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Balcãs ’11 – Dia 15 – Shkoder e Lago Kaman

13 de Outubro

Acordo às 6 e pouco da manhã. Hoje deverá ser um dia grande, o da viagem de barco pelo lago, considerada como uma das mais cénicas do mundo. Foi uma das coisas que, há vários meses, me chamou a atenção quando começava a planear esta viagem. Na altura pensei: “Tenho que fazer isto”. Mas depois, lendo todos os passos necessários para lá chegar, desenvolvi uma certeza secreta de que nunca viria a ser possível. E afinal, aqui estou, a esfregar os olhos, preparando um frugal pequeno-almoço e pronto para a partida. Para tornar isto possível, só mesmo os conhecimentos dos meus anfitriões americanos em Shkoder, que me forneceram todos os detalhes… horas, locais exactos, preços… mais claro não podia ser, e, em caso de emergência, existem voluntários da organização deles em todo o lado… para caso de catástofore total, “alguns têm carro”, por isso estaria sempre safo.

E preciosa foi toda essa informação, porque a complicada rede de passagens de uns transportes para os outros decorreu sem precalços: furgão de Shkoder para Koman, às 7:00; em Koman, onde cheguei as 8:40, apanhar o barco, se possível o pequeno, que sai às 9:00… senão, o grande que leva viaturas, partindo às 10:00. Chegado a Fierze, não há nada que enganar, o furgão está à espera mesmo ali, é só entrar e sair em Bajram Curri, onde apanho o furgão das 13:00 para Bailot (a meio caminho entre Tirana e Shkoder) onde chegará pouco depois das 17:00… e depois é esperar que passe o autocarro que sai de Tirana precisamente à mesma hora, e que levará uns 50 minutos a ali aparecer. Pronto. Caso o leitor esteja a planear uma viagem à Albânia e queira mais detalhes, é só escrever-me uma mensagem.


Está na altura de fazer uma confissão: já tudo preparado, eu na rua, a andar em direcção ao primeiro furgão, cheguei a ter dúvidas. Pensei em regressar simplesmente para casa e acabar o sono interrompido, ou em arranjar uma alternativa para passar o dia e chegar ao fim da tarde como se nada fosse…. isto porque numa viagem de contenção de despesas me estava a fazer algum comichão queimar o equivalente a 15 Eur de uma assentada… e depois, havia o risco de o tempo se pôr feio, quem sabe, chover… mas lá fui… a verdade é que lá fui. E ainda bem. Como se verá mais à frente, não só pela travessia de barco mas também pelo que fui vendo nos percursos terrestres.

O primeiro percurso foi mais longo do que calculava, e tornou-se mesmo desagradável pela má companhia. As pessoas que vinham transportavam uma aura negativa, o condutor tinha aspecto de burlão (mais um) e de facto cobrou-me mais 100 Lek do que a conta certa. O companheirão do dono do transporte era outro velho mal encarado que, como vim a descobrir mais tarde, era o capitão da barcaça. Mesmo assim, valeu pela componente cénica dos últimos quilómetros, que correm já lado a lado com o rio. Aquilo dá voltas e mais voltas, a estrada é geralmente má, transformada num lençol de pedras e buracos nos pontos em que a água, vinda das montanhas, escavaca aquilo tudo na sua ânsia de encontrar aquela velha amanha, a gravidade. Nalguns pontos mais críticos vêem-se marcas dos esforços humanos em manter a via aberta, e numa curva uma série de maquinaria trabalha nos últimos estragos. Quando parecia já que a viagem não ia ter fim, vejo o paredão de uma barragem, e logo entramos num túnel, austero, aberto à bruta na montanha, com paredes de rocha nua, que se estende por uns 500 metros. Saímos da escuridão e estamos lá. Uma azáfama dos diabos. Há um restaurante e mais umas quantas casas de funções variadas, e, em frente, um grande número de furgões recolhe passageiros. O barco deve ter acabado de chegar e uma multidão distribui-se pelos meios de transporte, numa imagem notável de variedade e côr. As velhinhas, vestidas à maneira tradicional, arrastando as suas cargas… as jovens, modernas, quase cosmopolitas, cartas fora daquele baralho, onde predominam os homens rústicos de todas as idades. O rapaz alto pergunta-me em inglês se vou para Fiere e aponta-me o barco. Óbvio, é o único. Descobri depois que a seguir ao velho trombalazudo, o espigadote é o segundo capitão. Fotografo a torto e a direito e num instante o tempo passa, o homem senta-se ao volante (sim, aquilo tem um volante), toca a buzina um par de vezes para que nenhum retardatário fique em terra, e arranca.

