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Balcãs ’11 – Dia 18 – Kotor

16 de Outubro


Tendo adormecido pelas onze, às oito acordo, mesmo antes do despertador tocar. Lá fora o dia parece cinzento, quando encontro uma janela reparo que afinal o céu está azul… apenas um pouco pardo, porque o sol ainda se está a levantar. Na face da montanha o fogo que ontem lavrou com intensidade ainda arde, um pouco. Mas os montenegrinos não se preocupam. Afinal não há ali muito para arder, para além de alguns matos que sobrevivem às agruras do vento que vem do mar. Tomo o pequeno-almoço e ponho-me na rua. A luz está ainda muito insípida para fotografar a cidade. Então procuro o trilho que vou usar para subir a montanha.

Acabo por o descobrir. É um caminho em serpentina, usar pelas caravanas de mulas, ainda no tempo em que o único acesso terrestre a Kotor passava por aqui. Sinto-me bem, cheio de energia. A temperatura é ideal. Assim, subo a bem subir. A inclinação é muita, mesmo com a técnica da serpentina. Cruzo-me com uma mula e o seu condutor… não fazia ideia que estes bichos ainda passavam por aqui. O meu destino é uma igreja abandonada que há por detrás do castelo. De manhã dei com a entrada da fortaleza… 3 Eur pelo bilhete… mas ouvi dizer que vindo à volta por este caminho, depois se entra no castelo e sem entrar em despesas.


O sol começa a iluminar a “baia” de Kotor. Chamo-lhe baia, mas aquilo é mais um fiorde. Viro-me de minuto a minuto e tiro mais uma fotografia. O cenário é tão bonito que não resisto, mesmo sabendo que já direi uma dúzia de chapas iguais. Vou mudando um pouco as fotografias, à laia de desculpa para mais um click. Chego ao destino. A igrejazinha, mais uma capela, é encantadora. Está rodeada de vestígios de habitação, paredes devastadas e pouco mais. O castelo, por detrás, é a coroa perfeita para o cenário. Ouço vozes. Um grupo de três homens jovens, locais, muito sofisticados, sai por um orificio do castelo… já percebi por onde vou entrar sem pagar. A rapaziada parece divertida, vão-se entretendo uns aos outros, e mesmo sem entender patavina acabam por me fazer rir também. Depois, afastam-se, mas eu fico mais um pouco a apreciar o local.

O dia está tão bom e sinto-me em forma. Em vez de invadir o castelo vou tentar algo mais radical… ouvi dizer que existe uma gruta mais acima, e depois, um bom bocado depois, uma aldeia abandonada… aliás, duas, mas sei que de qualquer modo a segunda está demasiado distante. A serpentina torna-se mais irregular, com troços mais longos que outros, mas sempre a subir, a subir. Até então tenho estado continuamente na sombra. O vale é fundo e o sol demora a cobrir aquelas partes com o seu abraço quente. É quando chego aos 450 m de altitude que me encontro pessoalmente com ele pela primeira vez hoje. Viro-me pela milésima vez para trás, para ver o manto azul, abraçado de um e de outro lado pelas fileiras de casas que se estendem ao longo das estradas que evoluem a partir de Kotor. Mais perto, as paredes do castelo, que ontem me pareciam tão altas quando andava a explorar a cidade, e agora me aparecem já lá em baixo, mas mesmo assim bem antes que o emaranhado de telhados do núcleo histórico da localidade.

Em baixo, vejo o navio de guerra que de perto parecia tão grande mas agora, visto de cima, já não impressiona. No cais em frente noto uns pontos minúsculos: a guarnição alinhada para a formatura. Ouço o som da corneta, depois, de um tambor. Mais tarde chegam até mim os cânticos marciais daqueles homens do mar. Ao longe, escuto fogo de armas automáticas. Alguém practica.

Estou quase a chegar ao próximo patamar da montanha, e os segmentos da serpentina são ainda mais esticados. Por fim, estou lá em cima. Acabou-se a subida, e na minha enésima miradela vejo a paisagem como se estivesse num avião. O que se segue é um trecho muito agradável, sem ascensão, mas tipicamente de montanha, com pinheiros esparsos, e um trilho estreito. Excelente! À frente, uma encruzilhada, devidamente marcada com setas a indicar os destinos que se atingem por um e por outro lado. Estou a 1000 metros da gruta, mas em montanha 1000 metros podem ser muitos quilómetros. Uma série de pedras estão alinhadas… há restos de munições que creio serem do início do Século XX… mas podem ser de mais tarde. Trago um pequeno estilhaço enferrujado. Recordação de Kotor. Decido-me pelo trilho da direita. A fase seguinte da caminhada é mágica, por dentro de uma floresta que bem podia ser lar de uma tribo de elfos. Os raios de sol entram obliquamento, do meu lado direito, vindos do ponto mais alto da encosta relativamente suave… à esquerda o declive acentua-se, até terminar numa ravina que em dias invernosos devem encher-se de águas furiosas. O bosque não é muito denso… os pinheiros, muito altos, são relativamente esparsos, mas em número suficiente para constituirem uma pequena floresta… no chão nada, para além da caruma e de uma ou outra hera.

