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Balcãs ’11 – Dia 17 – Budva e Kotor

15 de Outubro

Acordo e vejo que o dia prometido de bom sol espera-me lá fora. O vento, contudo, ainda por ali anda. É cedo e está algo frio. Tomo o pequeno-almoço, incluindo nos míseros 10 Eur que paguei pela estadia: Corn Flakes, pão com doce. Empanturro-me para ganhar autonomia para várias horas sem tornar a comer e saio. A ideia é refazer os passos de ontem, e, se as contas estiverem certas, a manhã é a melhor parte do dia para fotografar o que andei a ver na véspera. Apenas o contorno da cidade velha está algo contra-sol, mas das praias obtenho imagens magníficas. Depois, vasculho de novo os becos e ruelas que se abrigam atrás das muralhas. E quando acabo sei que ainda tenho muito tempo.

O que fazer agora? Gastar os 3 Eur para ir e voltar a Sveti Stefan? Estou indeciso. Sevti Stefan é um dos locais mais paradigmáticos de Montenegro, mas a verdade é que para além do que se vê a uma certa distância – como eu vi quando cheguei a Budva – não há muito mais para se fazer; trata-se de uma ilha unida a terra por uma estrada, onde se aglomeram hoteis, e onde não se pode entrar a não ser, claro, que se seja cliente. E 3 Eur não são muitos Euros, mas é dinheiro, que numa viagem destas tento poupar a todo o custo. Por outro lado, tenho o resto da tarde livre. O Nikola disse-me que podia ir embora quando quisesse, e assim, como de resto terei três dias em Kotor, planeio apanhar o autocarro por volta das 5. Bem, acabo por me ir sentar na paragem de autocarro. Tinha lido qualquer coisa sobre a possibilidade de se caminhar até Sveti Stefan, num passeio de cerca de 8 km, mas o Nikola disse-me que não é possível. E estava eu nestas cogitações quando pára um carro à minha frente. Por 2 Eur tenho boleia directa para lá. Hesito… e aceito. Mais à frente o homenzinho pára de novo noutra paragem e desafia uma rapariga a entrar… 5 Eur para ir até Budva. O tipo acaba de ganhar para a gasolina da sua própria viagem e se a coisa continua em breve vai ter bom lucro.


Sou despejado na estrada principal, cá em cima, e tenho que caminhar até lá abaixo. Está calor e não apetece. Tenho os músculos emperrados. Já passei a manhã a andar. E faço-me esquisito, não fazendo a menor ideia do que me espera. Bem, como disse, aquilo é mirar de longe e está visto. E agora? Agora vamos testar a informação do Nikola e começar por caminhar junto à costa. Entro numa zona arborizada. Que bonito é tudo aquilo. Só dispensaria o vento que continua a soprar, agora mais aragem do que ventosga. O mar, azul, muito azul, e limpido como o Mediterrâneo costuma ser. A calmaria acaricia-me e sinto-me nas núvens, Já esqueci o cansaço. Por ali passeiam algumas pessoas, suspeito que locais. Os ciprestes que formam a mancha verde daquele local libertam o seu perfume discreto, que se mistura com a essência dos poucos pinheiros que por ali estão. Sveti Stefan, a ilha dos hoteis, fica para trás.


E nisto deparo-me com um cenário idilico: uma nova praia, em meia lua, com uns 200 metros de comprimento, onde as águas deste mar mostram mais uma vez a sua beleza, revelando os seixos que se depositam no fundo. Trata-se de uma praia privada, mas fora de época ninguém se importa com este e aquele visitante que ali aparece. O hotel não é um mamarracho, bem pelo contrário: um palacete com ar de casa senhorial, envolvido num parque bem cuidado, que contudo me faz pensar que conheceu dias de glória que não são os de hoje… talvez tudo aquilo pertencesse em tempos a uma família nobre italiana… talvez a propriedade tivesse caído nas mãos de um figurão do Partido nos tempos de Tito… ponho-me a imaginar, uma próspera família feliz, as crianças nas suas correrias por aquela relva, sob o olhar protector da ama, enquanto os pais tomavam o seu chá, indolentemente, mirando aquele mesm mar que hoje olho. E com isto, estou do outro lado da propriedade e descubro um caminho na direcção que me interessa. Pouco depois estou noutra praia, também privada, também aberta agora que a época não é tão comercial, mas sem nenhum edíficio à vista. Duas mulheres locais estão por lá, com uma criança, na brincadeira. Sigo o instinto e encontro outra passagem, depois uma rua, e tudo aquilo parece tão surreal… apesar do asfalto, de carros parados, de casas obviamente individuais, de um ou outro restaurante encerrado, agora que a época acabou, não consigo afastar a ideia de que estou em propriedade privada.



Acabo por sair daquela zona algo asfixiante e entro na aldeia de Przno. Que local simpático! Faz-me lembrar o melhor do Algarve ou então a vida pacata das aldeias gregas! Mesmo à beira da água, um ou outro restaurante de ar modesto, pinta de tascas de pescadores, feitos aos bocados, quase armazéns de faina marítima. Aqui e ali há pessoas a usufruir de um meio de tarde cheio de sol, com ar relaxado, sem nada mais para fazer do que gozar o doce que a vida lhes oferece. A maior parte tem ar de residente estrangeiro, de gente que conhece a comunidade, de muitos anos de partilhas. A praia está deserta. E termina ali a agradável caminhada, pelo menos para já… tenho que subir à estrada e caminhar por uma berma que por vezes simplesmente não existe. Era a isto que o Nikola se referia quando me disse que não se podia ir a pé a Sveti Stefan. Mas comigo dá-se um jeito.



