocado à conversa e observando uns detalhes, um jovem observava-nos. Quase que me senti desconfortável. Parecia uma “sentinela”, assim como nas favelas. Mas afinal não. Morava ali, na viela que desembocava no largo, e estava à espera que o almoço estivesse pronto. E depois daquele período de observação começámos a falar e tinha um inglês excelente!

Percorremos mais uma série de pequenas ruas e tudo o que encontrei foi gente simpática. De certeza que os há menos amigáveis, mas pelo menos fiquei com a certeza que são uma minoria. O mesmo se aplica à Argélia de uma forma geral. Entrámos em becos muito familiares, onde as crianças com uniformes escolares corriam e sorriam e pontualmente nos abordavam em francês ou mesmo em árabe.

De uma forma geral, apesar de não estarem habituadas a turistas, as pessoas na Argélia têm uma atitude digna, não estancam a olhar. Se acham estranha a visita de um forasteiro, disfarçam bem, o que para mim é excelente. Adoro!

Em determinado momento desembocámos numa vasta escadaria, que descia a colina do Kasbah até à baixa. Estava rodeada de prédios à francês e no final de cada lance de escadas existia uma espécie de praceta que desempenhava claramente um papel social. Mesmo aquela hora, quando as pessoas estavam no trabalho, havia gente por ali a sociabilizar, o que achei muito agradável.

Conversámos com uma senhora que vive no Kasbah, através do Abdou. Falou-nos da tristeza de ver as coisas mudar, as casas decaírem sem manutenção e de não haver mais visitantes. Queixou-se dos guias do Kasbah que levam os grupos pelos caminhos mais fáceis mas também mais desinteressantes. Uma senhora muito digna, vestida de forma muito tradicional, com uma máscara.

Num determinado ponto comecei a ver muitas bandeirinhas da Argélia e depois arte mural, que cobria as paredes da rua. Aquele é um local especial, onde se deu uma pequena batalha durante os dias finais da ocupação francesa, que terminou em 1962. Numa casa daquela rua se refugiaram alguns resistentes e na sequência da refrega ficaram cercados. Os franceses fizeram explodir a casa, gerando uma série de baixas colaterais junto dos residentes do bairro e hoje o local é um memorial que pode ser visitado quando está aberto.

Quando vínhamos a sair estávamos a falar da dualidade de termos… “terrorists” e “freedom fighters” e como tudo isto funciona… sucede que um dos guardas do espaço vinha também a sair e quando o Abdou usou a palavra “terrorist”, em inglês, os olhos iam saindo das órbitas do homem, que pensou que estávamos a falar dos argelinos como terroristas. Lá se lhe explicou, mas foi uma situação curiosa.

Este passeio foi fabuloso, uma memória para perdurar. Por fim chegámos ao topo da colina e comprámos alguma coisa para comer. Sentámo-nos num muro à conversa, petiscando e vendo o mar lá em baixo. Depois rondámos a fortaleza, no interior da qual se deu um episódio que serviu de pretexto para a invasão francesa, quando o embaixador francês foi esbofeteado pelo governante argelino após uma provocação verbal.

Ainda se tentou entrar, falando-se com uma arquitecta que supervisionava as obras, mas não deu mesmo. Então regressámos, descendo calmamente o Kasbah, pela rua principal, a que é usada pelos poucos turistas que visitam, e que de facto não tem muita piada quando comparada com tudo o que vimos nas vielas labirinticas.

Parámos umas quantas vezes, visitámos o interior de um palácio típico e conversámos com um grupo de tipos. Sempre sobre futebol, claro. A língua universal, que resulta muito bem aqui na Argélia, onde o pessoal fica deliciado quando menciono os nomes dos futebolistas que jogam ou jogaram em portugal, como Madjer, Brahimi ou Slimani.

Fomos ter à Praça dos Mártires, um vasto espaço com muita actividade social, onde foram encontradas estruturas da época romana e onde se encontra uma das pontas do pequeno sistema de metro de Argel, que compreende apenas uma linha que se estenderá gradualmente até ao aeroporto.

O dia chegava ao fim e começava a ficar frio, intensificado pela forte aragem marítima que se fazia sentir. Mas ainda vimos mais coisas. Havia tanto para ver…. entrámos num edifício actualmente usado para fins administrativos, mas como sempre me aconteceu o porteiro deixou ver.  E fomos ver duas mesquitas, a mais pequena, Djemaa El Djedid, e a Grande Mesquita de Argel, ambas na proximidade do mar.

Defronte da maior organizava-se uma “sopa dos pobres”, com uma linha de homens que se alinhava para recebe a refeição gratuita. A partir dali andámos junto às águas da baía. Passámos por dois campos de futebol cheios de pessoas a fazer desporto, próximo da base da Marinha. Há ali uma pequena doca de embarcações de pesca e mais à frente a velha gare ferroviária de Argel.

 

Seguimos o grande boulevard, construído pelos franceses, e não foi difícil de imaginar o esplendor daquela ampla avenida nos tempos áureos da presença europeia.  Está ladeada, para sul, por uma série de magníficos edifícios e é um passeio que se impõe a qualquer visitante da cidade, especialmente pelo final da tarde.

Convém ter ali algum cuidado a fotografar. Alguns destes edifícios têm segurança policial e os agentes não gostam muito de câmaras fotográficas, acho que nem tanto pelos edifícios mas mais por eles próprios.

Por fim voltámos a casa. Para descansar um pouco e mudar de roupa para jantar. Nesse serão iríamos a um restaurante tradicional argelino, uma experiência que correu bastante mal. Já não me apetecia especialmente ir, cansado do longo dia. E depois, enfim… o serviço era uma coisa horrível, a escolha basicamente era Cous-Cous e pouco mais e acabei por comer um pedaço de carne sem piada nenhuma e por tudo aquilo pagámos os olhos da cara. O suficiente para 3 ou 4 refeições num local mais agradável e com comidinha boa. Pronto, não se pode ganhar sempre.

 

 

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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