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Balcãs ’11 – Dia 16 – Shkoder, Bar, Budva

14 de Outubro

Caminho calmamente até ao autocarro que me levará para o Montenegro, parando uns breves instantes para trocar os 1000 Lek que me sobraram. Recebo 7 Eur, e fico admirado… se calhar tenho que rever a minha aversão às casas de câmbio… este é o valor que o xe.com me dá. Se calhar não referi isto, mas de cada vez que levantei 5000 Lek paguei 5 Eur de comissões e despesas diversas. Encr-ontro sem problemas o autocarro, exactamente no lugar onde o Kerry, essa infindável fonte de conhecimentos inaflíveis me disse que ia estar. Quando estou a atravessar a rua, passa por mim o furgão que ontem me trouxe para Shkoder… apitos, sorrisos, cumprimentos e adeuzes! É sempre engraçado esbarrar em gente conhecida quando se está num país estrangeiro.

Pago o bilhete… 6 Eur. Acabou-se a papa doce, os 2 Eur para quase atravessar um país. No Montenegro impera o Euro… e os montenegrinos, e isso não é uma coisa boa. Mas essas são outras estórias que virão mais para a frente. Para já relaxo, escrevo um pouco nos minutos que faltam antes do pequeno e confortável autocarro se pôr em marcha. Penso na abismal diferença entre esta cidade e os outros locais da Albânia que visitei e de como gostei de passar aqui este par de dias.

À hora marcada (já agora, fica a informação: há dois autocarros diários de Shkoder para Ulcinj – esta é a única ligação entre a Albânia e Montenegro – e partem às 9:00 e às 16:00) pomo-nos em movimento. A fronteira está a poucos quilómetros. Aqui existe apenas um posto, onde agentes de ambos os países fazem o seu trabalho, acelarando o processo de cruzar a linha divisória. Assim que nos pomos de novo em movimento noto a diferença enorme que pode acarretar cruzar-se uma zona de 10 metros. É que não se trata apenas das pessoas e do que lhes está inerente. A própria paisagem muda e pela primeira vez em semanas vejo bosque. Verde, denso, lindo, com raios de sol obliquos que sublinham as heras que se emaranham em redor daqueles troncos de árvores. Árvores. Na Albânia é como se não existissem. Quer dizer, árvores dignas de nome.


O dia está excelente e o estado de espírito deste viajante está lá no topo. A Albânia, esse país tristonho de gente depressiva, língua agressiva, lixo, poluição, aldrabice… tudo isso vai ficar para trás. Novos problemas surgirão, mas estou disposto a arriscar. É com satisfação que deixo a Albânia para trás e entro num mundo que me é muito familiar, de cultura eslava e, como verei em breve, paisagem muito portuguesa. Vejo o mar, que parece um oceano. E chego a Ulcinj. A estação de autocarros é óptima e uma senhora num inglês perfeito dá-me todas as indicações de que preciso… dali a 10 min arranca um autocarro para Budva… e sim, posso apear-me em Bar e apanhar outro mais tarde, porque saem de lá de hora a hora. Óptimo. Assim vejo dois locais num só dia. Uso a casa de banho, limpa como pode estar numa estação e entro no meu transporte. Sinto alguma pena por não poder dar uma vista de olhos à zona antiga desta pequena cidade, mas os autocarros páram na periferia, e não seria boa ideia gastar tempo e energia nessa aventura.

A estrada até Bar é quase toda junto à costa. Sacio-me com aquele azul que já não via há tanto tempo. E rapidamente estou em Bar. Montenegro é um país pequeno, mas isso nota-se acima de tudo na sua faixa costeira, mais condensada que o interior. É fácil e rápida (barato não poderei dizer, pelo menos depois de sair da Albânia) correr-se aquela costa toda. As grandes referências turísticas e urbanas estão separadas por 15, 20 Km. Há autocarros com frequência.


