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Cáucaso, Stepansminda, 23 de Maio de 2010

 

Nestas paragens o acordar é naturalmente cedo. E o pequeno-almoço escandalosamente farto. À mesa, tal como ontem, ouvimos uns bizarros ruídos, vindos de parte incerta, talvez de debaixo do soalho ou de trás da cama. Quem viu o clássico “Gremlins” no cinema lembrar-se-á do tagarelar do “Gizmo”, logo no início do filme. Era uma coisa assim do género. Um som de criatura viva, mas diferente de tudo. O nosso anfitrião compreendeu a curiosidade, riu-se, repetiu uma palavra múltiplas vezes… mas nunca conseguimos compreender a fonte daquele som intrigante.

 


 

Naquele silêncio mudo entre pessoas que não partilham uma linguagem nem nenhuma outra que se assemelhe, ficou entendido que iríamos dar uma volta de carro, e que o percurso ficaria ao critério do velho Cesar. Nessa manhã vimos uma Georgia rural, distante, isolada.  A vida é marcada pela montanha, a omnipresente montanha, que tudo envolve. Nas suas escarpas, as vacas, feitas aqui cabras, pastam, em declives tão acentuados que custa a acreditar como aqueles animais por ali andam, à solta. O degelo faz-se sentir, com os abundantes cursos de água repletos de um caudal vivo, que desce das zonas mais elevadas, em blocos de gelo que vão perdendo a solidez com o tempo e com a chegada a cotas mais baixas. As casas são pobres, tão pobres e tristes. O cinzento domina estas paragens. O cinzento e a lama. Mas há também o verde da vegetação viçosa, bem alimentada por toda aquela água e humidade.

 

 

Aqui e ali quisemos parar, para fotografar. O nosso condutor, paciente, obedece a estes desejos com prontidão. Numa aldeia avistamos uma torre defensiva, o que me enche de alegria, porque pensava que estes interessantes baluartes estariam confinadas a terras de Svaneti, a região mais remota da Georgia à qual não se chega senão após vários dias de viagem e isto se as condições climatéricas o permitirem de todo.

 


 

Os carros que avistamos são quase todos velhos Lada todo-o-terreno, que enxameiam estas paragens. Há animais por todo o lado: cães e cabras, burros e vacas, cavalos e ovelhas, galinhas e coelhos. Quase todos à solta, sem vigilantes, circulando despreocupadamente por entre as casas. O Cesar chega ao ponto que claramente queria, depois de parar numa igreja para se consultar (pensamos nós) sobre o estado da estrada. Pára o carro e mostra-nos a paisagem com orgulho. Ele tem razão. Daquele local obtém-se uma fotografia digna de um postal. A montanha está ali ao seu melhor. E agora, onde ir? Insistimos em seguir por aquela estrada, que se esgueira por um vale. O velhote encolhe os ombros e prossegue. Estamos fascinados com a paisagem que nos rodeia, mas o Cesar começa a dar sinais de algum nervosismo, que apenas mais tarde compreendo. Que para ali não há nada, que não vale a pena, parece ele dizer-nos através de linguagem corporal. Mas o respeito pelos convidados fala mais alto e avança, até que não há mais para onde ir.

 

 

Chegamos a uma aldeia fronteiriça. No meio das casas avista-se uma bandeira da Geórgia. De início pensamos ser apenas um habitante mais patriota. Mas não. Observamos mais um pouco e vimos homens de farda verde atarefando-se entre a casa e um jeep civil estacionado à porta. Este, ao contrário dos Lada, é um moderno exemplar de fabrico ocidental. Ficamos por ali um pouco a fotografar, com algum cuidado para não apontar para a zona do posto de fronteira. Entretanto, os militares acabam a sua tarefa, entram na viatura e descem a estrada, cruzando-se conosco. O velho Cesar e os ocupantes conversam durante algum tempo, num tom amigável e familiar. Mas quando eles partem, o homem está tenso e quer sair dali imediatamente. É compreensível. Se os russos atacarem de novo, este logo será o primeiro a ser atingido. Estrangeiros e câmaras fotográficas será a última coisa que querem por ali, e mesmo assim não há ponta de hostilidade. Seguimos atrás do jipe deles, não por obrigação, mas por coincidência. Na rádio, continua a música local. Como se pode ver e ouvir no video que se segue:

 

Antes de concluir o passeio, vamos ainda até Sioni, uma aldeia um pouco maior que Stepansminda, para além desta, em direcção a Tiblissi. O Clabbe entra na igreja local, para ser expulso pelo padre pouco depois. Só porque é turista. O que compreendo, mas deixa o meu companheiro de viagem bastante irritado. Estávamos por ali, a fotografar, quando se aproxima um helicóptero, que sobrevoa a zona várias vezes, antes de se afastar. Aparentemente é o aparelho presidencial. Será que Saakashvili esteve assim tão perto de nós?

