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Balcãs ’11 – Dia 36 – Brcko, Belgrado

3 de Novembro

Despertar às 6:50. O meu anfitrião vai-me dar boleia para o centro, de caminho para o trabalho. Pensava eu. Passamos em frente ao edíficio dele, e o carro segue. O seu sentido de hospitalidade não concebe que eu tenha que andar, mesmo que os meros 200 metros que separam o seu escritório do centrissimo nobre de Brcko. Por isso larga-me lá, e inverte a marcha. Combinamos o encontro para as 12:00. O autocarro para Belgrado é às 13:00. A mochila ficou em casa e ele vai-me levar à estação.

A manhã não tem grande história. Andei um pouco na “calçada” junto ao rio. A outra margem é Croácia e uma ponta fronteiriça atravessa para lá. O dia, que, segundo a previsão metereológica seria o sexto consecutivo de céu totalmente limpo, foi “apenas” o mais cinzento e escuro de outros tantos dias tristonhos e sem a companhia do sol. Mas nas primeiras horas da manhã a coisa funcionou, porque aquele ambiente adequava-se, e de que maneira, ai rio plácido que separava os dois países. Caminhei pelo passeio que corre junto ao curso de água, cumprindo a promessa que fiz à Jadranka (minha anfitriã), mas depois aquilo acabou, e estava a gostar, de forma que prossegui por um trilho por entre as árvores. Quando o momento alto da visita a uma cidade consiste num passeio no meio do bosque, isso não abona muito em favor do aglomerado urbano, pois não?

 

 

Pronto, chegado a certo ponto conclui que seria melhor voltar. O trilho prosseguia, de forma possivelmente infinita, já tinha andado um par de quilómetros e estava saciado. Do lado do rio, há um bom bocado que os traços de presença humana, representados por velhas embarcações e ancoradouros de madeira meio podres, tinham terminado. Um ou outro transeunte cruzaram-se comigo, sem me prestar grande atenção.

Em Brcko, por assim dizer, só há um elemento de destaque: o edíficio da câmara municipal. Aqui entre nós, é um prédio como outro qualquer. Vá, um tudo nada mais especial, mas seja como for, em Praga, Budapeste ou Viena, seria tão distinto como um bloco residencial de Odivelas entre os seus pares. Portanto, eram nove horas e estava de contas feitas com esta cidade. Descobri um café chamado O Padrinho com internet, e passei lá o resto da manhã. O pessoal tinha um aspecto meio estranho, não sei se em conformidade com o nome do estabelecimento, e alguns dos clientes enquadravam-se no espírito. Palavra de honra que fiquei com a ideia que se passava ali algo suspeito, mas de concreto ficou apenas a simpatia do “mafioso” que me serviu a conta, aceitando sem má cara o meu pedido de pagar em Euros e indicando-me a casa de banho quase com uma vénia.

Ao meio-dia o Zdenko estava no ponto combinado, precisamente em frente ao bem-amado edíficio dos… Brckianos (?). Peço-lhe para parar numa padaria, da qual saio com um majestoso pão debaixo do braço. Custou 0,60 Eur e alimentou-me durante três dias. Mas já que falo em alimentos.., assim que parámos o carro em frente ao prédio, já a Jadranka, do quarto andar, me chama em alta voz apenas para me presentear com um aceno imperial. Foi apenas uma oferta preliminar, porque assim que cheguei lá acima, toca de pôr a mesa, e vá… um par de ovos estrelados, queijo local (produção da aldeia dela) e pão. E eu que andava a racionar os víveres para me manter até à chegada a Belgrado, fiquei assim atestado. Depois, foi hora de despedida. Muitas promessas de amizade de galanteios de parte a parte, vamos para o carro e seguimos para a estação de autocarros. O Zdenko certifica-se que entro no autocarro certo e de que não à brincadeiras com o preço do bilhete e vai à vida.