Da estação de Bar até ao centro são cerca de 800 metros, talvez um pouco mais. Deambulo por ali, curioso, mas não há muito para ver. Bar revela-se um local ensonso, com uma praia e nada mais. Fica na memória o centro comercial de outras épocas, fruto de um socialismo especial, que não impedia algumas liberdades consumistas. No passeio junto à praia uma multidão de crianças em idade pré-escolar brinca, devidamente enquadradas pelas educadoras, zelosas. Caminho despreocupadamente até ao fim daquilo tudo, dou meia volta, e sei que Bar para mim está acabada. Regresso à estação, matutando na Stari Bar, ou seja, na Velha Bar, que avistei a partir da estrada, mesmo antes de chegar. Trata-se, como o nome indica, do núcleo histórico da cidade, que apesar de estar em ruínas, está no centro de uma nova localidade. As voltas que a vida dá…. mas por mais voltas que desse, não consegui lá ir… fica como uma das frustrações desta viagem. Primeiro pensei em caminhar. Mas com o calor e o dia longo que tenho pela frente não é boa ideia envolver-me num projecto que envolve palmilhar cerca de dez quilómetros. Depois perguntei pelo autocarro. A paragem encontrei, mas ninguém me disse de quanto em quanto tempo passava, e depois de estar sentado no lancil do passeio durante uma meia-hora, acabei por desistir. Acho que foi naquele momento que se deu uma inversão no astral, que se iniciou com o fracasso do projecto Stari Bar, com a antipatia das pessoas a quem pedi ajuda, com a chegada de um manto de núvens que obscureceu o sol até ao fim do dia, com a espera de hora e meia que tinha pela frente, com o ar perfeitamente repelente do pessoal do próximo autocarro, com o preço do bilhete (4,50 Eur por uns meros 25 Km).

Quando cheguei a Budva pensava que tinha o dia arruinado, mas deu-se uma nova reviravolta, num dia emocionalmente cheio de contradições: descubro o hostel com facilidade e espera-me o Nikola, que é o dono. Este é um hostel muito especial. Aquilo é mais um menino que montou uma casa para receber gente no andar de cima da casa dos pais. O ambiente é amador, cheio de improvisação… o que não é mau, por mim, óptimo, é assim que gosto. Fico logo a saber que o tipo vai-se pirar, o casamento do irmão é amanhã, assim, manda-me as chaves do estaminé para as mãos e estou por minha conta. Saio logo a seguir, para explorar Budva enquanto ainda há luz solar, e nunca mais o vejo… nem a ele nem a ninguém, sem contar com os homens que estão sempre a enfardar comida de engordar no espaço exterior do andar térreo. A comer e a beber. Aliás, quando cheguei, estava entusiasmados a acabar uma produção de “raki”.


Chego até à praia, depois de passar por um edíficio em construção. Uma torre enorme. Uma coisa é certo: este pessoal do Montenegro sabe como destruir o potencial de um país e arruinar a sua beleza natural. A ganância que se sente no ar faz-me pensar nos algarvios, sobretudo das gerações mais velhas, que apanharam o boom do dinheiro fácil, nos finais dos anos 70. Junta-se a esta receita, já de si explosiva, graus de corrupção que se materializaram logo perante os meus olhos, quando o autocarro em que seguia encosta, furtivamente, junto a um furgão. A bagageira deste abre-se e lá dentro estão 15 ou 20 bidões de gasóleo. Sabe-se lá de onde veio, talvez do exército. Ali mesmo o depósito do autocarro é atestado, e dinheiro muda de mãos. O cobrador tem um aspecto sebento, asqueroso… pede-me 1 Eur extra para a bagagem, Euro esse que vai directo para a sua carteira. E mais 2 Eur dos outros turistas da viagem. O condutor, parece um gangster. Vinte anos antes e seria um sério candidato a criminoso de guerra.