 

 

Chegados a casa, aguarda-nos o almoço que, para meu desespero, não é mais do que os restos das refeições anteriores reforçado com, “maravilha das maravilhas”, os tais bolinhos de massa que fica branca depois de cozinhada e que a mera visão me dá a volta ao estômago. Tenho que trabalhar muito para me esquivar a eles durante a refeição, mas ao contrário do Clabbe e suas vâs tentativas de evitar os “shots” de chacha, consigo mesmo sobreviver ao almoço sem ser atingido por uma daquelas bolas de cheiro enjoativo e aspecto repelente.

 

 

Vai chegando a hora da partida. A meio da tarde uma “marshrutka” partirá de Stepansminda, e o nossos anfitriões já tomaram as medidas necessárias para que o transporte pare para nós, ali mesmo à porta. Refeição terminada, arrumamos as nossas coisas e chega o momento de lidar com dinheiro. Sem um preço previamente determinado, hesitamos na quantia a dar. Foi-nos sugerido pelo sobrinho os tais 35 Eur mas estou incomodado com duas coisas: com a comida sucessivamente requentada e com o despejo do quarto a que fui submetido. A casa não ter sanita mas sim o precário buraco no chão, no exterior, também não valoriza muito a experiência, do ponto de vista financeiro. Mas pronto, divertimo-nos imenso e decidimos deixar exactamente a quantia indicada. Só que o velho Cesar não parece satisfeito quando lhe pomos as notas na mão. O pobre homem não tem cara para dizer nada, mas sentimos que algo está errado. Olha para o dinheiro… devolve-nos, diz que essas coisas são com a mulher. Já sabemos que vão haver problemas. A mulher não tem feito outra coisa que “xingar” o nosso amigo Cesar desde que chegámos. Talvez não esteja satisfeita por estarmos a usar o belo jipe japonês que o filho, emigrado, deixou à sua guarda. E a verdade é que quando olha para a quantia que lhe estendemos começa a armar um escândalo. A cultura local é ainda mais forte que o seu enorme mau génio. Não se nos dirige, mas o velhote leva com a borrasca toda. Quem a veja e ouça pensará que está em causa todo o orçamento familiar para 2010, ou que nos escapulimos sem pagar depois de vandalizar a casa. A situação torna-se muito desagradável. Pedimos para telefonar ao sobrinho. O Clabbe fala com ele. Primeiro sugere-nos que paguemos os 100 Eur que o casal nos pede. Depois, acaba por ceder às nossas razões, fala com os tios e está o caso arrumado. Recebem a quantia que tínhamos preparado. Ela, não pára de se lamuriar. O homem, vê-se, não tem qualquer hostilidade em relação a nós, parece envergonhado até. Encolhe os ombros, espera conosco lá fora pelo transporte. Pesaroso. Foi um fim triste para uma jornada tão empolgante, mas, que diacho, 100 Eur, neste ermo, por hospitalidade sem impostos, sem casa de banho, com comida requentada e, no que me toca,  a dormir no chão? Credo mulher, mas porque choras tu?!

 

 

Mais tarde expomos o caso ao Dan. Receamos ter-lhe criado um problema “diplomático”. Mas depois de também ele ter falado com o georgiano da embaixada, ele garante-nos que não, pelo contrário, também eles lamentam o que sucedeu, não temos nada de que pedir desculpa. É que, mesmo que quiséssemos ceder, não tínhamos aquele dinheiro em nosso poder.

Uma “marshrutka” é uma criação demoníaca: uma carrinha apetrechada para funcionar como um transporte público, onde cerca de quinze pessoas viajam em condições precárias, muitas vezes conduzidas por um louco. É o meio de transporte mais popular nas áreas da ex União Soviética e na Europa do Leste, não só para longas distâncias como para pequenas deslocações. E para hoje, entre outras atracções, tive um pastor a viajar sentado no “corredor”, em cima de um caixote. A meio do percurso, chegou ao seu destino: a “marshrutka” detém-se no meio de nenhures, ele sai, e logo ali está com os seus amigos e rebanhos. Olho para trás, e mesmo antes de chegarmos à próxima curva, já ele começou a trabalhar, queijado na mão.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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