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Balcãs ’11 – Dia 20 – Dubrovnik

18 de Outubro

Regulei o despertador para as 7 horas. O autocarro sai às 8:30, mas quero jogar pelo seguro e livrar-me da carga de stress de arrumar as coisas à pressa. Ainda tenho que preparar a mochila, e de manhã, na penumbra do quarto que pouca luz recebe do exterior, o processo promete ser moroso. Pequeno-almoço: três bananas e um yogurte natural. Tendo fazer o menor barulho a acomodar os pertences na mochila, mas a vizinha do beliche do lado acaba por acordar. Que se lixe, não gosto da bifazinha que nos mandou fechar a luz do quarto há dois dias atrás e que desenvolve dramas emocionais ao telefone com o namorado em frente a toda a gente. Quando concluo o processo são ainda 7:30. A Internet não funciona desde o serão da véspera e assim continua. Tinha planeado comprar pão e outros bens aqui, porque suspeito que tudo isso será bem mais caro em Dubrovnik, mas estou convencido que o supermercado da porta ao lado só abre às 8e já estou fartinho de estar neste hostel.


Afinal o estabelecimento já está a funcionar… não era às 8 mas sim às 7… excelente. Meto no saco dois daqueles pães deliciosos e ando, nas calmas, até à estação de autocarros. Hey, parece que a população do hostel teve a mesma ideia, em massa… dou logo de caras com o alemão com quem estive à conversa na noite anterior; no interior do autocarro já estão os dois italianios de Brescia e pouco depois, mesmo à hora, chegam os dois israelitas.


A viagem até Herceg Novi é soberba! Isto é o que eu chamo um percurso panorâmico, sempre junto à água, com tanto para revelar… as igrejazinhas, os recantos para nadar, os pequenos ancoradouros e abrigos para os barcos. No meio do “lago”, duas ilhas, cada uma albergando um mosteiro. Decididamente o Montenegro tem muito a oferecer ao viajante, e regressar não está fora de questão, Sinto uma frustração crescente à medida que vou vendo tudo aquilo a passar a alta velocidade em frente aos meus olhos, quando o que quero é parar a cada cem metros e disfrutar da beleza do cenário.



Em frente a um café o autocarro pára. Duas buzinadelas e uns segundos depois um empregado, de camisa imaculada e laço preto sai, transportando uma bandeja com bebidas, entra e serve o condutor e o assistente, como se estes estivessem instalados à mesa de um dos mais finos cafés de Paris. O autocarro parado no meio da estrada, e as alminhas a deliciarem-se com as suas bebidas, enquanto os passageiros esperam pacientemente. Um toque de grotesco na despedida do Montenegro.

A passagem da fronteira é uma tarefa complicada. É decidida uma inspecção detalhada do autocarro e um cão de faro é trazido. Todos temos que sair, com as nossas bagagens, que não interessam às autoridades. É o autocarro em si que atrai as atenções. Terminado o trabalho da parelha, somos autorizados a partir. Do lado da Croácia a estrada não é tão interessante. Resta esperar a chegada a Dubrovnik.


Não foi preciso descer do autocarro paro horror tomar conta de mim… já muito antes me tinha apercebido do banho de gente que me esperava. Ali, no terminal rodoviário, o caos quase concorre com a confusão das ruas da cidade antiga. Mesmo em frente dois enormes paquetes estão encostados ao cais, tendo já concluido o vómito de mais uns largos milhares de turistas que irão participar no concurso de acotovalemento que diariamente tem lugar na cidadela.


Tinha instruções para apanhar um determinado autocarro. Olho em redor… para a máquina multibanco, umas vinte pessoas aguardam em linha; um pouco adiante, um cacho de gente amontoa-se em frente à casa de câmbios. E entre estes dois pontos há diversas bilheteiras para os autocarros, com uma multidão aglomombaerada. Portanto, vamos lá a pé. Vão ser cerca de 4 km com a carga total ao lombo. Já me sinto nauseado pelo frenesim. Depois do tratamento de choque, à chegada, sou agora bombardeado de forma mais suave: carros que passam sem pausa e o mar de gente que anda em todas as direcções.

Primeiro passo a zona portuária e a marina, depois, ando por onde andam os habitantes locais, por avenidas e ruas, sempre em direcção à cidade antiga, que se aproxima placidamente. Aproveito para trocar 10 Euros por Kunas. Sentindo já como funciona Dubrovnik, a ganância das suas gentes, a abordagem que têm aos turistas, vistos como incomodativos sacos andantes de Euros, decido não gastar dinheiro naqueles dias. Mais à frente passa por mim um jovem com uma camisola de Portugal.  E num instante estou a chegar. Venho à hora certa. A entrada no hostel pode ser feita a partir das 13:00. É mais ou menos quando chego. Mas como vnho ainda cheio de vigor, ainda espreito umas coisas antes de ir conhecer as instalações para os próximos dias. Espreito a fortaleza autónoma que antecede as muralhas da cidade e a enseada calma que as separa. Apesar de me encontrar a menos de 100 metros de uma praça onde os turistas são tantos que mal se consegue perceber a cor do chão, aqui impera uma tranquilidade inesperada (de tal forma que é mesmo nesse local que me encontro hoje a escrever, 24 horas depois da chegada).



