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Balcãs ’11 – Dia 19 – Kotor

17 de Outubro

Acordo cedo, lá para as 8 horas, simplesmente porque o meu corpo se habituou a este ritmo. Não quero sair tão cedo. Está frio, a luz é má, e o meu plano de hoje não necessita de tantas horas… vai ser para partir e partir em pouco tempo. Se ontem trepei à montanta a levante de Kotor, hoje vou fazer o mesmo para oeste. Desta vez levo o trabalho de casa mais apurado. Sei que me espera uma subida em serpentina, levo as coordenadas exactas do início da rampa, e vou a contar com o prato forte do dia no topo: a fortaleza austro-hungara. Tomo o caminho pedestre, desde a cidade antiga, Atravesso um bairro residencial, tranquilo, simpático, que está cheio de romãzeiras, e colho algumas para a viagem. Também em termos de abastecimentos vou preparado. Levo água e comidinha suficiente para um dia. Chego à estrada que é o caminho alternativo, para quem chega de carro, que permite aceder ao trilho. Ainda demoro um pouco a atinar com a entrada certa pela montanha acima, vou ao lado, acima, abaixo… entro numa propriedade privada, saindo de fininho assim que ouço vozes e me apercebo do erro. Pronto, dou mesmo com o caminho, depois de estudar um pouco as redondezas, e assim que me interno pelo meio da vegetação, ouço um certo burburinho… motores de carro, portas a abrir e fechar… olho para trás e dá-me uma coisinha má: um enorme grupo de alemães todos equipados a rigor para a caminhada desembarcam de dois táxis. Andarilhos de luxo, que se deslocam de táxi para um ponto adiantado de uma caminhada não me inspiram simpatia. Redobro o ritmo do passo, e subo, subo… aquilo é uma serpentina parecida com a da véspera, com a primeira parte a decorrer em ambiente florestal, passado depois para um cenario mais nu e rochoso, para finalmente, já quase no topo, se voltar a internar num bosque de pinheiros altos.

Tal como no dia anterior, a cada cinco minutos páro para apreciar a vista, cuja perspectiva vai mudando lentamente à medida que a altitude aumenta. Olho para trás com frequência, mas o silêncio continuado faz-me matutar nos alemães… nada no horizonte, será que afinal não vinham por ali… mas era o único trilho. Talvez tenham perdido o mesmo tempo que eu, às voltas, à procura do acesso correcto. O que é certo é que na sua ausência me sinto muito melhor. Nestes passeios dispensam-se vozes humanas.

A meio da subida páro para uma merenda, que os ares da montanha abrem o apetite. Considero mesmo fazer uma pausa mais longa, deitar-me ali ao sol a ler um pouco, mas penso que o tempo usado pode ser precioso para ir mais longe, e que para ler qualquer momento é bom… ficará para depois. E estava eu a meio de uma buxa de pão com queijo quando os avisto, lá em baixo, mas já audiveis. Oops! Que fazer… hesito… deixo-me estar e deixo-os passar e prosseguir até estarem a uma distância confortável, ou arranco já e crio nova distância? Acabo por embalar à pressa o que resta do picnic e retomo a marcha. O grupo é lento, porque rapidamente deixo de os ouvir. Tanto melhor.

Chego ao topo, o terreno torna-se plano, e a floresta é maravilhosa. Ando mais umas centenas de metros até que vejo a silhueta do almejado forte. Entusiasmado dou a volta ao seu perímetro, observando todos os detalhes. As superfícies curvas significam que foi construido numa época em que o fogo de artilharia era já uma realidade. É uma fortaleza de linhas relativamente modernas, austeras, sem fantasias. São três andares, com a base protegida por um fosso. Depois, aproximo-me da entrada, e penetro por uma janela que não tem grades. Wow! Momento alto da minha viagem! O interior está imaculado. Não há lixo nem grafitties. Exploro avidamente o piso térreo, que obviamente foi a zona dos dormitórios e de armazenamento. Depois subo ao andar de cima, e encontro as salas onde outrora as enormes peças de artilharia se encontravam instaladas. Hoje resta a estrutura, nalgumas apenas em alvenaria, enquanto outras têm ainda a blindagem envolvente, marcada com o selo da Skoda, a empresa checa que hoje enche as ruas do mundo com os seus automóveis mas que antes, no primeira metade do século XX, era um competitivo produtor de material bélico. As vistas, claro, são espantosas. Daquelas aberturas espreitavam os artilheiros austro-húngaros quem quer que ousasse aproximar-se da costa. Já não é a reentrância de Kotor que vejo, mas sim a costa do Adriático, provavelmente até à Albânia de um lado, e quase avistando Dubrovnik, na Croácia, do outro. Lá em baixo, Tivat e o seu aeroporto. Num dos compartimentos de artilharia, um grupo de misteriosas figuras religiosas encontra-se pintado nas paredes.

 

Finalmente acedo ao último nível, uma espécie de sótão, repleto de nichos de metralhadoras. O espaço é atarracado, de tecto baixo e nisto encontro uma saida para o exterior. Estou na cobertura do forte, e vejo o mundo em meu redor. O sol embala-me, tenho vontade de ficar ali eternamente, a gozar das carícias dos seus raios. Os malfadados alemães entretanto tinham chegado e, sem coragem para entrar, ficaram-se abancados numa encosta com vista para ocidente. As suas vozes chegam-me a tempos. Empato o que posso, na esperança que retomem caminho e me saiam do raio de captação, mas as criaturas são persistentes. Quando me farto e desco, vejo que também eles se aprontam. Que maldição! Sigo uma linha mais curta e quando retomo o trilho estou à sua frente, mas não muito. De novo aperto a cadência e mais uma vez me isolo. Aquele trilho levará muito longe, provavelmente até ao fim da cadeia montanhosa que se encontra onde o fiorde se inicia, mas isso significa uma caminhada de uns 7 km para cada lado e no que me toca já me estou a aproximar dos limites. Assim, saio do trilho junto a um pequeno pico, que trepo, instalando-me perto do cume. Encontro uma “cama” perfeita no solo, e deixo-me estar a ler cerca de uma hora, antes de regressar.




Chegado a Kotor, é tempo de adicionar mais umas vielas e becos à minha colecção de locais explorados. Estou cansado, claro, e regresso para um merecido repouso. Neste dia não se passa muito mais. Torno a sair, mais tarde, para esticar um pouco as pernas. Bendigo o momento em que por razão pouco clara decidi ficar três noites ali. Foram dias magnificos, apreciando a beleza do local. Não só de Kotor, como cidade histórica, mas da natureza envolvente. As caminhadas de montanha foram excelentes. Sem dúvida que os dias de Kotor ficarão na memória como dos melhores desta viagem.


About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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