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Balcãs ’11 – Dia 32 – Jajce e Banja Luka

30 de Outubro

A minha relação amorosa com Jajce não durou muito. Nada dura para sempre, e o este idílio não foi excepção. Tinham-me prometido um dia de sol e quando acordo vejo lá fora o cinzento costumeiro. Já não posso com estas nuvens baixas, esta espécie de nevoeiro omnipresente. Foi aqui que a coisa começou a azedar, mas sempre fui pensando que era nebelina matinal e que a coisa se ia embelezar mais tarde. Não podia estar mais enganado. Foi o dia todo. Ao principio, ainda teve a sua piada. Fui até aos lagos, que distam uns 4 km de Jajce, e cujo acesso se faz lado a lado com o rio, que corre para cá, agitando-se de tempos a tempos em pequenas quedas de água. A primeira parte até não teve muita piada, sempre pela estrada principal que segue para Bihac, e sem contacto visual com a água, que contudo ouvia correr. Depois, chegando a uma curva, estes olhos experientes detectam uma pequena marca de trilho de hiking (que existem na Bósnia, mas estão sempre muito escondidas e são deveras discretas). Ora bem, como não sabia exactamente como chegar aos lagos, aquela hipótese era tão boa como qualquer outra, e, abandonando a estrada principal, sigo por aquela, também asfaltadas, mas muito estreita e practicamente sem tráfego.

Pouco depois, chego ao paraíso. O rio divide-se em três ou quatro cascatas lado a lado, ambos os bancos estão cobertos de verde rasteiro, decorado com as folhas de Outono, e na água, ultrapassada a agitação do desnível, espelham-se as montanhas circundantes. Nesta altura ainda pensava que a névoa envolvente trazia um tom dramático à paisagem que resultava bem como alternativa ao clássico céu azul. Depois de muito apreciar o cenário, sigo caminho, afastando-me um pouco do curso do rio. Começo a ficar desconfiado da inclinação do caminho, mas a verdade é que pouco depois chego a um topo e tenho mais uma visão paradísiaca: lá em baixo o segundo lago, muito maior que o primeiro, que já era sobejamente bonito. Em meu redor, uma tela retrato da atmosfera rústica do país. Casas pobres, algumas maltratadas pela guerra, outras que nunca chegaram a ser acabadas. Frente a elas, galinhas depinicam despreocupadamente qualquer coisa que encontrem no solo. Aqui e acolá, carros parados, invariavelmente farrapos de chapa com várias décadas de idade. Há montes de feno, fumo que sai pelas chaminés. Vêem-se umas quantas ruínas, de casas que um dia foram lar de alguém, castigado pelo único crime de ter nascido em família com antepassados errados. Os montes envolventes estão cobertos de árvores que vão perdendo a folhagem mas que ainda dão uma cor amarela às suas faces, mesmo pardacenta, atenuada pela nebelina que tudo cobre. Uma senhora aparece vinda do nada e passa por detrás de mim. Sem mais. Nem sorriso nem bom dia. Foi como se eu fosse invísivel, e convém dizer que por aquela altura nem estava na estrada mas num campo onde ninguém (pensava eu) vai.


Hoje foi o dia em que a hora mudou. Apesar de serem apenas 10 horas, na véspera pela mesma altura já eram 11, e o céu começava a ganhar brilho à medida que o manto de núvens se dissolvia para dar lugar a uma tarde de tecto azul. Mas em Jajce, nada. Penso por um instante em prosseguir o caminho, descer ao lago, lá em baixo. Mas não. Opto por regressar, desta vez por um caminho alternativo, na margem oposta do rio. É uma volta mais ampla, mas as vistas são mais pictorescas e o trânsito não é incessante, como do outro lado.

Quando chego a Jajce penso que já chega, quero ver o Sol. Mas nada acontece. Depois, encontro as famosas cascatas da cidade, consideradas por alguns entre as dez mais bonitas do mundo. Têm a particularidade de se encontrar practicamente no centro, e é isso que lhes confere um carácter único. Mas, surpresa, aquilo está tudo em obras. É verdade, o caudal foi desviado e a parede que costuma estar abrigada pela queda de água está a descoberto, sofrendo trabalhos de manutenção. Co’a breca! É demais! Foi nesse momento que percebi que estava tudo acabado entre nós. Decisão tomada, sigo para Banja Luka.

