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Balcãs 2010. Dia 19. Bucareste.

O primeiro dia em Bucareste não acordou da melhor forma. Lá fora, o cinzento dominava a cidade, abraçada por esta manta de nuvens baixas que largavam piamente a sua carga de água, de forma branda mas constante. A metereologia já o tinha anunciado, mas a esperança secreta que mantinha foi suficiente para despertar um sentimento de frustração algo amargo. Com apenas um dia completo para explorar a capital da Roménia, este estado de coisas ameaçava gorar todos os planos. E foi assim que me fui deixando ficar, embalado pela intempérie, lendo na calor dos lençois. Duas ou três horas se passaram e o livro (Sharpe’s Trafalgar – Bernard Cornwell) acabou. Assomei-me à janela. Ainda havia alguma precipitação, mas pouco mais que um chuvisco. E decidi sair.

Dirigi-me ao Palácio do Parlamento, construido nos anos 70 pelo ditador Ceasescu, inspirado na arquitectura megalómana que tanto o excitou no decorrer da viagem que fez à China e à Coreia do Norte. Para o erigir, mandou arrasar meia cidade velha, destruindo igrejas, hospitais e belas casas e pequenos palácios… ao explorar o que resta da Bucareste antiga, o visitante poderá ter uma ideia do património arquitectónico, para sempre perdido. Trata-se do segundo maior edíficio administrativo do mundo, a seguir ao Pentágono, e é talvez a atracção mais procurada pelos turistas na cidade.

 

 

Cirandei pela ruas, guiado pelas caches que procurava, sem qualquer sucesso. E, mesmo com a contrariedade do mau tempo e da frustração das caixinhas não encontradas, fui formando uma ideia positiva de Bucareste. Ao contrário da opinião maioritária, gosto daquela cidade. Agrada-me a presença paralela dos traços grandiosos de inspiração comunista, presentes nas praças muito amplas, nos grandes edíficios governamentais, nas avenidas novas, e das velhas pérolas do passado, palácios e palacetes, casas e igrejas. Alguns estão bem cuidados, aproveitados com esmero por empresas multinacionais; outros, claramente ao abandono, surpreendem o viajante, erguendo-se sem aviso nos locais mais inusitados. Em determinado momento senti mesmo a alma da nova Lisboa nas ruas de Bucareste. A arquitectura Estado Novo não é assim tão distinta do estilo comunista e a mesma coabitação entre velho, glorioso e novo existe na capital portuguesa.

 

 

Algo que surpreendeu foi o carácter urbano, cosmopolita da população, sobretudo das camadas mais jovens. Ao contrário do que esperaria, e com a pré-opinião moldada no exemplo dos emigrantes romenos em Portugal, as pessoas que enchem as ruas de Bucareste tem genericamente um aspecto moderno e educado, com uma cultura no ar que se aproxima da atmosfera berlinense. De resto, em todos os aspectos Bucareste foi uma surpresa positiva: economicamente bem mais desenvolvida do que esperava, com um parque automóvel moderno, comércio resplandecente, transportes públicos com bom aspecto. Pelo que me dizem, a segurança não é um problema nas ruas desta cidade, apesar da pobreza que se vai revelando sob as arcadas onde à noite os sem abrigo procuram refúgio e pelas ruas adjacentes ao centro, onde os “putos” filhos da rua se tornaram arrumadores de carros, tudo isto contribuindo para reforçar a ideia de paralelismo com Lisboa.

Com o passar das horas a chuvinha parou de todo, e pude apreciar ainda mais o ambiente. Encontrei por acaso uma feirinha, com produtos tradicionais, grelhados. Acabei num bairro marginal, com antigas casas degradadas, um espanto. Como cereja em cima do bolo, uma igreja, também ela votada ao esquecimento, com pinturas extraordinárias no exterior, e mesmo ao lado… um bairro cigano. Depois de tudo isto, voltei para casa. Cansado, molhado, frustrado com o insucesso na busca das caches… mas apesar de tudo, satisfeito com Bucareste.

Ao serão, sai um pouco, fui sentar-me na esplanada onde estivémos no dia anterior, pendurado na rede wireless do local, pondo as coisas em dia. Dormi cedo.

 

 

Tabela de Despesas

01,84 Eur Chá
07,63 Eur Supermercado
01,15 Eur Cerveja
04,00 Eur Diversos

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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