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Balcãs 2010. Dia 11. Ivan Vazovo.

O acordar é doce numa aldeia perdida do centro da Bulgária. De novo o chá com mel como pequeno-almoço. E mais tarde, aparece o Justin. E a mulher do Atanas que está de passagem, dirigindo-se para os banhos termais com as crianças. É o bucólico cenário familiar que me tem acompanhado nos últimos dias. Momentos de puro deleite, de repouso e descontração. O Atanas propõe-me uma voltinha a pé pela aldeia, quer-me mostrar as suas propriedades e o forno comunal de que me tinha falado. Entrementes, o Justin sugere-nos uma almoçarada por ele preparada, e assim ficamos. O inglês a preparar os legumes, enquanto partimos para um giro por Ivan Vazovo. É uma experiência única, inimaginável sem a existência de Couchsurfing, totalmente fora do alcance do turista comum. O Atanas é, por assim dizer, um dos notáveis da comunidade. Por ser de fora, pelo passado profissional que traz, pelo dinamismo e personalidade forte. E assim, por onde quer que passe, toda a gente tem algo para conversar com ele.

Abre-se uma porta e uma senhora bem desdentada assoma-se e trocam umas palavras, perante o olhar inquiridor de três cabras. Logo a seguir ele mostra-me uma casa que anda a namorar. Já perdi a conta ao número de propriedades que possui nesta aldeia e nos arredores, mas ainda assim o Atanas não consegue resistir à tentação de engrossar o rol. Mais à frente passamos em frente à casa principal dele, onde a família acabou de chegar. Boa oportunidade de provar um bolo acabadinhos de fazer, com maçã e outros ingredientes deliciosos que não consigo identificar. Passa a velhota sem dentes e as suas três cabras, que o Atanas tenta acariciar, com pouco sucesso. Nisto, descobre-se o sol, depois de dois dias de chuva ininterrupta, e é tempo de uma saudação ao astro-rei.

A volta prossegue. Chegamos à orla da aldeia e sou apresentando a outra das suas propriedades, um terreno com uma casa em ruínas. No regresso, passamos junto ao forno comunal, onde as pessoas se reúnem para assar borrego nos dias especiais. E por onde andamos, as gentes vêm falar. Pergunto ao Atanas se será possível experimentar “rakia” local. Trata-se de uma espécie de bagaço. Ele olha para mim surpreendido. Toda a gente tem “rakia”, diz ele… e enquanto o diz, olha em redor, e vê uma senhora ali à beira. Pede-lhe logo um copo, para o amigo de Portugal experimentar uma bebida tradicional búlgara. A senhora olha surpreendida, como quem pondera se se trata de uma brincadeira ou se é verdade. E vai para dentro. Passados uns minutos volta com dois copos. Um com “rakia” e outro com água. Diz ela que é para o caso da bebida, a 50 graus, se revelar demasiado forte. Mas a água não é necessária e bebo a “rakia” enquanto converso com o auxílio do tradutor. Conto-lhe que em Portugal existe algo semelhante, a que chamamos “bagaço”, e que os homens costumam-no beber a seguir ao café. No jardim dela existem videiras. É com essa uva que a bebida é preparada, mesmo ali, na casa. E a conversa deriva para a fruta, permitindo-me sair dali com um cacho de ricas uvas.

Pelo caminho vamos petiscando. Aqui, nozes que apanhamos do chão, ali, figos doces recolhidos da figueira, e mais à frente, frutos silvestres. Diz ele, com ar feliz, que adora viver assim, numa aldeia, onde não é preciso comprar nada para comer, quando a natureza se revela tão generosa. O passeio termina, ficando como um dos momentos altos da viagem, e em casa espera-nos o petisco preparado pelo Justin: arroz branco e batatas de caril, com vegetais e passas. A família está reunida. É um cenário idílico, de harmonia, que é aliás uma palavra que impera por aqui. Nisto, uma senhora entra no jardim, com um borrifador de insecticida. Cumprimento-a com um “dobry den” devidamente correspondido. Pouco depois uma outra senhora vem falar com o Atanas. Precisa de ajuda: tem um carregamento de maçãs para entregar aos netos que vivem na aldeia seguinte. Vamos levá-la. Nessa outra aldeia ele mostra-me, orgulhoso, a casa de hóspedes que a empresa dele tem ali, para albergar os clientes dos seus desportos radicais. Está bem arranjada. As pessoas ficarão ali bem acomodadas. O jardim está repleto de macieiras carregadas de saborosos frutos. Antes de abandonarmos a aldeia, mais três ou quatro pessoas têm assuntos a tratar com o Atanas. E depois, já de volta, ficamos pela casa, ao sabor do tempo, sem fazer nada de especial.

O serão é passado a jogar backgamon e xadrez (que humilhação). Ele convence-me a adiar a partida, que seria amanhã. Oferece-se para me levar aos sitios que planeava visitar nos próximos dias. Sinto que tem gosto nisso, e assim como assim, depois de me ter assustado com a parca funcionalidade dos transportes nestas áreas mais interiores da Bulgária, aceito a oferta. Por um lado gostava de estar algum tempo sozinho, comigo mesmo. Mover-me ao meu ritmo. Mas assim também está bem. Tenho companhia e ajuda, viagens facilitadas, e sempre poupo a acomodação em Koprivisthitsa, onde não há Couchsurfing.

Tabela de Despesas

Sem despesas

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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