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Balcãs ’11 – Dia 1 – Faro a Salónica

Passam oito minutos das sete da manhã, pela hora portuguesa, que tecnicamente foi deixada já para trás. Lá em baixo as terras de Espanha são uma visão fugaz, que será ultrapassada dentro de alguns minutos. Depois, será a vez da França passar sob mim. Charleroi estará na minha vida durante cerca de duas horas e depois o vôo para Tessalónica, a minha porta de entrada no mundo balcânico. Pelo canto do olho registo o momento em que o sol se revela pela primeira vez de hoje acima da linha do horizonte, enquanto penso em Yohannis, que se apresenta como John, o grego que conheci em Santorini em Maio passado. John trabalhava no hotelzinho familiar onde me alojei, e, no decorrer dos serões passados a sós no espaço comum que acumulava as funções de recepção e sala de estar, fomos travando amizade, de forma que os meus últimos instantes naquela ilha grega, esperando pelo ferry da uma da manhã, foram passados à mesa de uma esplanada, bebendo uma cerveja com o John.

Ele, tal como eu, é um filho insatisfeito na grande família nacional onde nasceu. Já procurou conforto no Reino Unido, depois regressou. A sua cidade natal, Tessalónica, é local maldito para ele. Com John partilho esta necessidade premente de me livrar dos espartilhos de um mundo pessoal que já é pequeno para nós. As rotinas locais tornam-se insuportáveis. Os pequenos defeitos dos nossos respectivos povos tornam-se monstruosidades, ampliadas por anos de saturação. Há que fugir, procurar outras paragens. Para já, viajo, com sofreguidão, procurando afastar-me da realidade que deixou de ser a minha por opção. John, tal como o fez no passado, prepara-se para deixar a sua Pátria. Próxima paragem: Austrália. E no meio de tudo isto, calhou que vamos estar em simultâneo no mesmo ponto deste pequeno planeta. E assim, a primeira noite da aventura balcânica será passada com uma face conhecida por perto. Ontem Santorini, hoje Tessalónica, no futuro, está-se a ver, a Austrália. Por alguma razão cósmica continuo a encontrar caras conhecidas espalhadas pelo mundo, à medida que todos nos deslocamos.

O dia decorre sem contratempos. Os dois vôos fazem-se bem, verificando-se a condição que há muito identifiquei para usufruir de uma viagem confortável: tenho o lugar ao meu lado vazio e sento-me à janela. Tenho espaço, posso descontrair, espalhar os meus tarecos e até as extensões do meu corpo. Escrevo, leio, trabalho. E num ápice estou em Bruxelas. No aeroporto tenho acesso à Internet e as três horas em terra passam num instante. A saturação torna o segundo vôo um pouco mais saturante, mas desta vez tenho as três cadeiras por minha conta, de forma que o estendal armado é total.

Chegar ao aeroporto de Salónica é algo de descomplicado. Em dois minutos saio do avião e estou na rua. Mesmo em frente à saida do terminal, a paragem de autocarros e um quiosque para a aquisição de bilhetes.

O John esperava-me na praça Aristotelous, um amplo espaço no centro da cidade, à beira-mar. E ali se nos juntou uma amiga dele. O John parte para os antípodas dali a 36 horas, e as despedidas são incessantes. Ficámos por ali, numa esplanada, até bem depois de escurecer. Depois, já apenas nós dois, caminhámos pela marginal, chegámos à torre branca, um imponente edíficio bizantino, mais tarde utilizado pelos turcos como prisão para condenados à morte. Parece que a execução era feita por decapitação ou enforcamento no topo da torre, que gradualmente se foi pintando de um encarnado lúbrege. Até que um dos condenados se ofereceu para a pintar de branco a troco da liberdade. E assim foi.

Antes de apanharmos o autocarro para casa, andamos mais um pouco, em busca de uma esplanada com wi-fi. Salónica fervilha de vida e ainda é Quinta-feira. Há muita gente nas ruas. Nem parece que esta segunda cidade da Grécia tem apenas 1,5 milhões de habitantes. Por uma das artérias, enquanto de um lado e de outro se sucedem restaurantes de “fast-food” e pastelarias, ao meio um fosso alberga vestígios de outras épocas. As muralhas e os testemunhos arqueológicos de civilizações passadas são uma permamente na cidade. Podem surgir a qualquer momento, de todas as dimensões e eras.

O John está obviamente cansado e assim que chegamos a casa apresenta-me aos meus aposentos e retira-se. Leio uns minutos e também eu apago a luz. Faltavam dez minutos para a meia-noite e dormi bem.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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