A mais de mil metros de altitude e às 9 da matina está um frio dos diabos. Assim que a proa aponta para o destino e o barco ganha velocidade vejo aproximar-se o outro, o grande, que o Terry me disse para evitar se possível. Não que esse tenha algo de mal, mas o pequeno é muito mais interessante. No grande viajam os passageiros de longo curso, sobretudo os que vão de Bajram Curri para Tirana ou Shkoder. Mas no meu vão os locais, e isso traz um outro sabor à viagem conforme viria a descobrir mais tarde. Depois do entusiasmo inicial a paisagem torna-se monótona e o frio aperta. Cedo e recolho-me na cabina, organizada como um autocarro, em fileiras de quatro lugares com um corredor ao meio. Restabelecido o equíbrio térmico volto lá para fora, e estas indas e vindas serão constantes até ao fim do percurso, cada vez mais espaçadas com o aumento gradual da temperatura enquanto a manhã avança.

A paisagem é indescritivel. De um lado e de outro do “canyon” erguem-se as paredes imponentes das montanhas, umas vezes cobertas de vegetação e árvores, outras, mais dramáticas, mais não sendo do que paredes verticais de rocha, que chegam às centenas de metros. Por vezes, quando há uma ocasional quebra nestas barreiras laterais, avistam-se os cumes mais altos, para norte, com neve no topo. O barco vai evoluindo, descobrindo passagens onde parece não haver saída possível, por vezes sulcando águas mais agitadas pelo bater do vento, outras vezes atravessando autênticos espelhos.

A viagem dura um pouco mais de duas horas e é entrecortada pelas paragens mais surpreendentes, para apanhar e largar passageiros. E, mais do que o impacto visual das paisagens envolventes, foi isto que me marcou mais. Estas pessoas, que vivem nas áreas mais remotas das já austeras e rústicas regiões de um país por sim rural e distante. Como será passar ali os dias de uma vida, sem mais ninguém para além da família que se for constintuindo, esperando pelo barco, que passa uma vez por dia, quando se precisa de ir aquilo que pare eles será a grande cidade e para mim não é mais do que uma aldeia de maiores proporções? Não dá para descrever a forma como eles aparecem, nas margens, vindos do nada, rodeados de penedos que a olho parecem intransponíveis. E contudo haverão trilhos, maneiras de um peão chegar à beira da água, onde permanece, sentado, à espera, olhando a curva do rio, aguardando pelo bater cadenciado daquele velho motor a gasóleo. Mas talvez mais impressionante são as partidas. A embarcação avança, decidida, e de repente o engenho afrouxa, vai-se parar… e ao principio, preocupado, não percebia porquê… até ver o piloto encostar a proa a uma qualquer parede de rocha e ver um passageiro mandar-se pela borda fora, saltando para terra firme, com sacos e volumes numa mão, a outra fazendo um gesto de despedida aos que ficaram. E depois, é vê-lo desaparecer, por entre os matos, quase a pique, subindo, subindo. Os primeiros ficaram num local relativamente evidente, com um conjunto de casas a surgirem pouco depois, bem visiveis. O segundo, parecia caminhar para lado algum, quando vi uma pequena quinta mais acima, com montes de feno preparados para o inverno. Mas a partir dai tornou-se incompreensível, com o surrealismo a chegar ao máximo no desembarque da bonita rapariga, vestida como qualquer rapariga de Lisboa, que saiu do barco na base de um declive quase a pique, e desapareceu, aos poucos, sob aquele manto de verde, a caminhar com energia por ali acima. Mais à frente, uma cena enternecedora: avô e neto esperam na margem, sentados… mas estão a uns 200 metros do ponto onde o barco toca a terra, e a avó sai… o neto corre, como num filme, e o momento parece eternizar-se, até se envolver num abraço com todo o amor deste mundo com a sua querida avózinha.

Quase a terminar, o barco larga quase todos os passageiros num sítio onde por uma estrada de terra batida chegaram três ou quatro furgões que carregam toda a gente. E logo a seguir é Fierze, o ponto terminar onde é a minha vez de embarcar num furgão para a cidade mais próxima

Bajram Curri é um fim de mundo, uma aldeia chamada cidade deprimente, suja, decrépita, com as imponentes montanhas do norte da Albânia como pano de fundo. O furgão deixa-me no centro, pergunto onde apanho o transporte para Tirana, e basicamente é ali, do outro lado da estrada. Estico um pouco as pernas descendo uma rua onde o mercado parece estar nas suas horas finais. Procuro um supermercado, mas apenas vejo um par de mercearias. Acabo por comprar um par de bananas a uma vendedora de fruta. Depois vou ver como é que estamos de autocarro para regressar. Primeira tentativa: 1000 Lek e sai às 14:00. Não gosto nem do preço nem da hora de partida, que me irá deixar em Bailot muito perto, senão para além, do máximo possível para apanhar transporte para Shkoder. Sento-me num muro a comer uma banana e a pensar na vida. De seguida, volto à carga, Desta vez, sucesso. O furgão da frente, que diz Durres, e não Tirana, é comandado por um homem de expressão simpática, creio que o primeiro do seu género com uma aura positiva que vejo na Albânia. Que sim, que me deixa onde eu preciso… e sim, faz-se negócio por 900 Lek. Sai às 13:00 e pelas 17:00 devemos estar lá,. Mais perfeito não podia ser.


