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Budapeste. 29 de Abril. Dia 4.

Ontem estava eu descansadinho no apartamento quando me foram desinquietar para uma volta nocturna. Muito bem, seja. Ouvi falar em fantástica iluminação da cidade, num ambiente cheio de vida, em ruas repletas de gente. E assim era. Confirmo. Foi-se andando ao longo do rio, até uma das pontes. De todas elas, logo aquela tinha que estar interrompida naquela noite. Nunca saberemos porquê. No tabuleiro, pessoas bem aprumadas movimentavam-se, tirando fotografias a algo indescriminado. Mas o mistério maior era constituido pela coluna de camiões de transporte de granel que pareciam aguardar um sinal secreto para se pôr em movimento. Isto, numa ponte onde os sinais de trânsito deixam bem claro que a circulação de pesados se encontra interdita. Após uns quantos minutos de expectativa, já mais curiosos com o aparato do que propriamente interessados na nossa própria travessia, acabámos por desistir. Entretanto, fomos interpelados por uns quantos húngaros. Isto é gente que tem o estranho hábito de se dirigir a uma pessoa e começar logo a discursar, sem boas-noites nem mais nada. É dizer o que há a dizer. Despejar aquilo tudo. E depois, no fim, logo se verá se o interlocutor recebeu ou não a mensagem. Seja como for, apesar dos banhos Géllert que tão bem parecidos surgem de noite terem que esperar pelo dia seguinte para uma vista, a expedição tardia foi deveras agradável.

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Quarto dia de manhã. Já é tarde. Quase 11 horas. Mas é Domingo, a cidade deve estar a abarrotar de turistas, esses invasores que arruinam o encanto de qualquer urbe. Saimos para um percurso algo incaracterístico. Em vez de procurarmos uma zona para exploração aprofundada, vamos ao encontro de pontos isolados. Queremos ver o imponente edíficio do Parlamento da margem oposta, de Buda, portanto. A avenida marginal está agitada. Há provas de ciclismo, para todas as idades. Mais tarde, na volta, as bicicletas já estão arrumadas, e é o atletismo que reina naquele pedaço de Budapeste, onde os mais novos e os mais velhos ombreiam numa comemoração dominical dedicada ao desporto de massas.

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Depois de obtidas a visão pretendida, subimos um pouco, pela colina acima. Vamos ao local sagrado do túmulo do derviche otomano Gül Baba (Século XVI). A entrada no recinto é paga, o que nos parece injusto. Espreitamos por fora, e simpatizamos com a esplanada adjacente. Ali, tomo uma Fanta de laranja e como uma excelente tosta repleta de queijo, fiambre e saborosos pedaços de ananás. Após o repasto prosseguimos na nossa demanda de vestígios da ocupação turca da cidade. Vamos encontrar seguidamente um bizarro edíficio de cuja história não conseguimos encontrar detalhes, mas que se encontra num estado de abandono incrível, quase à beira da derrocada. É por esta altura que, por mero acaso, tropeçamos no esplêndido estabelecimento de banhos Lukács, com o actual complexo datado de 1894, apesar de naquele local já existir actividade termal no período de ocupação islâmica. Para terminar esta incursão, visitamos ainda os velhos banhos turcos de Ganz Utca, construidos a partir de 1565.

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Já no regresso passamos junto ao Parlamento, cuja perspectiva à distância é agora reforçada por uma observação de detalhe. Devido aos violentos levantamentos populares de Outubro de 2006, a polícia mantém uma vedação que não permite a circulação de peões junto ao edíficio. Temos que nos contentar com uma certa distância, enquanto nos encaminhamos para a paragem de eléctricos que do outro lado da praça nos colocará nas proximidades do próximo destino: os banhos Géllert, aqueles que na véspera admirámos à noite, com os contornos reforçados por uma fantástica iluminação.

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Mesmo defronte do complexo que actualmente inclui os banhos e um luxuoso hotel, uma curiosa capela (1926) surge instalada em grutas bem iluminadas, bem enterrada na face da colina Géllert. Toda a área está repleta de pessoas que passeiam no seu Domingo. Há vendedores de rua, e os habitantes da cidade ocupam todos aqueles trilhos da encosta. Nota-se que se trata de um destino extremamente popular, com os locais a fazerem notar a completa ausência de turistas estrangeiros.

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Para acabar o dia, apanhámos um eléctrico e seguimos até ao final da linha. Ali, espreitámos o labirinto esculpido em arbustos que se encontra junto ao novo Teatro Nacional, um moderno complexo a fazer lembrar, pela funcionalidade, o nosso Centro Cultural de Belém. Depois, encontrámos o que procurávamos: o hipermercado TESCO! Finalmente! Preços baixos! E casas de banho repletas de perigos… passo a explicar: chegados ao edíficio, precisámos de aliviar as respectivas bexigas. Mas aquilo que supunhamos ser os sanitários não tinham símbolos. Apenas palavras em húngaro. Coisa complicada de escolher. Por fim, uma local entrou numa das portas. Mas parece que também ela estava enganada, porque depois de uma incursão rápida a outra das entradas, que se revelou o “quartinho” para deficientes motores, encontro finalmente o almejado urinol naquela que seria supostamente a casa-de-banho das senhoras. Bem, mas valeu a pena, porque de seguida abastecemo-nos regiamente. Carregadinhos como mouros seguimos com um sorriso pateta no eléctrico de volta ao apartamento, onde pelas 19:30 o nosso anfitrião Martin e a sua senhora, Gabi, nos iriam recolher para uma visita nocturna ao topo da colina Géllert. E assim foi. De facto não nos desiludiu. Se há coisa que em Budapeste se faz magistralmente é trabalhar a iluminação para realçar a beleza dos seus monumentos. A vista dali de cima, a esta hora, é uma coisa deslumbrante. De tal forma que ficámos à conversa, distraidos, sobre isto e aquilo, até sentirmos a necessidade de nos movimentarmos. A noite acabou numa esplanada, junto à casa do Martin e da Gabi, onde a cerveja de origem alemã era barata e sabia diabolicamente bem. O regresso foi a pé, num estado já muito alegre, um retoque perfeito para anestesiar o esforço de uma caminhada no fim de um dia pejado de esforço físico.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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