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Ásia 2017 – Dia 18 – Ella

O último despertar naquela maravilhosa plataforma de madeira, rodeado dos pequenos sons da selva, com a gentil luz natural do dia que entra quebrada pelos ramos na habitação. Será um dia longo, quase totalmente preenchido com uma viagem de autocarro: de Tissa até Ella, a muito comemorada Ella, orgulho de [quase] todos os habitantes do Ceilão.

Há tempo para o pequeno-almoço, fecham-se as contas e arranja-se uma boleia de tuk-tuk para o cruzamento onde mais facilmente se apanhará um autocarro para o destino. Da estação de Tissa, mais perto, há poucos ou nenhuns.

O filho do proprietário leva-nos na sua maquineta de três rodas. Ainda são uns quilómetros, mas assim que chegamos aproxima-se um autocarro. Um breve diálogo entre o nosso anfitrião e o ajudante do autocarro e sim, é o nosso, vamos para bordo!

A viagem promete ser agradável. Não é dos autocarros mais desconfortáveis, o ritmo que sai dos altifalantes é melodioso e, claro, a vida à beira da estrada é pictoresca como sempre.

Vamos ter que mudar de autocarro, mas mais uma vez o processo é simples. Autocarros sempre foram uma coisa fácil de usar no Sri Lanka: muito baratos e com as pessoas a indicarem facilmente o que precisamos, mesmo quem não fala uma palavra em comum connosco.

Aproveita-se a pausa para uma visita à casa de banho, para comprar qualquer coisa para petiscar e logo já estamos no que nos levará finalmente até Ella. Um intervalo que soube bem. Há alturas em que uma ligação indirecta é bem-vinda.

Resumindo: viajar de Tissa para Ella não é directo e na teoria pode parecer complicado: ah e tal, ir até ao tal cruzamento, e depois parar o autocarro certo e a seguir mudar a meio do caminho…. Nada disso! Tudo super simples. No total foram um pouco menos de quatro horas de viagem, tudo incluído, muito próximo das três horas estimadas pelo anfitrião, que me tinham feito levantar um sobrolho.

Desgostei logo de Ella e ao contrário do que muitas vezes acontece, não foi um caso de se estranhar primeiro para depois se entranhar. Mas já lá vamos…

Portanto o autocarro deixa-nos no centro de Ella. Não há propriamente uma estação. É um desembarque à beira da estrada. E é um choque! De repente parece que estou em Portugal. No Algarve. Em Albufeira. Há talvez mais ocidentais à vista do que locais e em redor, a perder de vista, encontro cafés e restaurantes com cartazes em ingleses (vá lá, só faltava preços em dólares e euros, mas não).

A ideia é encontrar um tuk-tuk para nos levar a casa. Preço justo: 200 Rupias. O primeiro “cão”, logo muito arrogante: 300. E mais nada. Sem margem para negociação. Isto complica-se. Calor, calor, calor. Poucos tuk-tuk. Tentamos ir andando a pé mas em determinado momento percebemos que seria uma subida imensa. Apesar de serem apenas 1200 metros. Finalmente acertamos negócio pelo preço certo com um rapaz de tuk-tuk e lá vamos, chegamos.

É uma casa de família, muito local. Quando nos apresentamos, ninguém fala inglês. A pessoa para isso está lá em baixo, na localidade. Muito simpáticos, oferecem logo um chá, querem ter a certeza que enquanto esperamos estamos confortáveis. Esta hospitalidade foi mesmo a única coisa boa na Lover’s Stay, um bonito nome criado por gente bonita, mas nada mais.

Chega a moça que fala inglês. É um dínamo de energia. Logo nos dá duas opções: um quarto numa casa mais abaixo, com um terraço adorável com uma vista deslumbrante, ou um outro, na casa principal, espaçoso, mas sem vista. Escolhemos o debaixo. Parece bem. Humilde, mas isso não importa.

