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Balcãs ’11 – Dia 3 – Skopje

1 de Outubro

Depois da noite anterior o despertar não podia ser bom. Mas teve de ser. Cocho tinha um encontro com uma amiga e ia passar pelo escritório para recolher uns documentos, de forma que saimos juntos. A casa é bem perto do centro e num instante estamos na rua pedonal onde tudo se passa em Skopje. É Sábado de manhã e uma multidão ciranda por ali. As muitas esplandas instaladas ao longo da artéria estão bem compostas, e continuam a encher. Mais à frente há uma feira de mel, com um número considerável de stands. Andamos na companhia de Gordana, a amiga da véspera, que fomos encontrar no escritório, e do seu marido. Deixo-os numa esplanada e exploro sozinho as imediações. Delicio-me com as estátuas de rua que estão espalhadas pelos recantos daquela zona da cidade, e dou uma vista de olhos na estação antiga de comboios, deixada ao abandono depois do devastador tremor de terra de 1963, que se encarregou de arrasar o que em Skopje tinha sobrevivido ao passar do tempo. Actualmente é um museu. Mas mais interessante que isso é o pequeno escritório que está instalado numa das extremidades do edíficio. À porta, dois velhos carros e um punhado de bandeiras comunistas. No interior, sentados em redor de uma mesa, um grupo de idosos conversa. Acabei de encontrar as instalações do partido político “As Forças de Tito”, um grupo que se inspira no sentimento de nostalgia dos tempos da Joguslávia e do seu lider “eterno”, marechal Josip Tito.


 

Passo pelos meus amigos, que continuam solidamente instalados na sua esplanada, e dirijo-me para a extremidade oposta da rua. Ali, numa ampla praça, encontra-se uma estátua equestre monumental, que inclui estatuária menor e uma fonte em redor da base. É obviamente uma atracção, em redor da qual se aglomeram os visitantes e locais, divertidos com os efeitos criados pelos jorros de água, muitos deles de câmara em punho, procurando captar o momento.


Cocho e os outros juntam-se-me ali e partimos em procura do autocarro que nos levará ao desfiladeiro de Matka. Na véspera tinha perguntado ao bom do anfitrião como chegar lá. Era importante, porque só ali teria oportunidade de encontrar uma “geocache” na Macedónia. Respondeu-me que era simples, muito simples, seria apenas apanhar um autocarro e pronto… procurei saber se mesmo para um estrangeiro a coisa era tão fácil… que sim, muito fácil. Bem… afinal não era. Depois de procurar recolher informações num posto de atendimento da empresa de autocarros da cidade, os meus amigos deslocaram-se de paragem para paragem… e para mais uma… descobrir que aquele autocarro já não circulava… e nisto os outros concluiram que já não teriam tempo de ir e voltar e fiquei só eu e Cocho. Aparentemente Gordana e o marido eram a fonte de azar, porque logo depois apanhámos o autocarro certo que nos levou aos subúrbios, onde era suposto passarmos para outro. Só que esse outro só passaria dentro de hora e meia, e mesmo que nos entretivéssemos por ali, por essa altura seria demasiado tarde para o passeio. Estavam uns táxis alinhados ali por perto e perguntámos a um dos condutores quanto custaria a corrida de 7 km até à entrada do desfiladeiro. Cerca de 2,50 Eur! Vamos lá nessa!

O carro deixou as estradas mais movimentadas e aproximou-se de Matka por asfalto esburacado que ia atravessando aldeias miseráveis, ocupadas por comunidades da minoria albanesa. Muitas destas pessoas têm raízes profundas na Macedónia, com os seus antepassados a viverem por aqui há séculos. Mas foi com o conflicto do Kosovo que esta população se dilatou até chegar aos actuais 23%. Assim, há aldeias macedónias e aldeias albanesas,onde, para complicar mais as coisas, existem tensões entre os albaneses macedónios e os que vieram de fora mais recentemente.

Matka é um local maravilhoso e bendigo sem parar o momento em que persuadi Cocho a passar a tarde comigo ali. Decididamente nunca teria ali chegado sem a ajuda de um local. Foi bom ter encontrado a “cache” e colocado assim mais um país na minha lista de achamentos, mas mesmo sem esse bónus o passeio foi frutuoso. Receava que por estar bom tempo e ser fim-de-semana o local estivesse sobrelotado, mas tal não aconteceu. Estavam algumas pessoas no restaurante estabelecido no início do percurso, de mãos dadas com uma igreja do século XIV que ali se encontra, mas depois, ao longo do passeio, cruzamo-nos apenas com gente isolada, a tempos. A água de verde profundo cruza o desfiladeiro, que vem de muito longe. Em Matka pode-se iniciar uma caminhada mais longa, que leva o viandante até ao topo da imponente montanha que se ergue sobre as costas de Skopje, descendo depois, mais à frente. Tivesse eu mais dias por ali, e essa marcha não me teria escapado. A convivência entre a cidade e a montanha faz-me lembrar Sofia, também ela construida no sopé daquela incrivel massa que infelizmente não consegui explorar há um ano atrás.

