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Cáucaso, Yerevan, 27 de Maio de 2010

 

Último acordar em Yerevan, e, de certa forma, derradeiro dia desta viagem: amanhã será apenas trânsito – daqui para Tibilissi, de lá para Riga… depois para Berlim, e finalmente para Praga. Uma longa maratona sem pausas. Mas para já, é a história de Yerevan que conto. Na véspera, depois de me aconselhar sobre as opções com os anfitriões, decidi-me a visitar a “fortaleza”. Hesitei um pouco, porque não há transportes públicos até lá. Terei que andar, e fazê-lo sem grandes informações. Uma vista de olhos no mapa diz-me que deverei apanhar o metro até à estação mais próxima, já na periferia da cidade, e depois caminhar. Tentei memorizar o percurso a pé, mas, como se verá adiante, sem grande sucesso.

 

 

Sai de casa para o ar fresco da manhã. Era ainda cedo, o céu estava azul, e as temperaturas certamente subiriam produzindo outro dia com excelentes condições climatéricas. Andei pelas ruas, seguindo as indicações que o Jarred me tinha dado, para chegar ao metro mais próximo. Quando finalmente cheguei à praça onde se encontrava a estação percebi que tinha ido dar uma enorme volta circular, mas não o lamentei, bem pelo contrário: foi interessante observar a rotina matinal daquela parte da cidade. As portas dos prédios que se abrem para deixar sair os apressados cidadãos que se dirigem para o trabalho. As crianças que é preciso levar à escola, o autocarro que espera por um último passageiro, que, apressado, corre na sua direcção. O homem do quiosque dispunha os jornais da manhã pela bancada, numa pastelaria as pessoas tomavam o breve pequeno-almoço.

 


 

Os percursos de metro em Yerevan foram atribulados. O mesmo problema que em Tibilissi: o alfabeto desconhecido, e desta vez nem um mapa de mão para ajudar a identificar as estações. Tal como na Geórgia, cada estação de metro tem uma ou duas cabines com uma funcionária uniformizada, cujas funções são apenas zelar pelo normal comportamento dos passageiros e dar uma ajuda caso algo corra mal. Dirigi-me a uma e pedi-lhe ajuda. Deu-me as indicações, só que ao contrário… acabei por entrar na composição que se dirigia para o lado oposto. Um mal-entendido, pensei eu. E com essa conclusão me ficaria se não se tivesse dado o espantoso caso de, muitas horas mais tarde, no caminho de regresso, ter perguntado de novo à mesma funcionária, que, mais uma vez, me enviou no caminho errado. A senhorita gosta de brincar com turistas, gosta sim senhora.

 


 

Enfim, cheguei à minha estação. Sabia que era um ponto de transição entre a rede de caminhos-de-ferro e o metro. Mas não estava preparado para a surpresa que constituiu um dos pontos altos, não só do dia como da visita a Yerevan: a estação de comboios era um autêntico museu dos tempos soviéticos. Um edifício de arquitectura complexa, repleta de ícones comunistas, com especial destaque para a estrela que se erguia lá no alto. A luz do céu contribuía para realçar aquela visão inesperada. Em frente, uma pequena rotunda onde se encontravam parqueadas relíquias das décadas de 60 e 70 contribuía para a atmosfera revivalista que envolvia o local. No centro, uma estátua gloriosa, um pequeno parque com bancos, onde se sentava uma mãe que zelava pelas suas crianças que brincavam nas imediações e vários idosos.

