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Bratislava. 22 de Setembro. Dia 3.

 

Dia de muita passeata. Pela manhã, a ascensão a um dos pontos altos da cidade, onde foi erigido o monumento dedicado aos soldados soviéticos mortos em combate na Eslováquia durante a II Guerra Mundial. O local, para além da estrutura que se ergue nos céus, alberga um cemitério com 6.850 campas. Não foi simples chegar até lá. Sem um mapa, foi uma questão de ir subindo, escolhendo ruas por instinto, por vezes tendo de retornar ao cruzamento anterior, hesitando perande umas escadas. Mas tudo isto valeu a pena. Não tanto pelas vistas da cidade, que observada de longe, mesmo que do alto, não é grande coisa. Mas o recinto é místico aquela hora da manhã. Ainda estou uns bons 15 minutos sozinho, antes de começarem a chegar mais visitantes. O céu está azul, e sopra uma brisa gelada. Ando por ali que nem uma criança, a explorar os cantos, a descobrir novas perspectiva visuais. Reparo que na base do monumento se encontram onze grandes placas, distribuidas pelas quatro faces de pedra, com o nome das principais cidades eslovacas e as datas da sua “libertação”. A Nikon dispara incansavelmente, até que concluo que chega de estar ali. Já anda por ali muita gente. Está visto, e que bem visto foi! Um dos raros pontos de visita imprescindível fora do centro da cidade.

Descer, por estranho que pareça, foi ainda mais complicado do que subir. Perdi-me, andei bastante em direcções opostas, e acabei por encontrar a saída, inesperadamente, ao dobrar uma esquina e me deparar com uma grande via rápida que seguia direitinha para onde eu queria ir: o Museu dos Transportes. Eu sei, é verdade. Não sou propriamente um tipo de museus, talvez por excesso de dosagem, depois de trabalhar uma boa série de anos no Museu de Marinha. Mas a este não consegui resistir. Entro e vejo um senhor com aspecto de ferroviário na bilheteira. Pensei para com os meus botões que teria que me fazer entender por gestos, e lá começo com as momices. Qual não é o meu espanto quanto o tipo abre a boca e sai de lá um inglês quase londrino! Palavra puxa palavra, pergunta-me de onde sou, e ao ouvir a resposta, exclama: 

“-Ah! You have good football there!”

“- Sometimes”

“- No, do, I do know your football. I follow your teams and your league”.

Pronto, se ele o diz. Quanto ao museu, uma maravilha: extende-se por duas salas, a primeira dedicada essencialmente aos caminhos-de-ferro, e a segunda a automóveis e motas, com uma pequena mas deliciosa secção que cobre a II Guerra Mundial. O senão, já se vê, é a ausência de legendas em inglês. Mas a exposição encontra-se extremamente bem cuidada, com pormenores deveras imaginativos, que ajudam à recriação mental de época. As peças foram selecionadas com grande rigor, conferindo elevado interesse à colecção patente ao público. Num espaço exterior encontram-se as locomotivas, para ali trazidas pelos carris, com datas que vão desde os inícios do século XX até à queda do regime comunista. Num outro corredor exterior encontram-se viaturas motorizadas, entre elas uma Opel Blitz alemã do tempo da guerra, que me deliciou. Pelo ingresso paguei cerca de €1,80, incluindo autorização para recolher imagens. O simpático senhor ainda me perguntou se eu era estudante, numa tentativa de me fazer poupar uns cêntimos, mas de facto…. em suma, uma visita recomendada a todos os visitantes da cidade!

A visita seguinte foi ao cemitério dos ilustres da sociedade eslovaca. Não o grande cemitério central, para o qual com grande pena não consegui arranjar tempo de visitar, mas este outro, discreto, escondido na colina, não muito longe do castelo, em que ninguém parece notar. O espaço é reduzido, tristonho, algo abandonado, apesar de mesmo assim me ter encontrado com algumas pessoas enquanto por lá cirandava. As cores de Outono, apesar de o verão ter oficialmente terminado apenas ontem, já se fazem sentir. Há folhas douradas espalhadas pelo chão. E vou observando as campas, algumas, verdadeiramente notável, ainda em alemão, dos tempos em que os austríacos mandavam por estas paragens. Entre as mais simples e as mais ricas, vai uma diferença abissal. Algumas são verdadeiros monumentos per se, e, claro, chamam mais a atenção do visitantes. Mas na modéstia de outras esconde-se uma estética que se confunde já com a natureza envolvente, que por ali existiria mesmo no caso do homo sapiens nunca ter sido criado ou evoluído. As heras cobrem algumas lápides, e o verde alterna com os tons outonais, na palete de cores que regulamenta a percepção visual do espaço.

Estava uma bela tarde de Sábado, e os bratislavos, cientes de que os ternos dias de sol se estão a acabar por agora, parecem querê-la aproveitar até à última migalha. As pessoas andam pelas ruas, e tudo aquilo me traz à recordação os Sábados de antigamente na minha Lisboa, num ambiente que pensava ser único mas que vim aqui reencontrar. Por palavras, não o sei explicar. Mas senti-me a viajar no tempo. Os namorados encontram-se, com ansiedade mal contida. As famílias aproveitam estes momentos em que podem estar reunidas. E todos se movimentam, em direcção ao seu local de eleição. É embebido neste espírito que vou até ao novo Teatro Nacional, uma estrutura moderna que se ergue na margem do Danúbio. Atravesso a ponte Apollo, a terceira da cidade. Depois, encontro-me com o Saki, que ficou a dormir. São quatro da tarde. Passeamos juntos pela área ribeirinha, onde se encontram algumas esplanadas, e que é fronteira com as ruas marginais da baixa. Sentamo-nos na esplanada do Slang Bar, localizada numa das zonas nobres da cidade, uma alameda que une duas partes do seu centro. Como uma deliciosa salada mista, com uma selecção incrível de vegetais e um têmpero cuidado, regada com uma bela cerveja. Dali, ainda passeamos um pouco mais. Passamos na praça principal, onde uma banda toca, num preâmbulo para o espectáculo da noite. Já está escuro mas andamos de autocarro, vamos a áreas periféricas da cidade, onde me encontro completamente perdido. O Saki mostra-me casualmente a central de camionagem, que, conta-me, ficará para sempre nas suas memórias, dos tempos doces em que vinha aqui esperar estudantes que precisavam de abrigo. Uma espécie de couchsurfing, na qual ele tinha um papel activo. É curioso ver esta face da cidade. Nocturna, urbana, mais crua.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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