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Balcãs 2010. Dia 9. Plovdiv e Ivan Vazovo.

O último acordar em Sofia. O dia estava cinzento, mas permitiu-me ainda chegar à estação de comboios sem chuva, o que muito agradeci, porque fazer os 4 km a pé carregado como uma mula já foi provação suficiente. A primeira interacção com os transportes públicos búlgaros correu na perfeição. Comprar o bilhete foi simples, e encontrar o comboio correcto ainda mais. Saiu à hora e chegou mais ou menos dentro do horário. Carruagem com compartimentos, sem grande luxo mas comportável. As duas horas e picos de viagem decorreram sem novidade e passaram num instante. Em menos de nada estava em Plovdiv.

Tinha decidido explorar aquela que é a segunda maior cidade do país, com 360.000 habitantes, e apanhar um dos últimos autocarros para o meu derradeiro destino do dia, uma pequena aldeia a meio caminho entre Plovdiv e Karlovo. E assim fiz. Não gostei de Plovdiv: para uma cidade tão pequena, consegue produzir uma quantidade incrível de poluição, de barulho e de stress. Há carros por todo o lado, sempre muitos, e os condutores têm um comportamento bem diferente, para pior, do que os de Sofia. O centro histórico tem o seu encanto, mas trata-se de um pequeno núcleo, muito turístico, que se perde na cidade. Apresenta notáveis exemplos da arquitectura búlgara do século XIX, com destaque para a casa que aloja o Museu Etnográfico. O que decepcionou foi o anfiteatro romano. Estava decidido a pagar o bilhete para entrar, mas quando lá cheguei, apercebi-me que podia ver de fora, e não gostei do que avistei. Tem demasiados elementos estranhos, e pouco do substracto original. Entretanto o tempo foi passando, e como não estava especialmente feliz com a visita à cidade, vim caminhando, nas calmas, para a estação de autocarros.

De novo, encontrar o autocarro certo e comprar o bilhete foi trigo limpo. Ainda tive tempo para ouvir conversa de um senhor búlgaro que entendeu que eu o compreenderia, mesmo depois de lhe dizer que era de “Portugalia”. Mas como hoje estava destinado a atrair conversadores, entra-me um caramelo podre de bêbado no autocarro e senta-se ao meu lado! Passados uns segundos, saca de uma garrafinha, dá um golo e… passa-me o recipiente. Ok… não sou gajo de recusar uma bebida. Era saborosa e forte à brava. Nunca saberei o que era… mas depois de 3 ou 4 golinhos a cada um, distribuidos por vários minutos (fingir que estava a dormir não serviu… abanou-me para não me esquecer que era a minha vez de emborcar) começou a conversa. E muito palrava o homem, com um sorriso… a única coisa que percebi foi que já tinha estado em Lissabona e, já agora, em Madrid. Ufa… felizmente saiu antes de mim, poupando-me o trabalho de lhe fazer entender que teria que se levantar para me dar espaço de desenterrar a mochila do canto onde a encaixei.

E então cheguei à minha aldeia. Caia a noite. Estava a cerca de 1 km da casa do meu próximo afintrião. Um piloto da Força Aérea que passou à reserva. Ao me aproximar da casa, foi interpelado por dois senhores, as primeiras almas vivas que avistei depois de caminhar largos minutos pela aldeia… ao saberem que eu era turista, logo disseram o nome do meu anfitrião, que eu confirmei… e então vieram-me trazer mesmo até à porta.

Fui apresentado às instalações e aos animais… cães, cavalo. Bebemos chá, muito chá. E a seguir, jantar: batatas fritas e pão. Ambos de produção local. Ele tem várias propriedades na aldeia e em redor, e produz tudo. TUDO mesmo. De forma que como já se sabe, as coisas têm outro sabor. E conversa puxa conversa, falámos de tudo e mais alguma coisa. E então chegou a hora de algo novo: vamos de carro, chegamos a um local ermo depois de muita estrada de terra batida… fonte de água quentinha, num pequeno edíficio circular. Ora o meu amigo vem prevenido… tira tubagem dentro do carro, duas cadeirinhas baixas, descasca-se completamente, mesmo ali na rua, entra lá para dentro, monta a dubagem e coloca as cadeiras… ah… e tudo na mais completa escuridão. Então ficámos ali, cada um no seu pouso e com uma boca de água privada… que belo “duche”. Água a precisamente 47 graus. Como a situação não fosse já de antologia, heis que ele começa a cantar, com uma voz de fazer inveja ao Pavarotti, e vai de despejar melodiosas canções búlgaras ancestrais. Viesse eu a ter netos e esta seria sem dúvida uma história para contar.

Tabela de Despesas

04,05 Eur Comboio Sofia-Plovdiv
00,40 Eur Garrafa de água
01,50 Eur Autocarro Plovdiv-Ivan Karlovo

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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Um comentário

  1. Se eu vier a ter netos vou contar todas estas histórias do seu tio avô!Garanto -te…e adorava estar também lá mergulhada na noite a tomar duche…QUE INVEJA!!!!!
    Tenho pena que as fotos não tenham legendas…

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