Pela frente, quatro horas de viagem. Cruzar a fronteira foi simples, e do lado de lá, sente-se uma diferença, apesar de tudo aquilo ser habitado por sérvios. Mas o que é certo é que a paisagem da Sérvia, país, me cativou. Tivesse eu uma janela limpa e luz decente, tinha vindo por ali adiante a tirar fotografias a rodos, mas como nem um nem outro era o caso, deixei-me estar quieto, embalando-me com o calor proporcionado pelo aquecimento do autocarro. Durante três horas andámos por aldeias e pequenas cidades. Só nesta parte do mundo, de entre as que eu conheço, é que um autocarro de longa-distância, internacional, se comporta como uma carreira regional, seguindo por estradas que quase são caminhos de cabras, parando aqui e acolá, em localidades ermas de tal forma que lhes poderia chamar de “aldeias”. E com isto perde-se uma eternidade. Tal como os portugueses de Banja Luka, que me deram um sorriso como quem diz “sim, sim, tá bem, deves estar mas é maluco”, quando lhes disse que até Sarajevo iam levar com seis horas de viagem (são 180 km), também um passei por essa fase de incredulidade, logo à chegada aos Balcâs. Mas passou-me. Percebi, a custo, como era possível usar-se 1 horas para vencer uma distância de 30 ou 40 Km: é usando as estradas mais escabrosas, entrando e saíndo em toda e qualquer lugarejo que se encontre pelo caminho, e parando por vezes para intervalos, durante os quais o motorista relaxa no café 15 ou 20 minutos. Mas pronto. Tudo isto para dizer que apesar da distância entre Brcko e Belgrado ser relativamente curta, foi suficiente para levar aquelas horas todas.

As casas e as pessoas têm uma aparência diferente, que não sei bem como descrever. Mais rural? Mais castiço? Não importa. De repente o meu mundo muda, quando chegamos a uma auto-estrada, mas atenção, a uma auto-estrada a sério, tal como as conheço! E dali, o trânsito engrossou e era como se estivesse noutro mundo. Em poucos minutos passei de uma Sérvia rural, a tocar a mesma sinfonia que me acompanhou durante cinco semanas, e depois estava de volta ao meu universo, numa auto-estrada pejada de carros modernos, conduzidos por gente de ar cosmopolita e urbano, num quadro que poderia ser encontrado na abordagem a qualquer grande cidade da Europa Ocidental.

A entrada em Belgrado foi dicultada pelo trânsito, e de que maneira. Foi quase uma hora, até chegar à estação de autocarros. E ali estou eu, largado sem meiguice na selva urbana, na grande cidade, cheia de gente, de carros, de movimento, de vida, de luzes. Belgrado não tem nada a ver com nenhuma das outras paragens por onde andei nas últimas cinco semanas. É uma cidade, mesmo. A população ronda os 1,6 milhões, sensivelmente o mesmo tamanho que Praga, mas parece maior. Não só na extensão da sua massa urbana mas na densidade de gente que encontro nas muitas ruas que percorro.

Enquanto ando, e depois de ter vindo a ler o guia In Your Pocket de Belgrado no autocarro, começo a lamentar não ter atribuido mais uns quantos dias a esta cidade. Que diabo andei eu a fazer em Banja Luka três noites…. ou em Brcko, uma única mas mesmo assim excessiva noite. Bem, disfrutei de interessantes experiências humanas, lá isso é verdade…. consolo talvez parco para a frustração antecipada de não poder sair de Belgrado com a sensação de ter desvendado convenientemente os seus segredos.

A custo, encontrei a casa do meu anfitrião local, Dragan. Boa localização, a cerca de 15 minutos de caminhada da praça geralmente considerada como central. Gostei imediatamente dele e do apartamento. Decididamente ficarei bem entregue! Logo nessa noite vamos a um convívio de Couchsurfers. A noite em Belgrado é animada. Mas este tipo de encontros não me agrada, e só vou por uma questão de cortesia. Assim como assim, ele tinha um compromisso e assim que deixou a festa contei uns quantos minutos e saí também.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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