 

 

Demorei um bom bocado a fotografar tudo aquilo e a gozar o ambiente, até que me decidi pôr os pés ao caminho que se adivinhava longo e árduo. O calor começava a apertar e só tinha uma ideia vaga da direcção a tomar. Comecei por subir a avenida que se estendia literalmente a perder de vista, a partir da estação. Depois do bulício das primeiras centenas de metros, com paragens de autocarros, edifícios altos e comércio, entrei numa zona mais calma, de prédios baixos e lojas espaçadas. Já não se via ninguém por ali, e quando finalmente cheguei ao fim, olhei em redor. Tratando-se o meu objectivo de uma fortaleza erigida num alto, tinha tido a esperança de manter contacto visual com o local desde o início da caminhada. Mas nada. Vi um “cyber café” e pensei cá para mim que se havia gente que compreendesse inglês seriam as pessoas dos computadores. Entrei, perguntei ao funcionário se falava inglês. Um pouco. Mas não entendeu muito do que lhe perguntei, que não era especialmente complicado. Mas não há problema. O rapaz levanta-se, e, tal professor dirigindo-se à turma, evoca a ajuda de qualquer voluntário que se encontrasse entre os 10 ou 15 clientes sentados aos computadores. Ora o que ele foi fazer… instantaneamente tinha uns 6 ajudantes de volta de mim, cada qual competindo pelo fornecimento das indicações mais detalhadas. Fez-me lembrar um certo “sketch” dos Gato Fedorento, agradeci, e esgueirei-me dali para fora antes que a disputa pela ajuda ao estrangeiro aquecesse.

 


 

Dali para a frente já não teve como enganar. As direcções dadas eram boas e encontrei o acesso à “fortaleza” depois de andar mais uns quilómetros. Em baixo, um cenário pictoresco. Uma série de viaturas muito velhinhas alinhadas no asfalto, e um “trolley” que passava. Uma escultura de influência mesopotâmica. Um vendedor de rua. E as escadas lá para cima, que afinal era o que eu procurava desde há muito.

Subir até ao topo custou uns decilitros de suor. Para baixo, duas turistas anglo-saxónicas. Ao lado, uma pequena equipa de jardineiros trabalhava num matagal que não tinha nada de jardim. E nisto estou lá em cima. A fortaleza, de fortaleza já não tem nada. São uma série de muros baixos, semi-devastados, semi-enterrados. Mas as vistas são de suster a respiração. De um lado, a cidade já desapareceu e é apenas o campo que se estende a perder de vista. Do outro lado, o Ararat, coberto de neve e gelo até meia encosta. E o resto é Yerevan, aos pés.

 


 

Explorei as ruínas. Uma avozinha arménia de classe sócio-económica elevada mostrava o local ao neto. Um par de namorados andava por ali. E uma equipa de arqueólogos procedia a algumas escavações. No que resta de um dos edifícios principais existem ainda alguns frescos, expostos aos elementos e aos vândalos, que começaram a atacar o local. Visitado o local, é tempo de fazer o caminho inverso.

 

 

Decidi tomar uma rota ligeiramente diferente, e agora que já estou enquadrado posso usar o GPS de mão para me manter orientado. Foi um passeio fértil, que me permitiu observar o pulsar da vida real, fora do centro fervilhante de Yerevan. Apreciei cada passo da longa caminhada, mesmo com o calor a torturar e a sede a apertar. Vi velhotas que regressavam de um qualquer mercado, cesta a abarrotar de mantimentos. E lojinhas especializadas que vendiam o seu produto a quem chegava, provavelmente de longe. Já a aproximar-me da estação, o padrão urbano revela ser o lar para uma parcela da classe média da cidade. Vê-se pelos estendais, pelos modos e aspecto as pessoas na rua. E lá em cima, no céu, evoluem aviões de guerra, em exercícios. Uma parelha de Mig, 29 ou 31, são dois pontos que a minha lente zoom vai buscar. Para um país pobre, gasta-se ali bom dinheiro, em horas de vôo para aqueles pilotos.

 

 

Com a sede a apertar cada vez mais, sonho com uma bebida fresca, que sei poder obter na estação de comboios que tanto me cativou. Chego, dou uma vista de olhos e descubro um pequeno paraíso: numa das alas, um enorme pátio cheio de árvores e uma esplanada quase vazia. É ali mesmo!

