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Ásia 2017 – Dia 19 – Haputale

Uma das possibilidades para este dia era subir ao pico de Ella, uma caminhada um pouco mais exigente que a da véspera. Mas alguma informação contraditória sobre a facilidade em encontrar os trilhos até ao topo e um desencantamento geral com Ella fez-nos decidir pela segunda opção: tomar um comboio para Haputale, a apenas 90 minutos de distância, explorar por lá e regressar a meio da tarde. Foi uma excelente escolha.

O pequeno-almoço foi tão mau como tudo o mais na casa. Basicamente um prato de noodles, que eu detesto totalmente. Comi a micro-banana que acompanhava e bebi o chá. Tuk-tuk para baixo e estação. Bilhetes comprados. Esperar. A plataforma vai-se enchendo e olhando para a multidão poderia pensar que estava, sei lá, para aí em Helsínquia. Aquele momento definiu Ella.

A viagem foi agradável. Parte dela segui sentado nos degraus da porta. Ao escrever, das muitas coisas que vi, vem-me à ideia uma, a mais peculiar: no meio de um campo de cultivo, uma sanita, cuidadosamente instalada. Daqueles à turca, rentes ao chão. Mas não colocada ali, instalada, mesmo. Com uma meia-cortina para garantir privacidade para um dos lados, quem sabe, onde o vizinho costuma andar. Quanto ao comboio, pronto, bastaria não ter vontade à hora da passagem dele.

Gostei também de ver os terrenos de um liceu cheio de alunos, uma multidão de pontos brancos. E os campos de chá onde a tempos se avistam os apanhadores das folhas. E chegamos a Haputale.

Isto sim! Era aqui que devia ter ficado. Não em Ella! Haputale é tudo o que Ella deveria ser. Está também rodeado de uma paisagem espectacular de montanha, mas sem as hordas de turistas. Claro que chegam alguns, de comboio, mas quando comparado, não é nada. Quanto à localidade, não há pilhas de hosteis e hospedarias, nem cafés modernos nem nada disso. Há uma padaria-restaurante que serve de referência e onde se come muito bem, e uns quantos cafés locais menores. Um mercado, junto à passagem de nível, algum comércio tradicionais e uma multidão local.

Para além de tudo isto, tem o que Ella tem: plantações de chá, trilhos de caminhada, montanhas para trepar.

Haputale agradou-me tanto quanto Ella me tinha desagradado no momento da chegada. Mas não há bela sem senão, e o problema deste dia veio do céu. Não em forma de chuva, mas de tantas nuvens que se transformavam em nevoeiro que tudo ficou sombrio e sem graça. Frio e agreste. Foi esse, o senão. Mas não aconselho Ella a ninguém que não goste de estar bem rodeadinho de turistas, será muito melhor ficar em Haputale. Isto é, se a ideia não for estar rodeado de estrangeiros e de estabelecimentos turísticos.

Como tudo isto tinha sido decidido em cima da hora, não existia propriamente um plano para Haputale. Gostei da ideia de visitar o Lipton’s Seat, um ponto com grandes vistas onde Sir Thomas Lipton, o fundador do império do chá com o seu nome, costumava sentar-se a apreciar o mundo, durante os seus passeios pelas montanhas do Ceilão. Tinha acabado de descobrir a existência deste local, mas também descobri que era necessário pagar para lá chegar e que era o ponto mais turístico das imediações.

Havia ali um autocarro para lá, mas só partia passado hora e meia e depois haveria que encontrar a forma de regressar. Estava ali um outro, prestes a arrancar para a fábrica de chá de Dambatenne, a primeira do império Lipton. Bem, fomos andando a pé, só para ver. A escuridão adensava-se. Os campos de chá, em socalcos, não eram especialmente pictorescos. Vem um autocarro, vai para a fábrica. Saltámos lá para dentro por impulso. Daqueles havia muitos, podia-se regressar a qualquer hora.

O percurso foi muito interessante, com aldeias e igrejas a passarem nas janelas, o sol a despontar um pouco, e as vistas de montanha a brilharem.

Chegamos à fábrica, em redor da qual se formou uma aldeia. As pessoas são Tamil, hindus, portanto. São a mão de obra barata que manteve a indústria do chá a funcionar desde que os ingleses introduziram a cultura no Ceilão. Os bairros operários são pobres, bairros de lata rurais, com comunidades mal pagas a quem a vida raramente sorri.

A visita à fábrica é paga mas parece que não se pode tirar fotografias. Assim não. Prefiro dar uma volta por ali (nota: apesar da proibição, sei agora que em principio não há problema em tirar fotografias durante a visita… ou talvez dependa do cicerone, se houver mais do que um).

Bebo um chá numa tasca obscura frequentada pelos condutores de tuk-tuk. Umas dezenas de metros ao lado, uma série de estrangeiros abanca-se numa esplanada onde há dizeres em inglês.

Passa a furgoneta que ia para Lipton’s Seat. Pergunto aos tipos dos tuk-tuk quanto seria o transporte até lá e não gosto do preço. É quase o mesmo que de lá de baixo da vila, apesar de estarmos a poucos quilómetros. Assim não.

Vamos andando para baixo, caminhamos alguns quilómetros pela estrada. Passam dois autocarros. À beira do asfalto há um cemitério cristão em mau estado. Os ingleses deixaram a sua marca também na religião e logo à frente há uma pequena igreja. É o ponto mais visível de outra pequena aldeia.

 

De uma escola saem crianças. Uns putos irreverentes pegam numas pedrinhas com más intenções. Mais à frente existe uma paragem de autocarro. Já chega de palmilhar, ficamos por aqui. Aproxima-se um grupo de mulheres jovens bem vestida, à maneira indiana. São as professoras da escola.

E pouco depois, o autocarro. Directo a Haputale onde comi bastante bem antes de uma volta para investigar possibilidades para passar a noite seguinte. Com facilidade se encontram quartos de qualidade equivalente aos disponíveis em Ella mas mais baratos. Na Internet não há basicamente nada, é mesmo uma questão de aparecer e ficar. Fica a ideia para o dia seguinte. Dormir em Haputale ou seguir para Kandy.

E agora, fazem-se horas de ir para o comboio, não sem antes se fazer uma paragem para um chá com leite e um queque no café de um senhor simpático já bem perto da estação.

O comboio deixa Haputale para trás e aos poucos o azul regressa ao céu. Quando chegamos a Ella encontramo-la como a tinhamos deixada. Repleta de sol. Mas a tarde vai longa. Vou comer outro kotu. Se na véspera fiquei encantado com o de coco, hoje experimento o de banana e chocolate. Também bom, mas não tão bom. Dali mesmo levamos merenda para jantar. Uns bolos secos e um pacote de leite com chocolate.

Hora de tuk-tuk para a recolha. Chegar a casa, batalhar pela Internet como sempre. E fechar o dia.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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