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Argélia 2018 – Dia 4

Que dia em grande. Por fim na mítica Ghardaia, relativamente inacessível, exclusiva. Apesar de parece no mapa de Argélia bem próxima de Argel, está a um mundo de distância, rodeada de deserto, mesmo que no contexto do maior país de África estar ainda longe daquilo que é considerado o verdadeiro deserto.

Ghardaia é apenas a principal das cinco cidades que formam o vale de M’zab, uma comunidade colectiva habitada por mzabitas, um povo berbere que professa uma crença no Islão próxima dos Ibaditas. Tudo isto é relativamente raro. Os Ibaditas são predominantes no Omã e em mais país nenhum do mundo, mas têm alguma presença na Tunísia e Líbia.

Portanto foi uma noite bem passada, naquela casa tranquila, rodeada de silêncio. Acordei cedo e ainda bem, porque bem antes das 9 horas já lá estava o Abdou. Trouxe pequeno-almoço e preaprou a mesa. A hospitalidade, sempre essa hospitalidade argelina presente.

Comemos com gosto e logo nos aprestámos a sair. A época carrinha da Vaca Que Ri aguardava-nos lá fora. O carro de serviço do Abdou, ao nosso serviço por dois dias bem preenchidos. E para já o destino era Ghardaia. Ghardaia mesmo, a povoação com esse nome, não a generalização.

Aquele bairro, o nosso, parece saído de um filme de Hollywood. No imaginário recheado de medo e fobias de Hollywood, é para um local assim que os ocidentais são raptados. Não importa se na Líbia, no Afeganistão ou na Somália. As ruas de terra, as casas de estilo árabe, sem muitas pessoas à vista… um cenário mesmo.

Bem, em Ghardaia a presença policial é muito intensa. Há dezenas de carrinhas do equivalente ao corpo de intervenção. Em cada esquina há uma viatura e um grupo de homens equipados. Caneleiras, escudos, capacetes. O ambiente é descontraído, como se estivessem num camping. Mas são centenas de agentes. Só ali, à vista. E porquê? Bem, a história remonta a 1962, ano da independência da Argélia. O novo governo decidiu que o nomadismo devia ser contrariado e ofereceu incentivos aos beduínos para se fixarem. E aqui o vale d M’Zab ganhou ma nova comunidade, começando logo as tensões com os Mezabitas que aqui habitavam. Ora há poucos anos eclodiu um violento confronto, com muitos mortos. A polícia está ali para garantir que isso não volta a acontecer.

O Abdou estaciona a carrinha e caminhamos até ao posto de turismo. Os estrangeiros não estão autorizados a visitar nenhuma das cidadelas do vale. Que são cinco. Toas as visitas têm que ser integradas e acompanhadas de um guia da comunidade local.

Saiu-nos em sortes o Sliman, um homem que iniciou a visita de forma algo formal mas que depressa se soltou, num crescendo de loucura saudável, até ao apogeu, atingido lá em cima, nos terraços da mesquita, onde já mandava chalaças, conversava com toda a gente, trocava endereços de Facebook e desafiava toda a gente do grupo para uma orgia fotográfica entre retratos com ele, selfies, e fotos colectivas.

Era, de resto, um grupo peculiar: nós, de Portugal, um par de alemãs, um par de jovens universitárias argelinas de outras paragens, o Abdou, e um…. tuaregue. Bom, mas começando pelo princípio, o único problema de Ghardaia é aquela irreprimível vontade de fotografar tudo que tem mesmo de ser reprimida porque em Ghardaia não se pode fotografar quase nada. As regras são estritas e  qualquer ângulo que envolva pessoas está proibido. Ora pessoas é mesmo o que me move nestas andanças por isso a frustração foi permanente.

As ruas estreitas são mágicas, fazem-me lembrar as de Mardin, no Curdistão Turco. Há escadas, rampas, casas de um e outro lado. Fazemos uma paragem no largo do antigo mercado para uma introdução à cultura local. Muitíssimo interessante!

Depois prosseguimos o passeio, a subir, em direcção à mesquita, que fica no topo. Podemos visitá-la. Aqui os não muçulmanos podem entrar em mesquitas desde que não esteja na hora da oração, ao contrário do que sucede, por exemplo, em Marrocos, onde não é permitido nunca visitar o interior dos templos.

Mais uma pausa para mais conversa, mesmo em plena sala de orações. Fotografia de grupo. Bom momento de convívio intercultural, e depois o Sliman mostra-nos o terraço, de onde a vista é avassaladora. Ali cada um fica por si durante um bocado. A visita está prestes a acabar. Mas antes, uma passagem pelo museu local, uma casa tradicional onde foi montada uma interessante exposição de artefactos tradicionais e onde nos são explicados alguns aspectos da vida quotidiana dos habitantes e das funcionalidades das habitações.