Passado o restaurante, caminhamos algumas centenas de metros no trilho escavado na rocha, que acompanha o curso de água durante vários quilómetros. Do outro lado vimos um par de entradas para cavernas subaquáticas, enquanto que à direita se sucedem as nascentes de águas frescas e límpidas. Suspenso na rocha está um modelo gigante de um arnês de montanhismo, homenagem a um escalador russo que naquele lugar perdeu a vida, quem sabe devido a um arnês defeituoso. Quando paramos, somos ultrapassado por um par de japonesas empunhando as suas já míticas câmaras. Lá em baixo, na água, um pequeno barquito sobe o rio, em direcção ao desconhecido. No meio de toda esta beleza e do bucolismo da paisagem, quase que me esqueço da imponente montanha que se ergue por detrás da margem oposta, face de rocha nua, onde se pode ler a história geológica da formação no relevo intenso.

É hora de regressar, mas antes, uma paragem no restaurante, numa mesa sobre a água, onde entretanto um par de corajosos, já de certa idade, se prepara para umas braçadas. Depois de passar pela Grécia, provavelmente o país mais caro da Europa nos tempos que correm, os preço na Macedónia são simplesmente rídiculos! Vejamos, um copo de rakia custa pouco menos de 1 Eur, uma caneca grande de cerveja será ligeiramente mais que 1 Eur, as saladas são servidas a 1,50 Eur e os pratos mais substanciais são coisa para valer ali, na esplanada de um local turitistico e todo finório, algo como 3,50 Eur.

Vamos apanhar o autocarro de regresso a Skopje, que mais não é que uma carrinha decrépita com bancos de autocarro. Como fomos caminhando até à paragem seguinte, quando entramos já os lugares estão todos ocupados. Um grupo de rapazes albaneses, que me trouxe à ideia a música de Carlos do Carmo… “Parecem bandos de pardais à solta, os putos….”. Putos malucos. Saltitam de uma cadeira para a outra, e um deles, que, mais velho, parece liderar o grupo, ao ver pessoas a entrar no autocarro sem assentos livros, dá algumas instruções, e alguns dos companheiros levantam-se e sentam-se ao lado de outros, partilhando cadeiras individuais e deixando lugares livres para o Cocho e para outros dois tipos que entraram conosco. Eu, sento-me na borda de uma cadeira ocupada por um dos “putos”. Passado um bocado, o tal mais velho começa a falar com o meu anfitrião, que mais tarde me explicou o teor da conversa: “são daonde?”… “eu sou macedónio, ele é português” (terá sido nesta altura que o miúdo se me dirige….”how are you?)… e a conversa prossegue: “és do governo?”… “não”… “ah então ele está cá particularmente, é teu amigo?”…. “sim, isso mesmo”…. “então olha, tens que tomar bem conta dele, percebes bem?”…. “sim”… “e dá-lhe cumprimentos de todos nós”.

Entretanto, dois dos outros rapazes, que teriam 11 a 13 anos, já me tinham falado, em inglês: “where are you from”…. “Portugalia”… “ahhh it’s a good country, a good country… welcome”.  E tudo aquilo colocou um grande sorriso na minha alma, não tanto pelo detalhe das boas vindas, mas pela natureza genuina daquelas infâncias, pela saúde da evidente amizade que unia aqueles seis ou sete gaiatos. Mais à frente, trocámos de autocarro, usando o mesmo bilhete, e enquanto transitávamos, logo um deles me dizia, já em albanês, que não me esquecesse que o bilhete era o mesmo. A bordo do novo autocarro, daqueles longos, despedimo-nos com sorrisos, e, ao passar por eles, o mais velho selou o adeus com uma palmadinhas amigáveis no meu braço.

Chegados ao centro visitámos o “shopping” porque o Cocho precisava de fazer umas compras no supermercado. Agora atenção! Foi neste dia que descobri o melhor supermercado de sempre! Pronto, eu reconheço… gosto de fazer compras… sou um apreciador… mas nunca vi nada assim: comecemos pelo tamanho, ligeiramente inferior ao do nossos grandes hipermercados, que na minha opinião são demasiado vastos e cujo espaço é desperdiçado com a repetição dos mesmos  produtos que se estendem pelas prateleiras; pois ali não… o espaço é aproveitado ao máximo por um stock cheio de variedade. Depois, os preços! Ah! Se vivesse em Skopje muitos quilinhos iria engordar! Uma garrafa grande de rakia, 3 Eur; um boião de compota, a escolher entre dúzias de variedades, uns 50 cêntimos… bem, para resumir, comprei duas bananas, quatro maçâs, uma caixa de salada russa, yogurtes e um pacote de bolachas… e paguei 3 Euros e pouco.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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