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Coisas da Malária

malaria

Quando há uns meses preparava uma viagem a São Tomé e Princípe fui confrontado com uma decisão que não se afigurou simples: como lidar com a ameaça da malária naquele país? A resposta que muita gente tem na ponta da língua é: “Então, não tomas a vacina?”. Não, quanto mais não seja por um pequeno pormenor: não existe. Pelo menos por enquanto, mas já lá iremos. Portanto, vacina fora, fica a medicamentação para combater os sintomas da infecção. Basicamente, existem duas possibilidades: a barata e com consideráveis probabilidades de chatices colaterais e a cara com reduzidas hipóteses de se vir a ter efeitos secundários. Seja como for, uma e outra representam uma agressão ao nosso corpo.

Ora quando comecei a ler a lista, tipo testamento, dos potenciais problemas causados pela ingestão daqueles comprimidos (uns e outros, claro que mais no caso dos baratos), tive as primeiras dúvidas. Será que  quero arriscar-me a sofrer de um ou mais destes inconvenientes? Se um simples comprimido pode provocar esta treta toda, será que quero enfiar no meu organismo toda a toxicidade que transporta? As minhas preocupações intensificaram-se quando comecei a perguntar a pessoas conhecidas. Sim, muitas delas experimentaram efeitos secundários. Um amigo passou noites a alucinar durante o sono; outro, problemas digestivos que passavam por náuseas intensas. Hummm. Não sei se quero isto. Continuo a investigar. Consequências de contrair malária? Pelo que apurei, são alguns dias mal passados. Riscos sérios? Caso exista assistência imediata, reduzidos.

Entretanto coloquei a questão no meu Facebook… tomar ou não tomar? Uma amiga ficou quase histérica… perguntava ela como é que me podia cruzar a mente arriscar-me a morrer enfrentando sem protecção a perigosissima malária. E eu, que tinha estado a ler que a malária não era o bicho papão que todos julgamos fiquei a pensar nas certezas que adquirimos sem a informação devida.

Fui à consulta, que se antigamente se chamava de “medicina tropical” e agora é “consulta do viajante”, e a excelente médica – que já tinha passado anos a fio entre a Guiné e São Tomé e apanhado toda a doença que se pode apanhar incluindo uma mão cheia de malária – recomendou-me vivamente os comprimidos. Como a pessoa me inspirou uma tão grande confiança decidi que era um sinal do destino: experimentaria tomar, mas dos baratos, cobertos pelo SNS e custando um par de Euros. Os caros, Malarone de seu nome, valem nas farmácias cerca de 60 Eur e para duas semanas são precisas duas caixas. Fora de questão.

A coisa correu bem. O comprimido – apenas um por semana, o que logisticamente é excelente – foi tomado, e sentei-me à espera. Passado uma semana, ainda estava  tudo normal. Chegou o dia da partida e sentia-me bem. Tomei o segundo e os que se seguiram e nunca senti nada de estranho. Ainda bem, mas na realidade não teria precisado. Aparentemente (e digo aparentemente porque em casos extremos a malária chega e vai-se e pela acção do profiláctico o doente nem se apercebe do que aconteceu) não fui contaminado, apesar de sair de São Tomé com uma dúzia de picadas de mosquito. Aliás, ainda mal tinha posto os pés fora do avião, logo ali na placa, e já estava a encaixar uma picada. Pensei… “- Isto começa bem”. Mas não aconteceu nada e fiquei descansado.

De casa tinha trazido um poderoso repelente, escolhido depois de uma pesquisa intensa. Aliás, dois, de graduações distintas, no que toca à intensidade da prsença do activo DEET no preparado. Comprei-os, imagine-se, na Amazon: Repel 100 e Repel 55. Custam 7 a 8 Eur, dependendo da cotação da Libra. Quanto maior é o número, mais elevada é a presença de DEET. Em Portugal, o máximo que se encontrou à venda foi 25. Manifestamente curto para enfrentar as ameaças do mundo tropical, segundo os muitos conselhos de viajantes que li. A questão nem é tanto o nojo que o mosquito sente para se aproximar da nossa pele. É mais por quanto tempo ficamos protegidos. E para uma noite de sono o 25 seria impensável e mesmo o 55 era curto. Daí a compra dupla. A artilharia pesada para expedições a zonas onde a concentração de mosquitos é mais elevada e para aplicar antes de dormir. O 55 para pôr antes de ir jantar fora, na cidade. Levei um frasco de cada, e isso deu e sobrou (bastante) para cobrir as duas semanas de permanência.

repelente

Fica o viajante desde já advertido: estes sprays não são para brincadeiras. Uma gota em qualquer superfície plástica e o material começa a derreter. Cuidado com tablets, e-readers, portáteis, câmaras. Quando aplicava em casa, o chão em redor da cama tornava-se peganhento. Ora tudo isto não indica que dêem grande saúde à pele humana. Mas acho que valeu a pena.

