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Budapeste. 28 de Abril. Dia 3.

Antes de mais, uma nota retrospectiva, um cheirinho do passado recente. Ontem à noite, saimos às ruas. Sexta-feira, um cheiro especial no ar, de gente que se movimenta com a descontracção que só uma véspera de fim-de-semana permite. Da varanda, sentia-se esse aroma, que nada é, mas mesmo assim está lá, como um chamamento, que clama baixinho: “-venham, venham também, só faltam vocês”. E fomos. De novo, a incontornável Váci utca. Nem é por ser o máximo da moda, aqui em Budapeste. É que está mesmo aqui à mão de semear, na cabeceira da “nossa” Regisposta utca. E que bem soube. A noite estava amena, um verdadeiro serão de Primavera segundo os nossos lusitanos padrões. Descemos a Váci até onde não tinhamos ido antes. Explorámo-la em toda a sua extensão, e por todo o lado, esplanadas e restaurantes, num balanço perfeito que pode ser descrito como “nem às moscas, nem demasiados cheios”. Vimos montras, especialmente de livrarias. Pelo caminho descobrimos que mesmo aqui, na zona nobre da capital, se podem tomar refeições a preços mais razoáveis do que até então nos tinha sido mostrado. Aconselho a loja Subway! Pessoal profissional, com um bom inglês. E aqui, quem decide o que a sandocas leva, somos nós, finalmente emancipados da tirania das receitas rígidas que a ditadura da baguete portuguesa nos impõe. Soube-me mesmo bem! Na volta de regresso ainda houve tempo e vontade para uma paragem num pub a que já andávamos a piscar o olho, aqui mesmo na esquina, a vinte metros da nossa porta. Um momento agradável.

Mas vamos lá ao dia 3. Saimos para o metro. O destino são as ilhas do Danúbio, na zona sul de Budapesta. Andamos, palmilhamos muito. No fim do dia, terão sido cerca de 15 km. Atravessamos pontes, conhecemos zonas de lazer. É aqui que o habitante local passa os seus fins-de-semana solarengos. E de que maneira. Aquilo são famílias inteiras, não na sua forma nuclear, mas antes à maneira antiga, compostas. São grupos de dezenas de indíviduos. O auge foi encontrado já no auge da caminhada: umas quarenta pessoas estavam juntas, em pequenos grupos. Ali, jogava-se xadrez, freesbee, ping-pong, matraquilhos, cartas e, provavelmente, mais coisas, que as regras da boa-educação nos impediram de captar nos olhares discretos que lhes fomos deitando enquanto passávamos ao largo. Houve ainda tempo para ver umas senhoras mais velhas em simples cavaqueira, e um “avôzinho” apenas a tomar um belo banho de sol. Aliás, como saberão, a Hungria é um país interior, não é banhado por nenhum oceano, e, que eu saiba, nem um mar a sério chega aqui. À parte do Danúbio e restantes rios, apenas uns quantos lagos permitem umas banhocas no sufoco do Verão. Por isso, as gentes habituaram-se a oferecer à relva mal amanhada destes parques o papel que nós atribuimos ao binómio areia-mar, lá na nossa terra.  E isto resulta em cenas que nos resultam estranhas: como aquilo que em masculinês se poderá chamar de “uma gaja mesmo boa” estendida sobre uma toalha, com um reduzido fio dental e em topless. Agora imaginem. Irem a Monsanto ver os esquilos ou o que mais vos interessar por lá e depararem-se com uma visão destas.

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Mas o que interessa, brincadeiras à parte, é a postura social que por aqui ainda não se perdeu. A família é uma instituição, e é para ser levada a sério. Em determinado momento, observamos um gorducho de vastas proporções que avança por um caminho, em gelatinoso tronco nu e calções, emitindo estridentes assobios a cada dois passos. Não o levamos a sério. Talvez fosse um maluquinho, com aquele ar meio “hooligan”. Mas não. A certa altura, vimos que o assobio é correspondido com um bradar de vozes e chamamentos. Parece que a personagem se estava a fazer anunciar à respectiva família. E quando o assobio foi identificado, recebeu uma ovação a sério. Enfim, atitudes que já tinhamos identificado nas comunidades de Leste que temos entre nós, lá nos Algarves, que para o nosso povo, na generalidade, foram já enterradas na arca do passado há demasiado tempo. Um lembrete importante, sobre a perniciosidade do chamado “desenvolvimento” e dos ritmos da vida moderna, associados inevitavelmente ao bem-amado poder de compra que todos parecem perseguir tão afanosamente.

Assistimos a outras cenas emocionantes: uma congregação juvenil recebe uma estranha missa de um padre católico; talvez fossem escuteiros, ali reunidos, mas eram muitos… e cantavam bem! Mais à frente, parece tratar-se de um “meeting” de uma qualquer associação de amigos dos cães, reunidos num grupo numeroso de bípedes e canídeos, envolvidos numa estranha dança conjunta que levantava densa nuvem de poeira, que nos envolveu num turbilhão enquanto aquela animalada passava por nós, obviamente num estado de felicidade desejável a todos.

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Estas andanças mostram-nos outros aspectos de Budapeste. Especialmente impressionantes são os enormes complexos fabris em estado de abandono, desactivados depois de o seu coração não ter aguentado a separação do “pacemaker” soviético. Com a ruina do Bloco de Leste, o mercado russo fechou-se aqueles produtos, e as unidades de produção enfrentaram um processo doloroso de reconversão a que muitas não sobreviveram. E essas, têm os seus cadáveres expostos por estas paragens, entre ilhas e margens do Danúbio.

Visitamos o Acquicum, um impressionante mundo romano em ruínas, transformado em parque e museu; alegadamente será o maior vestígio daquela civilização existente numa capital europeia. Seja como for, é enorme. Ao contrário do respectivo museu, reduzido a três pequenas salas, supervisionadas pela incontornável múmia museológica. Ficámos por ali, a apreciar a calma desta bela tarde solarenga. E que quente estava! De tal forma o sol aquecia, que escolhemos a sombra farta das grandes árvores para repousar uns momentos, encostados ao vigoroso tronco.

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 Depois, já na rota de regresso, parámos ainda em Óbuda, quase por mero acaso, a tempo de descobrir um cantinho maravilhoso, pautado por ricos canteiros repletos de violetas e uma estatuária muito própria. Por perto, a praça central do bairro, com interessantes edíficios, identificados apenas por dizeres em húngaro, uma espécie de código indecifrável.

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Por esta altura todos os nossos membros inferiores exigiam uma paragem; assim, regressámos num cocktail de transportes públicos: eléctrico, metro… mudança de metro, e aqui estamos nós, a meros quatrocentos metros do merecido repouso. Isto apesar do desvio que ainda se fez para chegar até à Subway que na véspera nos tinha conquistado. Alimentos são necessários.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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