Grande erro. Está mesmo encostado à estrada e é impossível lá ficar: cada tuk-tuk parece passar dentro do quarto. Há autocarros que passam e então é como um tremor de terra. E quase sempre apitam, porque é uma curva. Simplesmente impossível. Felizmente deixam-nos mudar. Para acabar o capítulo da estadia, foram dois dias a pedir para ligarem a Internet e duas noites mal dormidas em finos colchões de espuma, com os cães da casa a ladrarem debaixo da janela.

Mas para já, instalados, pedimos à menina bonita que nos arranje um tuk-tuk para irmos à descoberta. Em menos de dez minutos temos transporte e, pelo menos isso, nunca mais teremos problemas em acertar o valor justo do serviço.

Ficamos no centro, mas vamos ao Little Adam Peak. São mais um par de quilómetros pelos quais teriamos que pagar o dobro do valor e assim como assim está um agradável dia e o passeio é simpático. Logo deixamos o coração de Ella para trás, as casas tornam-se mais escassas e muitas delas – ou quase todas – são pequenos negócios de alojamento.

Ajuda ter estas coisas no GPS mas seja como for é fácil encontrar o caminho para o pico. É uma caminhada demasiado fácil, mesmo depois de se deixar o alcatrão para trás. Existe uma espécie de entrada, mas não é preciso pagar para prosseguir.

O passeio continua e apenas quando se chega aos degraus a ascensão se torna mais íngreme. Mas faz-se bem. Lá em cima o esforço é devidamente recompensado. As vistas são maravilhosas, especialmente num dia perfeito como este, com o céu predominantemente azul mas com algumas núvens para temperar o horizonte.

Foi um passeio agradável. Quase que a única coisa agradável em Ella. E por ali por cima se ficou um bom bocado até que se sentiu que eram horas de prosseguir.

Dali para a ponte dos nove arcos. O circuito clássico. Uma coisa que me fez confusão: estes são os dois grandes atractivos de Ella, mas apesar da localidade estar a transbordar de estrangeiros, até que não andam muitos ali por cima. Melhor.

Encontrar o caminho para a ponte é simples com o GPS na mão, mas como sempre no Sri Lanka, quem não sabe só precisa de perguntar, que nunca falta quem indicar e sempre com um sorriso e de forma clara.

Passamos por um resort turístico de luxo, um local de sonho, com vistas deslumbrantes, onde não me imprtaria mesmo nada de ficar uns dias a escrever. Se não fosse uma diária de várias centenas de Euros, claro.

Depois atravessamos o asfalto e apanhamos um trilho pelo meio das plantações de chá, que nos levará até ao melhor local para observar a ponte e a passagem do comboio. Já tinha previamente investigado as horas com o pessoal do posto de informações turísticas que é na realidade da polícia.

No ponto, um simpático – mesmo muito simpático – jovem teve a boa ideia de criar um café local, e todos os dias vende bebidas frescas aos muitos estrangeiros que ali vão ver os comboios passar. As bebidas pagam-se, a sua companhia, boa disposição e informações, essas são de borla.

Quando chegamos não está ninguém. Faltam uns 20 minutos para o comboio seguinte. Nesses 20 minutos aquilo enche-se, demasiado. Passa a composição na ponte. Vem devagar, vinda da estação de Ella. E quando se afasta as pessoas descem à ponte.

Apesar de ser teoricamente proibido caminhar pelos carris, é normal que as pessoas o façam, e é assim que regressamos à povoação, chegando à estação ferroviária.

Tem sido um dia longo. Vamos comer qualquer coisa antes de ir para casa. A escolha foi em cheia. Numa “tasca” local com apenas duas mesas na rua como um Kotu de Côco que é uma coisa tão deliciosa que nem tenho palavras! Foi um bom momento, a ver todos aqueles estrangeiros a circular por ali e a comer algo tão saboroso.

Apanhar um tuk-tuk não foi complicado e fomos para casa, onde nada se passa. Um pequeno serão com o computador e chega a hora de dormir.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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