A praia mostra as marcas de umas quantas épocas bem vividas. Está decadente e há lixo. Não nas proporções míticas da Albânia, mas mesmo assim, lixo a mais. Mas a praia é apenas uma passagem… para a cidade antiga, que é o que realmente me interessa. Praguejo com os meus botões acerca daquela luz tão má para fotografar. Nuvens baixas e finas… sugam a côr toda deste mundo e não há nada a fazer. Contudo, a realidade é esta e tenho que viver com ela. Uma tarde para gastar em Budva, que me começa a entusiasmar tanto como o meu hostel. Chego a pensar que devia ficar mais um dia, mas não… seria tempo de mais. Mesmo o amanhã será, em boa parte, uma segunda de não nesta interessante cidade. E talvez tenha uma outra luz, quem sabe. Mas para já é que há. São cerca de 700 metros junto à praia, cheios de restaurantes, pontões, barcos e barquitos, homens que pescam, mulheres que passeiam os seus rebentos, velhotes que esperam novos dias que nunca virão, e uns quantos de bancadas armadas que tentam fazer pela vida.

Quando chego às muralhas da cidade antiga fico algo incomodado. De novo, a ganância. O local foi convertido num imenso centro comercial, atafulhado com restaurantes, cafés, esplanadas, que quase nem deixam perceber onde são os portões, que parecem apenas as entradas para as casas-mãe das tais esplanadas. Entro no espaço interior, intra-muralhas, para sair logo depois por outra porta, que dá para o mar…. e para mais uma esplanada que domina. Defronte, uma praizinha, privada. Muitas praias do Montenegro são privadas. Vejo uma passagem por entre as rochas, do meu lado direito, e vem-me à ideia uma dica que o Nikola me deu, de um passeio para duas praias escondidas naquela direcção. Ainda dei umas boas voltas até descobrir como chegar ao acesso correcto, muito bem escondido pela imponência dispensável de mais um complexo turístico, que caiu sobre o mar, obscurecendo não só o passadiço como a beleza natural do local.

De novo, a luz, tão inapropriada para iluminar o que vejo. Tal como prometido, vou desembocar numa praia paradisiaca, passando antes junto a uma elegante estátua, cujos contornos se recortam contra o céu pardo. Dali vejo a cidadela de Budva como se me aproximasse de barco. A torre do relógio, lá no alto, é a figura mais distinta. Na praiazinha, um grupo de homens remove lixo. A julgar pela quantidade são desperdícios acumulados durante todo o Verão. São dezenas de sacos grandes, todos bem cheios… imagino o aspecto do areal em finais de Setembro.

Regresso, e entro de novo na zona muralhada da cidade antiga. Descubro o coração da localidade, na parte mais alta. O charme que irradia é contrastante com a invasão bárbara de estabelecimentos vocacionados para o turismo. Uma bela igreja ortodoxa ocupa o centro, ao lado da tal torre de relógio, e, junto à muralha, vejo uma capela que já viu melhores dias. Está-se a levantar vento. Em breve regressarei ao aconchego do lar emprestado. Saio da cidadela numa zona que é nova para mim, onde na marina se encostam de braço dado iates de luxo. Já há poucas pessoas a circular e inicio a marcha de volta. Quando cheguei, aquela marginal pedonal estava bem animada, mas agora que a noite se prepara para cair, sem ninguém, o carácter decrépito da zona ganha novo contraste.


Procuro o supermercado, abasteço-me para a festa alimentar que planeio: ovos mexidos com queijo, pão, leite e mais uns petiscos. Vai ser um serão calmo, que perspectivo com mais clareza quando chego e começo a usufruir daquela privacidade inesperada que me dá um sentimento de estar em casa. Tudo por minha conta. A cozinha tem um toque doméstico que me agrada. Não falta nada, e rapidamente estou a cozinhar. Esta comidinha quente sabe-me que nem ginjas. Já consolado, de barriguinha bem cheia, vou-me resfatelar na cama a fazer os meus trabalhos. Entretanto o vento de fim de tarde cresceu, é agora uma autêntica tempestade. Tudo bate e chia, o ambiente torna-se algo assustador, mas depois de fechar a porta do quarto à chave a sensão negativa esvai-se.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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