 

 

Largo os meus bens numa mesa e sento-me com infinito prazer. Descanso para o corpo, sombra, a perspectiva de uma coca-cola geladinha e a possibilidade de observar mais um pedaço do quotidiano destas paragens. Na altura escrevi um pequeno texto,  mesmo ali, no netbook que levava comigo, que não resisto a colocar aqui (em inglês, como me saiu naquele dia):

 

After a 7 km walk under a torrid sun, crossing ghettos streets and uphill to the old fortress, I desperately need some liquid and it’s with joy that I reach the metro station. I am lucky enough to spot an esplanade in an inner pateo, featured with plenty of trees providing a refreshing shade. As I enter the space the waitress is leaving, carrying a tray packed with empty glasses and bottles. She smiles at me, I ask for a Coke. She asks, in English: “Big or small”. I would need a big multiplied by ten, but I just smile back: “Big, please”. I observe her for a while. She doesn’t have the best body around, but her face is beautiful, definitely with a touch of Persian blood. Apparently they ran out of stock of Coke. In some other place she would just inform me that there aren’t Cokes available, but she runs to a nearby shop and brings a couple. Two minutes after she’s back, with the same huge smile and proudly deposits a bottle and a glass full of ice on my table. Although the main shop is 30 meters from my table and there is no visual contact, she refuses to colect the payment immediately. And she runs away, gently shaking her hips, her long dark hair bouncing as the waves in the ocean. And I think to myself which dreams does she carries with her, for her future, for her tomorrow.

I get back to downtown and I show up by the tourism info center. A girl smiles, again. She almost caught me, as she salutes me in Castillian. We have a long chat. Apparently I just fullfilled the yearly quota for Portuguese visitors: one. She would love to learn my language as she is enchanted by the sound of Portuguese. She’s curious how did I ended up visiting Armenia, “such a small country”. I go away with all the informations I needed.

 


 

 

O texto revela parte do que se passou a seguir. Depois de passar um bom bocado naquele cantinho do paraíso, apanho o metro de volta ao centro, e vagueio por lá, revendo ruas e cantos que já tinha explorado na companhia do Clabbe. Sinto que já estou de contas feitas com Yerevan. Faço tempo para um encontro que tenho, para o final da tarde: frustrado com a incapacidade dos meus anfitriões de me colocarem em contacto com a realidade local, tinha contactado um couchsurfer arménio, um tipo que me pareceu mais interessante, e perguntei-lhe se não teria tempo para conversar um bocado. Aceitou.

 

 

Como estou adiantado para o encontro com o Artyom, ando de um lado para o outro na praça central. Combinámos num café ali ao pé, de forma que estou à vontade com o tempo, que controlo perfeitamente. Observo os infinitos detalhes humanos que me rodeiam. As pessoas cruzam a área sem se aperceberem do meu interesse. Como começo a aborrecer-me e ainda falta um bom bocado, vou-me sentar na esplanada, onde encomendo uma cerveja e tiro o meu computador da mochila. Aquele revelou-se o meu ponto de Internet para os dias de Yerevan. É terrivelmente caro para os padrões arménios, com uma cerveja a custar cerca de 1 Euro, mas vale a pena. As pessoas que se sentam ali são bonitas e abastadas. É o local fino, o sítio a trazer a namorada que se quer impressionar, o enviado da casa mãe da companhia alemã, a secretária jovem.

Dali posso observar um cenário de que nunca me esquecerei: aquele final de tarde, quente mas não escaldante, e as pessoas que passeiam, com roupas frescas, sob uma luz alaranjada deliciosa. Há um cosmopolitanismo de outros tempos encerrado neste quadro, faz-me lembrar os serões de Vila Nova de Milfontes no início dos anos 80. Com a passagem das horas, as ruas e a praça enchem-se de gente, literalmente. Depois do trabalho, vem-se até aqui. Parece ser uma rotina, e com este tempo magnífico ninguém quer falhá-la.