Entro na cidadela e sigo as indicações que o GPS me fornece. Hummm é mesmo ali, pouco depois de se entrar, numa rua perpendicular à grande avenida central. Uma coisa é bem feita em Dubrovnik: não entram carros na cidade antiga, nem de moradores nem de nada. É um mundo entregue aos peões, o que ajuda a reviver outros tempos, sobretudo ao cair da noite, quando as hordas de asiáticos e americanos já regressaram aos seus casulos flutuantes que os levarão a poluir outro pacato local do Mediterrâneo no dia seguinte. Encontro o hostel num instante e felizmente adoro tudo, o que me apazigua, me lava dos ácidos deixados por tantos turistas peganhentos. O estabelecimento, Old Town Hostel, encontra-se numa casa antiga (claro, se está dentro da cidade velha, onde só há casas com séculos de idade….), numa rua tão estreita que ver o céu é uma aventura. Sou bem recebido, trato das formalidades e subo a conhecer o quarto. Excelente. Espaçoso, luminoso, com beliches brancos, cortinados púrpura, mesas de cabeceira e cómodas à disposição dos convidados, num estilo coerente, antigo. Estou no segundo andar, que acedo subindo dois lances de escadas de madeira. Há tranquilidade neste hostel, gosto desde logo do ambiente. Na teoria o cliente deverá trazer o seu cadeado, mas a menina da recepção empresta-me um. Na teoria o cliente deverá ter a sua própria toalha, mas o dono do hostel arranja-me uma, óptima, ampla e macia. A Internet funciona muito bem, sinal forte, boa velocidade. Pouco depois de me instalar na cama a usufruir de um precioso momento de relaxe, chega a minha primeira companheira de quarto, uma jovem australiana, que vem de Mostar e que me dá importantes dicas sobre algumas coisas que eu procurava e não tinha encontrado (por exemplo, onde se encontra o edíficio que foi de um banco e que hoje é uma ruína da guerra dos anos 90).

Revigorado pelo fresco do quarto, saio para a rua de câmara em punho. Assim que atingo a via principal levo de chofre com o caudal de gente. As guias, tal galinhas seguidas pelos seus pintos, levantam airosas as tabuletas com o número do grupo que lideram. Na gelataria da esquina, uma multidão de italianos faz um alarido incrível enquanto vão recebendo os cones coloridos, servidos por empregado bonacheirão e bem-disposto. Ando por ali, descubro o porto. Também cheio. Existem bancos por todo o lado mas não encontro um bocadinho onde me possa sentar. Dos pontões chegam e partem embarcações cheias de turistas que vão dar uma volta ao largo. Sem saber como descubro um cantinho onde por alguma razão os invasores não chegam. Um homem, provavelmente local, está em fato de banho a apanhar banhos de sol, e passado um pouco chega outro, devidamente artilhado para a pesca, mas que antes do negócio da cana e do anzol se despe e se amanda à água, afastando-se com braçadas vigorosas, bem para além dos 200 metros da costa.


Afasto-me dali, e interno-me nas ruazinhas escondidas de Dubrovnik. Há muito para explorar, recantos nas sombras, escadinhas, esquinas, páteos e varandas. Confirmo o que já esperava: nesta terra tudo o que vagamente possa ser a pagantes, é-o mesmo. Museus, claro, e não são baratos. Subir às muralhas? Pagar. Espaços que vagamente possam ser vedados… são a pagar, claro. Tudo se paga. Longe vão os tempos em que um albanês largou tudo o que estava a fazer para me abrir a porta da mesquita sufi e esteve dez minutos à conversa comigo, olhos nos olhos, esclarecendo dúvidas, explicando coisas. Em Dubrovnik os turistas são claramente uma galinha de ovos de ouro, e os locais não disfarçam: quem vem, vale o mesmo que uma ave de capoeira… enquanto tiver ouro para dar.

Por estas andanças encontro algumas pérolas… casas brasonadas, capelas perdidas no labirinto de ruelas… mas não há que desdenhar dos “pesos-pesados” de Dubrovnik, e esses estão nas praças centrais…as igrejas, a torre do relógio. E o belo edíficio de arcadas, feito agora centro cultural… onde se pága para entrar… mas isso nem precisava de escrever. Acabo por subir para a zona este da cidade, bem elevada em relação à parte central, mais baixa. Ali só os turistas mais afoitos vão, e sinto-me um pouco ao abrigo dessa maré. Acho que por uma tarde chega. Vou para o hostel, para mais um período de repouso. Volto a sentir-me muito bem por lá, é revigorante, carrega-me as energias, físicas e emocionais.

A fome começa a fazer-se sentir. Desço à recepção, pergunto por supermercados. O americano que é o proprietário marca as suas recomendações no mapa e saio à rua. As coisas estão muito mais calmas. Os navios de cruzeiro já partiram, levando a sua carga infernal para longe destas ruas. Agora, apenas os locais, alguns turistas que ficam e uns quantos viajantes. Aprecio a iluminação das ruas, sinto o ambiente. No supermercado trago as coisas à conta para gastar as Kunas que tinha comprado com 10 Euros. Terão que me manter alimentado por dois dias. E irão chegar perfeitamente.

Janto bem, tomo um belo duche de água bem quentinha e pressão à maneira e aconchego-me na caminha a acompanhar os jogos da Liga dos Campeões, a escrever, a processar imagens, a procurar informação, a organizar a viagem ao Médio Oriente e sei lá que mais. Neste hostel nem preciso de tampões de ouvidos para dormir, mas por uma questão de hábito coloco-as. Os hóspedes parece que absorvem o espírito do local e são silenciosos e respeitadores, em todos os aspectos. Durmo maravilhosamente.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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