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Balcãs ’11 – Dia 9 – Tirana e Durres

7 de Outubro

No último dia em Tirana, que afinal não se passou em Tirana, o despertar é matinal. O Gianluca tem de sair às 7:30, e com ele, eu. Sem problemas, até dá jeito, porque planeio apanhar o comboio das 8:40 para Durres e o “timing” é perfeito. Sem a mochila às costas o passeio até à estação torna-se muito agradável. Na Albânia, como nos Balcâs, as pessoas evitam os comboios, que são mais lentos que os autocarros. Ora para o turista o tempo não é, na maior parte das vezes, um problema. Pelo contrário, o comboio permite observar com calma. A paisagem e as pessoas. E há espaço e menos balanços. Perante isto, existindo a alternativa ferroviária, seria sempre a minha escolha.

A estação de Tirana apresenta um charme decadente. Da capital há apenas treze partidas diárias, sendo que seis delas são para Durres, que dista cerca de 30 km de Tirana e se encontra na costa. Os comboios albaneses são puxados por locomotivas checas, adquiridas em segunda mão, e as carruagens estão em mau estado, com muitos vidros partidos e todos eles rachados. É que os “putos” dos subúrbios não dispensam o tal ataque à pedrada ao comboio que passa. Os meus companheiros de viagem são pessoas humildes; muitos deles regressam da feira em Tirana, carregados de bens, animados, cheios de conversa para dispensar. A viagem leva cerca de uma hora, tal como prevista, e o bilhete custa 0,45 Eur. O cenário, lá fora, não é muito interessante. Aquela zona é altamente povoada, e os subúrbios da capital estendem-se por quilómetros. Acabo por me distrair da paisagem de pobreza e devastação, feita de casebres e pilhas de lixo.


Chegada a Durres, cuja estação tem o mesmo carácter que a de Tirana. No terreiro defronte uma infinidade de velhos autocarros espera passageiros. Pelo menos para Durres tive tempo de estudar o passeio e sei exactamente em que direcção seguir. Foi agradável sentir o perfume a estância turística, depois dos banhos de pobreza a caos urbanístico dos últimos dias. Em Durres há palmeiras e hóteis, veraneantes e esplanadas. Acabei por não ver a praia, que ficava no sentido oposto ao da velha cidade. Dali, em tempo idos, partia uma das duas rotas que ligava Roma a Constantinopla. Ao longo de todos estes séculos o porto de Durres foi uma mais valia estratégica, cobiçada por invasores provenientes de todas as paragens. Os últimos a chegar, os italianos, desembarcaram precisamente aqui, em 1939. A assinalar o facto, uma estátua do comandante da polícia local, treinada pelos britânicos, que tentou conter o avanço dos atacantes. Esforço inglório, considerando a desproporção de forças envolvidas.


Chegado a uma encruzilhada, afastou-me do litoral, deixando o porto repleto de navios para trás. Vejo a La Torra, uma torre militar construida pelos venezianos, que chegaram a ocupar Durres durante algumas décadas, lá para o século XVII. Ao lado, o busto de Thomson, o desafortunado oficial holandês enviado para comandar o contingente que deveria treinar e formar as forças do novo país aquando da independendência. Acabou por perecer vítima dos conflictos internos, nas ruas de Durres, que foi brevemente capital da Albânia.

De um lado e de outro da rua existem esplanadas e lojinhas de comida rápida, já vazias depois da actividade intensa do Verão. Do lado esquerdo, através de uma ruazinha, tem-se acesso à entrada do anfiteatro romano, cujo bilhete custa cerca de 2 Eur, que não pago. O espaço foi recuperado por uma equipa liderada pela Universidade de Parma, que ainda trabalha nalguns sectores. O anfiteatro é enorme, mas porque existem casas construidas sobre os seus limites, não será possível revelá-lo em todo o seu esplendor. De fora vê-se toda a estrutura exposta, e apenas se perde o acesso aos túneis existentes sob as bancadas. Estou perante o maior anfiteatro do seu género existente nos Balcâs, com capacidade para um terço dos espectadores do grandioso coliseu de Roma.