Vagueio pela cidade. Existe um autocarro à 1 e outro às 16:40. Penso em tomar o primeiro mas acabo por me decidir pelo segundo. Nada de correrias. Ainda quero dar uma vista de olhos ao castelo e o pessoal da casa não tem objecções a que eu fique até às 16 horas, por isso será assim.  O tempo que falta divido-o da seguinte forma: dou uma vista de olhos ao museu sobre o importante congresso que se realizou em Jajce durante a Segunda Guerra (vão-me perdoar os locais mas não me recordo do nome completo do evento, mas parece que foi mesmo algo importante); o senhor conduz-me à sala da exposição, que é exactamente o espaço onde Tito se dirigiu há audiência, há mais de meio século atrás; entrados, põe-me o braço por cima do ombro e explica-me afectuosamente que os painéis têm uma versão em inglês… ah! e que não há problema de tirar fotografias… dito isto, deixa-me, sai do grande salão e fecha pomposamente a porta atrás de si. Enfim sós, com o fantasma do grande marechal. Sigo para o castelo, que visito, a troco de 0,50 Eur; mesmo depois de quatro semanas de Balcâs não consigo deixar de me espantar com a agradável descontração que reina nestes locais. Muralhas e torres, tudo aberto, a nú, sem barreiras. Ah e tal, é perigoso, pode-se cair… problema de quem quer arriscar. Como deviam ser as coisas em todo o lado. Sento-me na praceta perto do café onde estive anteriormente e uso descaradamente a rede deles. À minha frente vão passando os boçais de Jajce. Terra estranha esta, onde a rapaziada parece estar mais próxima dos símios do que a maioria de nós, e onde há um número intrigante de dementes e atrasados mentasis. Depois, passo pelo supermercado, compro qualquer coisa para comer, vou até ao quarto, descanso um pouco. Está na hora da partida. Despeço-me do anfitrião, que fala inglês, e sigo para a estação de autocarros.

A viagem decorre sem sobressaltos, inciando-se com luz do dia ainda forte, passando por uma fase de lusco-fusco e terminando já noite cerrada. A paisagem é magnifica, com muitos quilómetros feitos a par do rio Vrbas, passando por inúmeros túneis. E finalmente em Banja Luka.

Chegar a esta cidade como eu cheguei é arrepiante. De noite, com um nevoeiro discreto que transforma as sombras em aterradoras entidades… e quantas havia na estação de camionagem… homens alinhados, a espaços perfeitos. Alguns eram taxistas ociosos, outros esperavam passageiros, mas parecia que tinham combinado, como figurantes de um filme de horror. Banja Luka é muito maior do que pensava. Com 300.000 habitantes, está dotada de avenidas largas, cheias de tráfego aquela hora, mas sem vivalma a pé. Não faço idea de onde estou, relativamente ao centro. No autocarro viajava um casal de viajantes, a quem pergunto se fazem ideia de como chegar ao centro, e como não sabem, sugiro-lhes que partilhemos um táxi para lá. Que pode ser, mas têm antes de ir à estação de comboios ali ao lado e já voltam. Mas nunca mais aparecem. Não sei se alguma das sombras lhes terá dado sumiço trágico, mas depois de 20 minutos já não estou para mais. Entretanto o meu telemóvel conversou com os satélites e disse-me que para o centro são uns 1500 metros. Fácil.

A caminhada é pacífica mas aterradora. A nebelina cria sombras assustadoras, não se vê ninguém naquelas avenidas largas e a iluminação pública é parca. Imagine-se o Campo Grande, só que estendo-se por quilómetros. Não faço ideia se estou a atravessar zona de salteadores, mas depois de passar por mim uma moça de aspecto angélico fico mais descansado. Não pode ser assim tão inseguro. Agora só me resta perder-me, que é o que sucede a seguir. Não dou com a igreja onde me deveria encontrar com o Ilija. Pergunto a um polícia, simpático, que me aponta o caminho… só que de grande igreja, nada. Acabo por encontrar uma, mas de aspecto modesto, e desisto. Já estou 20 minutos atrasado, mando um SMS ao meu novo amigo, descrevendo a minha localização e passado uns minutos estamos juntos.


O Ilija não me podia hospedar, mas arranjou um amigo que sim. Mas essa história fica para depois. Para já fomos beber umas cervejas, e depois, outras, desta vez num Jazz Club, com música ao vivo a animar as hostes. Bom serão. Hora de ir para casa. Que gente boa. Sinto-me imediatamente entre amigos. Há comida e bebida, e conversamos imenso. Os amigos são uma casal de jovens que têm já um filho, são estudantes de arquitectura e vivem juntos numa casa simpática. Na cave há um apartamento, e é todo para mim. Durante a noite está um frio de rachar, mas o cobertor é quentinho e dormindo vestido não sofro com a baixa temperatura. Tenho as comodidades todas, e a Monika deixa-me um pratinho com bolos que fez. Estraga-me com mimos. Todos eles o fazem.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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