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Balcãs 2010. Dia 26. Sibiu.

 

Acordo pelas nove horas. E sou recrutado para ajudar a montar um enorme móvel vindo da IKEA. Eu aviso que não tenho grande jeito para essas coisas. Ah e tal, é só para aparar e ajudar a mover as coisas. Muito bem. O que era trabalho estimado pelo Ovidius para uma hora acaba por durar mais de três, e tenho que resolver sucessivamente os problemas que surgem com a montagem. Já passa do meio-dia quando consigo escapulir-me, o grosso do trabalho feito, faltando apenas os acabamentos.

 

 

 

 

 

 

 

Sair de casa e estar logo na praça principal, é uma sensação e pêras. O dia está lindo, céu totalmente limpo. O dedo não pára de disparar. Em cerca de uma hora esgoto o primeiro cartão de memória. Não me posso afastar muito porque tenho que regressar a casa antes do Ovidius sair para o casamento, mas naquela hora e pouco ando e vejo milhentas coisas. O centro de Sibiu é lindo de morrer. As casas, formosas, coloridas. Os pequenos cafés, cheios de charme, já com gente nas suas esplanadas. Saio da cidadela, e exploro a cidade antiga fora de muralha. Cada edíficio merece uma fotografia. É complicado escolher. Ando de boca aberta de um lado para o outro. Dou com o mercado e como uma espécie de fartura recheada com molho de chocolate, à laia de pequeno-almoço. Depois volto, em direcção ao centro, que não me posso esquecer de regressar a tempo. O fascínio continua, com novas maravilhas a cada esquina. Sibiu tem uma beleza única, que assenta sobre os pilares na naturalidade. Aqui as coisas não estão embelezadas para o turista, como em Sighisoara, e em tantas outras cidades em redor do mundo. Há até uma certa decadência no ar. É preciso não esquecer que a Roménia não é um país rico e os anos de comunismo causaram mossa. Mas mesmo assim, não é uma decadência miserável. A beleza mantém-se mas, lá está, de forma natural. Econtro-me à beira de uma “overdose” estética quando recebo a mensagem para regressar a casa. Marco o ponto onde estou no GPS, porque tenho que voltar ali, pegar no circuito onde o deixo. Estou mais perto do que pensava, pelo que chego até adiantado.

 

 

O Ovidius passa-me a chave, explica-me uns quantos truques enquanto mostra orgulhoso o seu móvel acabado, já com os conteúdos arrumados. Uma das coisas que queria fazer em Sibiu era visitar o museu etnográfico ao ar livre, chamado, entre outras coisas de Parque ASTRA (ASTRA é algo como que uma associação destinada a promover os valores romenos na Transilvânia, por oposição às raízes húngaras). Tinha destinado o dia seguinte para esta visita, mas com o tempo esplendoroso que está decido não brincar com a sorte e ir lá já hoje. O Ovidius dá-me boleia até meio caminho, mas ainda tenho que andar um bom bocado, uns 4 km, até lá chegar. Pelo caminho páro para encontrar uma das raras caches de Sibiu, no cemitério central. Apesar de ser um fã incondicional de cemitérios, não aprecio muito os romenos. De forma que não me demora, e finalmente chego ao museu. Choque: à minha frente, para comprar bilhete, uma multidão de estudantes. Quando chega a minha vez, choque número dois: tenho que pagar 20 LEI, quatro vezes mais do que no espaço do mesmo género existente em Bucareste. Os primeiros minutos são de alguma irritação, mas depois liberto-me e recupero a alegria. É bem verdade que para além de não ser barato, por ser já época baixa, quase todas as casas estão fechadas, e em muitas nem no recinto exterior se pode entrar. Também estou frustrado por ter pago uma taxa extra para poder tirar fotografias, porque estou convencido que ninguém a paga e não se espera que tal se faça… excepto para o trouxa do turista português.

 

 

Mas cedo o sentimento negativo se dissipa e a Nikon trabalha sem parar. O parque é enorme. Nem sei se depois das duas horas que lá me demorei cheguei a percorrer tudo. Mas o que vi foi suficiente para dar o dinheiro e o tempo como bem empregues. Vi de tudo. Engenhos agrícolas, casas tradicionais, pequenos abrigos de pastoreio e caça. Moinhos de todos os tipos. Edíficios lacustres. Um sem fim de maravilhas a espelhar a cultura transilvana. Já quase no fim dei com um restaurante rústico que ainda chamou por mim, até porque eram quase seis da tarde e ainda mal tinha comido. Mas, nem sei bem porquê, decidi iniciar o caminho de regresso que se adivinhava espinhoso, já cansado, com fome e com a noite a cair. Considerei esperar pelo autocarro e até apanhar um táxi, mas a minha natureza caminhante falou mais alto e lá foram mais seis quilómetros até chegar a casa, com um ambiente maravilhoso. O cair da noite é lento, a lua cheia levanta-se e sorri para mim. O céu está ainda azul, e a iluminação de alguns edíficios que vejo pelo caminho fascina-me.

Mesmo antes de chegar, na rua pedestre principal, páro num Bila para comprar jantar e mantimentos para o dia seguinte (sem esquecer de mencionar o DVD de O Mongol por menos de um Euro!!). Ao sair, um grupo de jovens dança e toca música romena na calçada. Mas, de novo, sinto o espectro frio das ruas que se desertificam já por esta hora.

Tenho a casa por minha conta, que hoje o Ovidius deve dormir no seu outro apartamento. Como pão com queijo e volto a sair. Vou ao café Wien, que está maravilhoso. Boa música, ambiente intimista, internet.

 

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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