Mais à frente a mesquita e a praça central de Durres, onde se encontra a câmara municipal e o teatro, É ali que volto para trás, para a costa. Há ali umas coisas que quero descobrir. E tudo me vai aparecendo à frente com naturalidade: a antiga fábrica de tabaco, hoje abandonada, vedada e com taipais nas janelas; foi ali que em 1940 uma greve contra os ocupantes fascistas é ainda hoje celebrada, e o alto-relevo que lhe é dedicada se torna um ponto a não perder, na fachada da fábrica. Mais à frente, uma segunda estátua de inspiração socialista, mais um combatente em atitude belicosa.

A caminhada prossegue pelo passeio marítimo, um espaço quase surreal, com um mar revolto e sujo, superfície coberta de lixo e algas, com barcos a pedais abandonados sobre as rochas, carroceis e todo o tipo de atracção de feira. Mais à frente um pontão, mar adentro, conduz até a uma estrutura cuja construção foi interrompida. O que seria suposto vir a ser é um enigma. As esplanadas prosseguem, algumas delas bem amplas, quase vazias. E de repente o amplo calçadão termina…. e termina num monte de areias movidas, entulho natural. Há por ali uns trilhos que cruzo e vou ter a uma pequena praia, com areia fina, compacta e cinzenta. Há um tipo que me vem dizer qualquer coisa. Distingo as palavras “privado” e “televisão”. Primeiro penso que está a implicar porque tirei uma foto, mas não percebo, porque foi uma fotografiazinha inócua, do mar. Mais tarde chega-me uma outra ideia: li em qualquer lado que a norte de Durres havia uma praia privada, pertença de um hotel. Se calhar invadi-a, mas como não falava albanês nem italiano, o homem desistiu da intercepção e afastou-se.


 Já com um razoável número de quilómetros nas pernas, afasto-me mais um pouco, até chegar a um ponto que parece o fim das coisas. Dali para a frente uma tortuosa estrada em mau estado começa a subir em direcção a um cerro repleto de antenas. Sento-me num paredão, tiro as botas, como qualquer coisa e relaxo durante longos minutos. Depois inicio o caminho de regresso. Durante a pausa dou uma vista de olhos no guia turístico e identifico algo que ainda quero ver antes de partir: o fórum romano, do qual estive tão perto sem me aperceber, mesmo nas traseiras do teatro.


Retorno por um caminho ligeiramente diferente, que me dá uma óptima perspectiva das muralhas bizantinas, ainda hoje em excelente estado, e cujo portão dá acesso ao interior da cidade. Encontro o fórum,que se revela uma agradável surpresa. Gostei mais de o visitar do que olhar para o afamado anfiteatro. Bem, falta uma hora e tal para o comboio de volta a Tirana, e instalo-me numa esplanada a bebericar uma água.

O regresso dá-se sem novidades. Desta vez a revisora não valida o bilhete com uma tesoura de cozinha, limitando-se a usar os dedos para o rasgar ligeiramente. A hora de chegada do comboio é perfeita. O tempo certo para caminhar nas calmas até casa do Gianluca. Estou num daqueles dias em que me doi o estômago, e cansado por um dia a caminhar. Mas ele faz questão de visitar um amigo que nos convidou para jantar. Felizmente tenho duas horas para relaxar, que são preciosas para recuperar… o estômago está bem melhor e as forças retemperadas. É assim com boa-vontade que caminho com ele até ao centro. Vimosm o jogo de futebol Sérvia-Itália. Quanto à comida, descemos num instante à loja defronte, aproveitando o intervalo. Ah! Descobri uma aproximação às sandes de Rhodes, com as quais sonho periodicamente. Aqui, serve-me uma sandes feita de massa de pizza, com mozarella, azeitonas, pimentos, que sabe quase exactamente como as desejadas sandes de Rhodes.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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