Daqui regressamos ao ponto de partida, onde pagamos pela tour, um preço simbólico, pouco mais de 1 Euro.

Agora está na hora de almoçar… e o que queremos comer, pergunta ou Abdou. Qualquer coisa. Pizza? Sim, porque não… na minha memória está a fabulosa pizza síria e a ideia de que no mundo árbae muitas vezes o que chamam de pizza é algo aparentado mas bem diferente da pizza comum… e para melhor.

Vamos a uma pizzaria, muito local, com um ambiente de tasca, extraordinário. Encomendamos uma pizza para todos. E quando chega… hummmmm que maravilha, bem dia a hora em que escolhemos comer pizza. OK, oficialmente, a melhor pizza de que tenho memória. O queijo, delicioso, não está apenas sobre a pizza… recheia a massa, especialmente nos cantos, aquela parte pobre que muitas vezes deixamos no prato. Impossível fazê-lo, assim. Terminado o prato principal o Abdou diz-nos que podemos ir lá fora escolher um gelado, porque é oferta da casa. E assim foi. Um geladinho delicioso, a fechar. E a conta? Ora bem, bebida, pizza, gelado, tudo incluído, foi cerca de 1,50 Euros a cada um! A única coisa má da experiência? Saber que dificilmente terei oportunidade de a reviver!

Antes de ir a casa o Abdou satisfaz um desejo meu: comprar tâmaras das boas. Leva-me a uma loja onde só se vendem tâmaras, dezenas de qualidades diferentes delas, e derivados de tâmara, como o pó branco que é um substituto do açúcar ou um pó preto que é um substituto do café, ambos provados e delicioso. Quanto as tâmaras escolho uma qualidade que sem ser a melhor de todas vem logo a seguir na hierarquia. A qualidade do serviço e a solenidade fazem-me pensar que estou a comprar jóias na 5ª Avenida em Nova Iorque. E saio de lá com uma pacote d tâmaras embalado de forma fabulosa. Para aí meio quilo de tâmaras de alta qualidade por uns 2 Euros. E já estou tão mal habituado que acho caro!

Agora o Abdou deixa-nos em casa. Ainda se está na hora do almoço e é tempo da sesta. Diz que nos vem buscar às quatro horas para vermos uma segunda cidade antiga do vale. E retira-se, deixando-nos no delicioso sossego da moradia tradicional que é o nosso lar para os dias de Ghardaia. Bem preciso, porque a manhã foi bem preenchida e porque ainda não recuperei da canseira da viagem até aqui.

A meio da tarde vamos então até Bounoura, onde o Abdou combinou com o guia local um passeio pela cidadela. Combinou mas o tipo baldou-se. Esperamos, telefonemas. Esperamos mais. Por fim o guia diz ao telefone que não vai aparecer e autoriza-nos a ir sozinhos, em seu nome. Alta irregularidade, mas OK. O Abdou não conhece nada daquilo, simplesmente vamos até ao topo, e sinto-me tão clandestino que não aprecio bem o local, sempre á espera que algum local se zangue connosco ou algo assim.

Do topo, junto à mesquita, está um grupo de mulheres que se esconde à nossa aproximação. Está um pouco de calor e as vistas são fabulosas. A tarde vai avançando e há no ar aquela serenidade de um quente final de dia. Um bom momento.

Para fechar, o Abdou leva-nos a ver um dos hotéis da região, onde trabalha um familiar. Ele tem familiares por todo o lado. Exploramos todos os recantos, vemos alguns quartos, salas comuns, terraços e espaços exteriores. Não se passa muita coisa. Parece não haver clientes, para além de uma senhora “loura”, talvez argelina, que está de partida. Apanha uma carrinha que o Abdou diz ser o táxi colectivo para Argel.

Depois, já a caminho de casa, ele decide mostrar-nos outro hotel onde, claro, trabalha outro parente. Mas parece que hoje este não está por lá. Mesmo assim espreitamos tudo e decidimos beber um chá no exterior, enquanto a noite cai. Está-se mesmo muito bem. Nos dias de Ghardaia só vi turistas em dois tipos de ocasião: nas visitas guiadas às aldeias tradicionais e nestes hotéis que visitámos.

Com o chá veio um prato de amendoins e por ali ficámos à conversa até que a escuridão e os mosquitos nos rodearam. Foi mais um bom momento na companhia do amigo Abdou. Agora iríamos para casa.

 

A Casa:

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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