Mais à frente um sujeito sai um grupo de casas, atravessa a estrada, mira-me de esguellha e mete-se para o meio do nada. E ainda bem, porque ao segui-lo com o olhar vejo um cartaz a dizer “plaza”, ou seja, praia. Ora bem, se há praia é capaz de haver mais caminhos que não impliquem o risco de ser feito em marmelada por um camião a qualquer momento. Desco as escadinhas indicadas pelo cartaz, e fico sem palavras. Há de facto uma praia, mas todos os traços de presença humana evocam um cenário pós-apocalítico. Bares de praia todos escavacados, frigorificos de bebidas abandonados, cadeiras destruida. Algumas estrutruras já nem se percebe bem que papel desempenhavam. É como se ninguém frequentasse aquela praia desde o fim do mundo. E contudo existem pessoas, vejo uma mulher que vem com ar de passeio dominical, e outros transeuntes que esticam por ali as pernas. A praia é mais uma das do Montenegro, linda de morrer, e descubro lá no cantinho um casal de nudistas. No final, há uma rampa, que entra por um túnel dentro. Interessante. Do outro lado, mais um aglomerado urbano e nova praia, muito extensa. Já me estou a aproximar de Budva. Aqui há vida, muita vida. Restaurantes abertos, pessoas que entram e saem, carros, mais gente que passeia.




Pronto. Estou exausto. Rendo-me. Vou para a estrada e espero que passe o autocarro. Vejo um puto à espera numa paragem e junto-me a ele. Mas o tempo passa e nada. E asssim como assim, sinto-me de energias retemperadas e vejo que existe um passeio largo na estrada… quem sabe será assim até Budva. Arrisquei, e era.

Chego muito cansado. Tenho um pouco mais de duas horas para relaxar. Páro numa pastelaria, compro pão e um bolo. Quando chego ao meu hostel, que é quase literalmente meu, atiro-me para a cama. Depois, comer… hummm que bom… pancinha cheia. E beber! Que sede! Fico mais um bocado de volta do GPS que voltou a ter um fanico, recupero-o de novo… a ver se desta é de vez, depois de uma formatação de baixo nível da memória. Instalo-me um pouco na sala, o sol entra pela janela. Sinto-me bem. Vou tomar um duche e gasto uma eternidade a fazer a barba de quase três semanas. Se antes me sentia bem, agora estou nas núvens. Foi o tempo certo para tratar do que tinha a tratar, arrumar as coisas nas calmas, comer e sair. Ainda não são bem cinco horas, mas está bem. Foi um bom timing: na estação de autocarros,que fica quase ao virar da esquina, dizem-me que sai um dali a nada. Óptimo. 3 Eur.

A viagem até Kotor é um saltinho. São cerca de 20 km por estrada. Assim que sai do autocarro direi logo notas mentais: uma fábrica em ruinas e o supermercado. Tenho que ver isto com mais calma. Depois, andar, entrar na cidade antiga. Wow!! Que sítio! Maravilha, parece que entrei num mundo encantado. A influência italiana sente-se aqui, de forma mais refinada do que em Shkoder. Também em Kotor os venezianos estabeleceram uma base, e há palácios de famílias italianas por todo o lado. A cidade colocou umas flámulas purpura muito elegantes nos edíficios mais distintos, esclarecendo o seu passado. Encontro o hostel e tenho um choque: isto está cheio, a abarrotar… os meus companheiros de quarto são um casal de franceses, que como quase todos os da sua raça tem o nariz empinado e não fala a ninguém; e o resto são ingleses e/ou americanos, barulhentos, desarrumados… também desenvolveram um sentido de comunidade em redor da língua materna e não me falam… excelente… é daqueles casos em que me sinto melhor só do que mal acompanhado, mesmo que a solidão seja meramente verbal. De resto o hostel é mau. Uma casa de banho para mais de doze pessoas, sem espaços comuns… o quarto é exiguo e se alguém esta fora da cama a mexer na mochila ou a arrumar coisas, já é complicado outra pessoa passar. É a ganância montenegrina em acção: arrebatar todo o dinheiro possível, dar o mínimo em troca… para além dos limites do razoável. O Montenegro Hostel existe em Kotor, Budva e Podgorica, Evitem-nos como quem foge do Diabo, Ok? Que feliz me sinto por em Budva não ter escolhido a filial local deste hostel… é que estive indeciso. Poderia continuar a debitar as fragilidades do local, mas o texto ficaria demasiado longo.

Sem me imaginar a passar tempo no quarto, sai para a rua, só por sair. A cidade antiga de Kotor é tão bonita de noite como me pareceu ser de dia. Mas está frio. Algumas pessoas exploram as ruelas, quase todos estrangeiros. Procuro um cafézinho simpático onde me possa instalar a ler e a escrever, mas não encontro nada. Só bares com música alta, quase todos vazios. Paciência. O passeio serviu-me para limpar a acidez que o hostel me deixou na boca. Regresso mais conformado, e fico no quarto até dormir. Estou exausto, cheio de sono. Cá dentro, durante todo o serão, só se ouvem portas a abrir e a fechar. Praguejo. Coloco os tampões de ouvido e por cima os “headphones” com música e consigo isolar-me do caos envolvente. Mais tarde, à hora de dormir, começa um concerto de rock… debaixo da minha janela. Desvantagens da grande localização, mesmo no centro da cidadela. Mas estou tão cansado que mesmo assim adormeço passado pouco tempo.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Um comentário

  1. Adorei ler este passeio improvisado à beira mar.
    Fotos muito boas tb!

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