Mais à frente, surpreendente… uma ponte de um arco, no meio deste nenhures. Atravesso-a curioso. Estou a 400 m da gruta, mas quando vejo a diferença de nível, desisto. É impossível. O caminho prossegue, mas nem sei se vai na direcção certa. Seja como for, estou exausto e não vim preparado. Já estou a andar há quase quatro horas, não trouxe comida nem bebida, e dali até ao destino final seriam bem mais 5 km, só de ida. Por mais que quisesse visitar aqueles dois locais, tenho que ser realista: não há condições. Mesmo assim fiz uma ascensão desde o nível do mar até aos 900 m. Ali, mais ou menos onde desisto, há vestigios de ocupação, provavelmente militar. Meias paredes, e postes telefónicos em decomposição.

No regresso parei na encruzilhada para descansar um pouco e colocar a roupa, ensopada de suor, a secar. Liguei o computador e transferi para o GPS um ficheiro que continha o caminho correcto a seguir. Confirmo que estava a seguir bem, era mesmo por ali. Ainda me passa pela ideia arremeter por aquela subida acima. Mas não… seria loucura… consolo-me pensando que no dia seguinte posso sempre contratar um táxi para me deixar lá em cima (existe uma estrada) e voltar a penantes para baixo.


Para baixo, o contrário do que pensava, não foi mais fácil. Muito mau trato para os joelhos e pedras rolantes. De frente para a paisagem foi ainda mais complicado resistir ao impulso de fotografar a mesma coisa vezes sem conta. Passou por mim um casal jovem com aspecto de caminhantes profissionais. Mais abaixo sou ultrapassado pelos rapazes bem dispostos que encontrei logo pela manhã. E por fim estou a entrar no castelo.


Assim que penetrei naquele buraco na parede, dei logo de caras com turistas. Parece que entrei num filão. E agora? Para cima ou para baixo. Estou cansado e o instinto manda-me descer… mas acabo por optar subir e ainda bem. No topo entro na fortaleza. Deve ter sido usada militarmente até ao século XX. Supreende-me pela positiva. É cheia de recantos, surpresas para explorar, salas e arrecadações, anexos, terraços. Percebe-se que a estrutura é antigas, enriquecida aqui e ali com alguns elementos mais modernos para enfrentar as ameaças que se modernizavam. É o topo, e apesar de nada restar desses tempos, trata-se do primeiro ponto de ocupação humana em Kotor, que remonta aos Ilírios.

A descida é atroz. A idade pesa e depois de tantos maus tratos para cima, os joelhos sofrem agora com a descida, cada passo atacando-os à pancada. Ao longo das muralhas que descem encontro mais estruturas defensivas, depois, uma simpática igreja. E finalmente estou lá em baixo, na cidade antiga. Acabaram-se os pisos irregulares. E assim poupei 3 Eur, entrando pela porta das traseiras. Sorrio para mim próprio quando passo pelo cobrador de bilhetes. O mais bizarro é que por ali passa o trilho “oficial” de hiking.


Dou mais uma volta por aquele labirinto de ruelas, procurando novos detalhes que me tenham escapado nas passagens anteriores, e saio pela porta oposta, que é a principal, virada para poente, para a água. Estou decidido a fazer uma incursão de reconhecimento para a expedição do dia seguinte, que terá como objectivo um velho forte austro-húngaro no topo da montanta defronte, mas para isso tenho que determinar onde irei encontrar o trilho, e não quero perder tempo à procura como aconteceu hoje. Caminho junto à água. O vento está forte e aquele braço de Mediterrâneo está agreste, com uma ondulação assustadora. Olha, e a missão de batedor corre bem, Encontro logo mais à frente, mesmo antes de onde esperava resolver o assunto, um poste indicativo de “hikings” com os destinos e as distâncias. Pronto. Local marcado no GPS e até amanhã!




Há ainda algo que quero fazer antes de regressar ao hostel: ao chegar, no autocarro, assinalei uma fábrica em ruínas e umas casas e lojas pictorescas. Vou espreitar. Encontro a fábrica, com a sua bizarra torre, altissima. As instalações estão parcialmente ocupadas… outras áreas estão totalmente abandonadas. Descubro um salão atafulhado de carros dos anos 70-80, (Renaults 4, Citroen 2 CV, etc) e fico a matutar o que teria sido aquilo.

Na volta passo no supermercado, presenteio-me com algumas extravagâncias e vou para o quarto, descansar e tratar do meu expediente. Mais tarde, antes de dormir, ainda darei uma voltinha nocturna, só para esticar um pouco as pernas e apreciar o ambiente tardio da cidade antiga de Kotor. Muito mais sossegado, com os turistas recolhidos. Ambiente fantástico.


About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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2 comentários

  1. Muito bonito, sem dúvida.. Adorei as fotos..
    Mais uma vez, o papa léguas surpreende pela sua irreverência ao tentar escapar à bilheteira 😀 Muito inteligente.

  2. Para mim,em termos fotográficos, este foi o trecho mais bonito.

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