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Balcãs ’11 – Dia 10 – Tirana a Lushnje

8 de Outubro

Adeus Tirana, ou então até breve, porque não está fora de questão que volte a dormir aqui uma noite, para a semana, de passagem do sul para o norte. Caminho até à estação de autocarros do sul, que mais não é do que uma linha de viaturas estacionadas na rua. É um pouco mais longe do que me tinha dito, mas a caminhada faz-se bem, mesmo com a chuva que começara a cair de noite a regressar. Por falar nisso… eram umas 2 da manhã quando acordei com um tremendo trovão, e pouco depois comecei a ouvir a chuva, que ainda não tinha feito a sua aparição nestes primeiros sete dias de viagem. Mas vá, ao acordar, a coisa tinha acalmado.

Portanto, descoberto o local onde os autocarros que seguem para o sul do país se dirigem, com a ajuda mímica de dois homens locais, procuro a camioneta para Lushnje. E encontro-a, quase no último lugar da fila e com aspecto de que não vai para lado algum nas próximas horas. O engagador do primeiro autocarro da fila apanha-me. Não gosto da sua pinta de vendedor de banha da cobra, e desconfio que vou ser largado na auto-estrada que corre perto da pequena cidade, e não no centro como explicitamente lhe perguntei. Mas pronto. Quando entro e tomo o meu lugar são 8:15. Mas uma hora depois ainda estou em Tirana. O autocarro pára em cada esquina para recolher passageiros. Às vezes com os pontos espaçados uns meros 200 metros. Sem contar com as pessoas que o vendedor de bilhetes tenta aliciar, sem sucesso, mas que lhe merecem a perda de longo tempo.

Aproveito este tempo para fazer um balanço da visita a Tirana: vi tudo o que tinha pensado ver, tendo que considerar que a praça central foi uma meia vitória, considerando o estado em que se encontra devido às obras que lá decorrerm; as coisas que me ficarão mais na memória: a casa de Hoxha, pelo simbolismo histórico do local, pelas histórias que me foram contadas em silêncio pelas pedras do muro, pelo portão metálico… depois, a mesquita, pela recepção calorosa, por ter entrado (por princípio nao entro em templos, mas com um convite tão simpático, tive que abrir uma excepção)… fica a memória de uma cidade vibrante, cheia de confusão, com uma profunda cultura de cafés. Mas acima de tudo duas ideias: primeiro, o enorme amor que os tiraneses dedicam a todas as formas de poluição; a sua vertente sonora, é terrível… o falar alto seria o menos, não fossem as buzinadelas constantes que emergem do trânsito louco… e garanto-vos, metade das vezes não existe uma razão para além da que se encontra na imaginação do condutor para apitar. A sério. Estive a observar e é surreal. Eles apitam às moscas. Depois, parece que toda a cidade está desenhada para causar barulho. Até o maquinista do comboio mantém a mão na buzina, dando-lhe uso sem parar ao longo do percurso de uma hora que fiz ontem. Os polícias de trânsito usam os apitos de forma generosa, de novo, por vezes sem razão aparente. Há o portão metálico que de cada vez que se fecha causa um estrondo… o ciclista que passa com uma buzina infernal que vai emitindo o seu som estridente de forma automática e periódica… até os deuses parecem aqui alinhar neste concerto de ruídos… não são só as chamadas para a reza na mesquita… é a trovoada!! Mas a poluição não se fica por aqui…. como o parque automóvel é imenso e extremamente degradado, a emissão de fumos é fortissima. E eles não ajudam. Hoje, o condutor ligou o motor do autocarro quinze minutos antes de sair e ali o deixou a queimar. Aos fumos dos motores juntam-se os de tabaco, que é fumado em todo o lado, sem restrições. e com a agravante de feder especialmente. No meio deste orquestra polutiva, o lixo por todo o lado não fica a destoar. Nos subúrbios, chegam a ser pilhas de vários metros, micro-aterros expontâneos sem fim à vista.

Uma coisa salta à vista em Tirana: é um mundo de contrastes. Aqui, um prédio degradado, a cair literalmente aos pedaços, com as varandas a ameaçar ruir a qualquer momento, e mesmo ao lado, um esplendoros edíficio, espelhado, com todos os apetrechos e efeitos da mais moderna arquitectura. À porta do bloco quase ruína, um Audi de último modelo, enquanto frente à imaculada estrutura, um carro de identificação impossível, com a chapa quase totalmente corroída pela ferrugem. No passeio feito de bela calçada, que mais à frente termina abruptamente deixando a rua sem uma berma que seja, passa um homem com a pele curtida de muitos anos de dificuldades, com a boina preta característica, e que se cruza com uma mulher que poderia passar por uma modelo de meia-idade, saltos altos, saia pelo joelho, maquilhagem impecável, ares de executiva de sucesso. Do outro lado da rua, um barbeiro encosta-se ao umbral da porta do seu estabelecimento, onde uma única cadeira espera por clientes, enquanto que dez metros à frente se entra para um centro comercial monumental, com todas as lojas do costume.

Eu sabia que havia uma boa razão para desconfiar daquele cobrador de bilhetes, O tipo despeja-me na estrada 8 km antes de Lushjen e manda-me para um minibus, isto depois de me ter cobrado até mais do que devia pelo bilhete. O furgão vai cheio, mesmo. Fazemos um par de desvios para largar e recolher passageiros em aldeias não muito longe da estrada principal e chego por fim ao destino. O condutor pergunta-me para onde vou e leva-me lá… apesar de ter que ser eu a indicar o caminho, espreitando o GPS. Terminado o processo, pede-me 400 Lek pelo trabalho. Ora isto em abstracto é muito pouco, considerando o serviço personalizado. São 2,80 Eur. Acontece que só tenho uma nota de 200 e outra de 5000 e, confrontado com a situação, o tipo fica-se pelos 200. 1,40 Eur. Só que, pelo que me diz depois o meu anfitrião, 50 Lek seria o preço justo. Decididamente não consigo adaptar-me a estes valores.

O Kip tem de sair, foi convidado para um almoço, diz que deve demorar duas horas, mas a coisa prolonga-se e regressa passado cinco, já tarde avançada. Por mim, perfeito. Soube-me muito bem esta tarde sossegada, para colocar muita coisa em dia e descansar depois do stress de Tirana. Mais tarde junta-se um outro americano, que vem de uma cidade próxima – Berat – para passar o fim-de-semana aqui. Saimos para beber um copo e jantar. Memorável. Não pude tirar fotografias, mas não esquecerei aquela mesa cheia de comida deliciosa… um frango bem gordo já dividido em pedaços de carne suculenta… as espetadas… o prato de batata frita caseira… a travessa de salada “grega”… o prato de molho “sauer”… o prato com a pilha de pão semi-torrado… a cerveja geladinha e o raki a fechar a refeição… a conta? 500 Lek, ou  seja, 3,50 Eur !!!

Na saida pedimos que nos encha uma garrafa de água com “raki” para nos acompanhar ao serão. Mais 2 Eur. E depois foi conversar até tarde, boa conversa, gente interessante.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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