 

 

E nisto chega o Artyom. Não se quer sentar ali, quer ir dar uma volta. Pago a cerveja e vamos. Este personagem proporcionou-me um dos melhores momentos da viagem. Tem pouco menos de 30 anos, vive com a mãe num apartamento ali no centro. Trabalha num banco, e é russo de nascença, arménio nos genes e na alma. Acima de tudo, é uma enciclopédia andante.  A conversa com ele é altamente interessante. Responde-me a todas as questões que se me formaram e para as quais os meus anfitriões não tiveram resposta. Explica-me num abrir de fechar de olhos a história de cada edíficio ali na praça central. Pergunto-lhe porque é que em Yerevan não existe uma zona antiga, noto-lhe que teria gostado de ver alguns prédios com história mas não avistei nenhum nestes dias. Ele responde-me que se é isso que eu quero, isso terei… que de facto não há muitos, mas que se se olhar onde se deve, eles se revelam. E assim foi. De rua em rua, aponta-me detalhes que me passaram despercebidos, e a seguir ao dedo erguido, sempre, a explicação detalhada, o reviver das histórias. Artyom leva-me por uma viagem no tempo em Yerevan. E por isso estar-lhe-ei para sempre grato.

 

 

Entramos por uma arcada. Ele diz que me vai mostrar um pedaço da vida privada da cidade. E assim é. Trata-se apenas de um exemplo, mas mostra-me um espaço interior, formado no interior dos blocos residenciais. Ali há uma micro-cidade, que serve os habitantes que a envolvem. Nestes espaços, abertos ao visitante mas sobretudo pertencentes à comunidade, as crianças brincam livremente no pequeno jardim, enquanto em redor existem bancas que vendem o essencial. Ele pergunta-me se gosto de coisas doces. Então não gosto!? Ora sendo assim vamos comer uns bolos, confeccionados na padaria do pátio. Olho para a montra e fico tonto! Que maravilha! Não sei o que escolher, quero provar todos, mas como falámos em ir jantar, sei que não me posso alastrar. Opto por um  “ecclair” a que se segue outro.  Depois, tenho que mandar embrulhar mais uma série deles. Simplesmente não consigo resistir, são divinalmente frescos e saboroso.s Nunca me esquecerei destes bolos e se um dia regressar a Yerevan será das primeiras coisas que procurarei reviver.

 

 

O Artyom pergunta-me como é que eu gostaria de ter o jantar. Eu peço-lhe apenas uma coisa: que me leva à tasca de bairro mais castiça de que se consiga lembrar. Ele, que claramente tinha em mente um ambiente mais requintado, não hesita um segundo e muda os seus quadrantes para se ajustar aos meus desejos. Acabamos por entrar numa loja onde apetitosos frangos estão a ser grelhados, muito douradinhos, suculentos. Na loja é só para levar, para comer é preciso atravessar a calçada e entrar numa pequena tenda, com messas de madeira em bruto e bancos corridos do mesmo material. Comemos duas espetadas de frango cada um, acompanhadas por pão arménio e batatas assadas na brasa, tudo regado com duas cervejas. Estava fenomenal! E custou cerca de 2,50 Eur a cada um.

Custou-me despedir do Artyom, gostaria de o voltar a ver, e espero que um dia isso venha a suceder. Mas tinha que recolher a casa. Apanhei um táxi. Por causa das tosses, levo o meu GPS ligado e vejo que o tipo está de facto a seguir a rota correcta. Mas ele está intrigado com o meu dispositivo, fica meio nervoso meio risonho quando percebe o que é. Se calhar sente-se controlado, não sei. Mas indico-lhe, ao metro, onde deve parar. Pago a quantia justa, segundo o indicado pelo Jarred. Cerca de 1,50 Eur.

Nessa noite despeço-me dos anfitriões. No dia seguinte, como eles vão trabalhar, já não os verei. Deverei apanhar um táxi para o terminar de “mashtruskas” a meio da manhã e a “baby-sitter” deles fará um telefonema para que eu seja recolhido à porta de casa. Excelente!

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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