Os outros cuidados a ter são de cartilha: muitos documentos aconselham a utilização de calças e mangas compridas. Não sei quem escreve isto, mas fico com a ideia que é gente que nunca colocou os pés num sítio com clima tropical. Não, não vou usar mangas compridas em São Tomé. Não se não me quiser sentir a cozer dentro de uma panela de pressão. E ainda para mais, não é preciso procurar muito até encontrar os relatos de quem foi picado através da camisa. Depois, há as “bocas”: que roupa clara desencoraja a aproximação de mosquitos; que há repelentes naturais (de eficiência questionável). Para a noite, a recomendação é unânime: dormir abrigado por uma rede mosquiteira, o que acho muito sensato, mas pessoalmente não consegui: sinto-me enclausurado, fechado, é horrível. Experimentei uma vez e foi a última.

Pessoalmente segui apenas estas políticas:

  • Aplicar repelente sempre, de forma contínua, criando uma barreira renovada. Das vezes que me esqueci ou não pude, paguei o preço: picadas.
  • Tomar o profiláctico mais económico, que se engole uma vez por semana. Não tive efeitos secundários. Se os tivesse tido teria parado o “tratamento” de imediato.
  • Andei sempre com a roupa que me apeteceu, geralmente calções e manga curta.
  • Não dormi com rede mosquiteira.

Ao longo das duas semanas que permaneci no país, conheci muita gente e por vezes a conversa derivou para os mosquitos e para a malária. Percebi que para o pessoal que lá vive ou passa tempo prolongado (pela sua natureza tóxica os profilácticos só se podem tomar por períodos de tempo relativamente curtos) a malária e os mosquitos são um problema quase banal, abordado da mesma forma que lidamos com as nossas gripes. Pode-se ficar doente, hospital, uns dias de sofrimento e sai-se de lá pronto para outra. Ninguém toma especial cuidado. Alguns dormem debaixo de redes mosquiteiras, outros não. Repelentes, só em condições especiais, junto a águas paradas ou ao entardecer quando esta bicharada está mais activa.

Tive a oportunidade de visitar a missão do Taiwan para o combate à malária e foi de facto muito interessante. Em parte devido ao seu trabalho a incidência da doença em São Tomé e Principe reduziu-se para níveis quase residuais, especialmente no que diz respeito a óbitos. Aprendi a reconhecer o mosquito que pode transmitir malária, pelo levantar da parte traseira enquanto pousado (como esse que se vê na imagem deste artigo). Vi mapas de ocorrência e apercebi-me de que existem zonas onde existem alguns riscos, mas na maioria do território não existem casos assinalados.

Agora, regressando à questão da vacina, li há poucos dias (ver a data deste artigo) que se registou um avanço significativo nas investigações para o desenvolvimento de uma vacina. Uma equipa universitária australiana experimentou a “vacina” em ratos, que se revelaram imunes a várias estirpes da malária. Pode ler o artigo aqui.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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18 comentários

  1. Antes de vir trabalhar para Angola passei pelo mesmo dilema, tomo ou não tomo o comprimido para a malária. Tal como tu fui a consulta do viajante e após a dita consulta tomei a decisão de fazer a profilaxia da malária até ao fim, 1 comprimido 1 semana antes de partir e depois 1 todas as semanas até perfazer 3 meses. Devo dizer que não senti qualquer efeito secundário e que agora ainda passados 2 meses de ter terminado de tomar ainda não tive qualquer sintoma de malária. Quer isto dizer que a profilaxia resultou? Não sei, mas acredito que sim. O meu conselho é que que for viajar para países tropicais, nomeadamente Africanos que deve fazer a profilaxia da malária até ao fim. Correr riscos para quê?

  2. Eu qd fui para Angola tambem fui aconselhado a tomar esses comprimidos.. mas depois de ler a lista de contra-indicacoes e de ter falado com um colega que se fartou de sofrer de alucinacoes e tendencias suicidas, decidi nao tomar.
    Posso dizer, com algum orgulho, que tive 3 anos em Angola e nunca tomei nada para a malaria.
    Quanto aos repelentes, usei algumas vezes qd saia a noite.
    E para dormir descansado o melhor é ligar o AC que com o frio as mosquitas nao se mexem.. escondem-se atras dos armarios.. 🙂
    Acho que é como tudo na vida, é preciso alguns cuidados e alguma sorte a mistura..

