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Balcãs 2010. Dia 20. Bucareste – Brasov.

Último dia na capital da Roménia. O tempo continua embrulhado, mas hoje parece mais ligeiro, e, como se viria a verificar, foi de tal forma que ao virar esta página da viagem vi o azul do céu, numa enorme mancha colorida que se abriu.

Sai com o Radu, para o Metro. Um bilhete diário custa apenas 1,50 Eur, e que útil que se revelou. Todo se configurava para um dia em grande, com a primeira paragem na zona norte de Bucareste. Ali pode-se explorar um belo parque, numa zona nobre da cidade, onde as elites habitam e onde Ceacescu chegou a morar. É manhã cedo, num Domingo sossegado. O ambiente é um espanto. Há uma certa neblina. De alguma forma, o cinzento que ontem irritava hoje está diferente, tem uma carga positiva. Aquelas horas, o parque está vazio. Consigo encontrar logo as duas caches que por ali estão escondidas e retiro imenso prazer do momento. É bonito, está-se bem. Tenho um encontro imediato com um dos cães vadios que estão por todo o lado em Bucareste. Já tinha lido sobre o problema. Todos os guias turísticos os mencionam, mas apesar de os ter avistado aqui e acolá, nunca foram um problema. Mas este estava especialmente mal-disposto e fez questão de me interditar a entrada no jardim japonês que existe no parque. Leva-me a pensar que existe uma identidade nacional no mundo canídeo. Todos os cães romenos parecem ter um mau-humor notável. Aparentemente esta identidade é uma antítese da natureza dos povos humanos. Na República Checa as pessoas têm o senso social de uma morsa mas os amigos de quatro patas são dóceis e simpáticos. Na Roménia passa-se exactamente o contrário.

Depois sigo adiante, passo junto ao “Arco do Triunfo” de Bucareste, o que me faz pensar na aparente obsessão do antigo ditador pelos valores franceses. O “boulevard” que conduz ao enorme Palácio do Parlamento foi projectado para superar os Campos Elísios, com mais seis metros de largura, cuidadosamente calculados para bater o seu “rival” gaulês. E agora, o Arco do Triunfo. Mas o meu objectivo está mais à frente: o Museu Etnográfico ao ar livre, onde se podem visitar largas dezenas de casas tradicionais e engenhos rurais, trazidos de todos os cantos da Roménia. É maravilhoso. Passo duas horas ali, perdido nos detalhes, respirando o ambiente. De início o recinto encontra-se quase vazio, mas quando sai, já estava bem cheio, com as famílias que escolhem o local para passar o seu Domingo.

 

 

Apanho o metro apenas por uma paragem, e saio para encontrar mais umas caches, que correm bastante bem. Não só estão bem conseguidas como me guiam por locais diferentes da cidade, longe dos percursos mais turísticos, e proporcionam-me um belo passeio. Ali junto ao metro, decorre uma prova de atletismo. Ando imenso, absorvendo a alma da cidade. Mas o tempo começa a escassear. Tenho um comboio para apanhar às 18:10 e, claro, quero chegar com alguma antecedência para precaver potenciais problemas. Mas ainda falta o último elemento do plano: o Museu Militar.

 

 

Pago a entrada, muito barata, mas depois tenho que pagar mais para poder usar a câmara fotográfica, e então a soma, já incluindo o pequeno guia que adquiri, fica por cerca de 6 Eur. A exposição é agradável, mas as legendas em inglês são escassas. Toda a história militar do país se encontra representada, desde a Pré-História até à actualidade, com uma colecção muito interessante dedicada à Revolução de 1989, onde impressiona especialmente o uniforme, ainda ensaguentado, do Comandante do Exército, executado por ordem directa de Ceasescu por se recusar a dar ordens às suas unidades para abrir fogo sobre os manifestantes. Depois saio para o páteo exterior, onde o espólio é significativo e deveras interessante. Mas já estou atrasado e tenho que me apressar.

Mesmo assim o tempo é à conta… já não consigo tomar duche e abalo a correr para a estação. Ainda bem que mesmo assim tinha uma reserva de tempo, porque apanhei o metro errado. Felizmente na estação tudo corre bem. Não havia fila nas bilheteiras e um simpático funcionário ajudou-me a encontrar o comboio certo.

 

 

A viagem decorreu relativamente normal, excluindo o par de ciganos que decidiram escolher o meu compartimento para viajar até Brasov. Entre gritaria ao telefone e arrotos generosos, conversa sem parar, conseguiram levar-me ao limiar da loucura. Felizmente para mim, em determinado momento, descobriram que havia compartimentos vazios e partiram com grandes saudações cordiais para mim. Para quem gosta de falar de corrupção em Portugal, fica a nota que na Roménia quem estiver á vontade, não pága bilhete de comboio. Chegado o “picas”, noto algo estranho no ar. Passado uns minutos o revisor regressa, chama um dos aperaltados ciganos ao corredor, e uma soma indeterminada de dinheiro muda de mãos, subrepticiamente, de forma suspeita. E assim se fazem as coisas.

Chegando a Brasov, tenho um dilema: tentar descobrir o autocarro correcto, arriscar-me num táxi ou simplesmente caminhar os 4 km até ao ponto de encontro com o meu próximo anfitrião? Vejo no GPS que ao entrar na estação o ponto encontra-se a 3,2 km e decido colocar a questão nas mãos do destino: se quando o comboio parar a distância for inferior a 3 km, andarei. Mas o destino pregou-me uma partida, e quando a composição se deteve a maquineta marcava exactamente 3 km. E agora? Agora vou a pé. Pronto.

Ao sair da gare sou surpreendido com a maravilhosa visão da lua e de algumas estrelas. Está uma noite verdadeiramente agradável e o passeio decorre agradável. A primeira parte mostra-me uma Brasov moderna, muito funcional, equilibrada. Parece uma cidade ocidental. Os carros que ainda circulam são modermos, os prédios estão bem ataviados. Aqui não se detecta miséria, decadência. Depois, subitamente, entra-se na cidade velha e os olhos abrem-se de espanto: é um cenário lindo, cosmopolita. Grande ambiente.

A noite será longa. Mesmo sem ir a casa, vamos beber cervejas, e bebemos várias. O Mihail tem um amigo a ficar uns dias, o que para mim significa cama partilhada. Ficamos os cinco á conversa no bar durante horas. Ele, eu, o amigo, a esposa e a namorada do amigo. Dormi que nem um bébé.

Tabela de Despesas

08,26 Eur Comboio para Brasov
06,11 Eur Museu Militar
01,15 Eur Museu Etnográfico
01,27 Eur Bilhete diário de Metro
03,45 Eur Cerveja
01,61 Eur Táxi

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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