Pouco depois largamos, com animada música étnica a marcar o passo. As voltinhas da praxe em redor de Bajram Curri para apanhar passageiros, incluindo umas quantas galinhas que vão pautando a viagem com crises de histeria galinácea, felizmente bem espaçadas. Pouco depois já metade da malta dorme, mas eu, que até tinha planeado colocar umas coisas em dia durante este último troço de quatro horas, estou fascinado com as vistas. Primeiro, é a paisagem montanhesa, os instântaneos da vida rural…. o gado que pasta, o pastor vigilante…. os tractores, as casas e casebres, e os bunkers, sempre os bunkers. Depois, entramos no Kosovo. Pois é, mal eu saba, há dez dias atrás, que refaria quase toda a viagem entre Prizren e Tirana… só que estando ali onde eu estava, a forma mais simples de fazer o trajecto é sair da Albânia, apanhar a auto-estrada nova, e voltar a entrar na Albânia. Mas umas carimbadelas no pobre passaporte, a primeira das quais dada por um funcionário alfandegária com aspecto idiota que demora uma eternidade a tratar do que tinha a tratar.

O Kosovo que vejo nesta segunda incursão no país revela-me mais coisas. É habitado e rural, ao contrário das vastas extensões desertas que vi entre Pristina e Prizren.  As aldeias sucedem-se, basicamente feitas de casas de tijolo, inacabadas. Aqui e ali, ruínas, cadáveres estruturais do conflicto entre kosovars de origem albanesa e sérvios. Já não há bunkers, nesta terra que nunca foi de Hoxha, mas existe outra omnipresença lúgubre: os cemitérios improvisados, uns maiores que outros, mas todos criados para albergar os restos mortais das vítimas da violência recente.

A meio da auto-estrada, uma pequena multidão à beira, e o condutor pára, Carregamos uma família campónia, que enche tudo, incluindo o corredor. Devem ser umas oito ou dez pessoas, e ninguém se consegue mexer dentro do furgão. Saem antes de mim, numa localidade qualquer, e por fim é a minha vez de desembarcar. A coisa está a correr bem, assim que chego à junção com a estrada para Shkoder, ouço buzinar… um furgão… estou cansado e não quero submeter-me de novo à seca da véspera, à espera obstinada pelo autocarro regular. Faço aquele gesto um bocado amaricado que os albaneses usam quando querem pedir boleia ou mandar parar um transporte público, e entro. O condutor não me inspira confiança nenhuma. Tem um ar sebento e uma avidez descontrolada para angariar mais passageiros. Na próxima cidade dá-nos uma seca, à espera, às voltas. a buzinar, a ver se enche o carro, enquanto manda sorrisos lá para trás e vai pedindo desculpas. Ainda por cima a maquineta dele é um traste velho, aquio não anda nada. Chego a Shkoder já de noite, mas tenho uma grande supresa: o homem é o mais honesto albanês que encontrei. Já percebi que é melhor nem perguntar aos tipos os preços das coisas, porque isso é passar-lhes um cheque em branco. O melhor é dar uma nota mais alta e esperar que eles pensem que estamos seguros do valor correcto. Foi o que fiz, e ele, muito aflito, diz para não me ir embora, que espere, que há troco. Mas ele não tem troco, e percebo que está a ser sincero, pela aflição com que me pede que encontre a moeda que faz falta. Pela primeira vez, na véspera da partida, paguei menos do que me tinha sido indicado como preço justo: 300 Lek, que é o mesmo que o autocarro regular, sempre mais barato que os furgões.

Quando chegava a casa, depois do agradável passeio que me sempre me proporcionou o regresso ao lar de Shkoder.começou a chover. Os meus anfitriões estavam um pouco “alegres”, com uma amiga em casa, e sairam pouco depois, deixando-me a relaxar de um dia algo dispendioso (a soma dos transportes necessários para o périplo da viagem foi de cerca de 16 Eur) mas muito preenchido.

P.S. – Soube ao serão que a explosão que ouvi quando me preparava para sair, de manhã, foi a de um carro armadilhado a fazer-se em bocados mesmo em frente à casa de câmbios onde pensava ir no dia seguinte à partida.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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