  3. Carlos Araújo

    Estou em Moçambique desde Setembro e até agora não apanhei malaria. Queria apenas informar que as opiniões dos médicos de mz especialistas na malaria desaconselham vivamente a toma dos comprimidos, porquê perguntam? No caso de apanharem malaria a mesma fica incoberta e nao detectável no exame picada no dedo e vao piorando os sintomas de dia para dia até q têm mesmo que ficar internados. O que fazer? Qd sentirem sintomas de gripe com febre de manhã e depois so a noite, nao devem tomar nada para a gripe e sim deslocarem se a uma unidade medica para fazer o teste da malaria. Se tiverem e como está no inicio sao medicados e podem nao necesditar de levar quinino. Por enquanto vou bebendo uns gins com agua tónica que tem quinino sabe bem e não da alucinações, quer dizer depende da quantidade. Abracos de Maputo

  4. Em Angola, pelo menos onde andei, havia AC em todo lado.. nos quartos, nos escritorios, e nas viaturas.. nao vou dizer que é a 100% mas 90% talvez.. esse mosquito Sao Tomense nao devia comer ha semanas!! Eheh..
    E um primo meu que esteve em mocambique ha poucos meses tambem esteve bem.. ate que chegou a Portugal e passado pouco tempo ficou doente, mas nao disse a ninguem no hospital que tinha estado em africa.. ia morrendo.. estavam a trata-lo para a gripe em vez da malaria..

  5. Fogo mas o teu primo deve ter um parafuso a menos. Acho que é do mais básico senso comum informar o pessoal clínico de uma estadia no exterior num caso desses. É uma das coisas que se lê em todo o lado quando se pesquisa o assunto, e de resto, é tão evidente…….

  6. Carmen Canoa

    Vou para STP no próximo mês de março (uma semana) e tenho consulta do viajante já marcada. Como vamos em grupo, uma das pessoas já foi à consulta e qual não é o nosso espanto veio de lá com uma lista infindável de vacinas… febre amarela, febre tifóide, hepatite A, hepatite B e ainda a recomendável profilaxia da malária. Sugeriram-lhe ainda um antibiótico de largo espectro e um colírio para os olhos…
    A mim parece-me que só farei a profilaxia da malária uma vez que tenho lido imensos relatos de pessoas que nem sequer esta fizeram. Não acha isto um exagero? Ah já agora, o seu blog é fantástico!

    • Carmen, não só é um exagero como num aspecto é simples e puramente errada: na questão da febre amarela. O que se passa é que se estiver a viajar de um país onde exista essa doença, tem que fazer prova de vacina ao entrar em STP. Claro que Portugal não é um desses casos. Já se fosse a partir do Brasil, então sim, seria obrigatório, por parte das autoridades de STP, apresentar essa vacina. Febre tifóide também nunca ouvi falar. Quanto às hepatites, está certo. Sobre a malária, agora que a cooperação com o Taiwan terminou, espere um crescimento da presença da malária em STP. Sobre os antibióticos, mal não fará como precaução. Note que também o apoio hospitalar do Taiwan desapareceu pelo que será mais dificil ter acesso a assistência médica e medicamentosa.

      • Patrícia Abrantes

        Boas. Qual o nome do medicamento que tomou para a profilaxia da malária? Fui à consulta do viajante e a médica prescreveu-me malarone. Para além de caro não está na lista dos indicados para o Kenya. Obrigada

    • Miguel Trevas

      Concordo plenamente com o Ricardo, e recomendo a profilaxia da malária, mal não faz, por alguma razão é recomendada, siga à risca as recomendações médicas (uma dica, tome os comprimidos sempre à hora de almoço, assim evita as prováveis insónias). Eu estive a trabalhar em África alguns anos e sou das pessoas que neste caso seguiu todas as recomendações médicas, como resultado nunca tive problemas com nenhumas das doenças que fala. E sim, tome também a vacina da febre tifóide, os surtos são frequentes em países Africanos.
      Em resumo… não custa prevenir a bem da nossa saúde.

  7. Ola, vou para Bali agora. Recomendaram-me as Malarone, mas achei um pouco exagerado. Quem já lá esteve, aconselha esta profilaxia ou a da Mefloquina será suficiente?

  8. Cristina lopes

    Olá. Vou a Moçambique (Maputo) e kruger park Ainda este mês durante uma semana e meia. Vou em trabalho, tomar ou não Malarone?

    • Oi Cristina, obrigado pela mensagem e pela confiança. Contudo, o espírito do meu artigo baseia-se no estímulo da auto-crítica, pretende despertar algumas questões nos leitores e questionar a inquestionabilidade da cartilha dos médicos da consulta do viajante. No fim, a escolha individual toca a cada individuo. Não tenho condições morais para dizer directamente a alguém o que acho que deva fazer quanto a este assunto 🙂

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