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Coreia do Norte e China. Dia 5. De Dandong para Pyongyang. Outubro de 2019

Que dia bizarro! O pequeno-almoço no hotel, dispensei. Como fiz em todas as noites que passei com direito à refeição da manhã. De facto acordar e comer uma refeição asiática não é algo que me faça sorrir. Nem para almoço, quanto mais para pequeno-almoço! Recorri às bolachinhas, pacotes de leite, Snickers e outros snacks trazidos para estas emergências.

Vamos então passar a fronteira. Excepcionalmente, e por causa das comemorações na China, não é permitido aos estrangeiros cruzar a ponte a bordo do comboio. Ninguém sabe bem porquê, mas é assim. Então teremos que cruzar o rio num autocarro e apanhar o comboio do lado da Coreia do Norte.

A fronteira é super simples. Ao contrário do que esperava, as formalidades são mínimas, o rigor é quase nulo. Sair da China é um sopro. Depois, toda a gente para um autocarro, partilhado com um pequeno grupo de turistas chineses. Entramos na Coreia do Norte e as coisas ainda são mais simples. Não há inspecção de bagagem, que passa num tapete, através da máquina do costume. Dizem que às vezes há uma ou outra verificação. Não com o nosso grupo.

Tratadas as formalidades de entrada no país, mais um pequeno percurso de autocarro, obrigatório, para vencer uma distância que seria ultrapassada a pé em poucos minutos. Para a estação ferroviária.

Nestes primeiros instantes na Coreia do Norte há aquele sentimento de “wow”. Então é isto. Estou aqui, finalmente. Nem posso acreditar. Acho que é algo comum a todos os elementos do grupo. Tudo parece estranho, atemorizador. Muito cuidadinho, ninguém quer dar passos em falso, irar as autoridades. Depois isso perde-se. A confiança ganha-se, percebe-se que não há papões e que para alguma coisa correr mesmo mal, a infracção tem de ser substancial.

Mas no início qualquer passo é dado a medo. Leva algum tempo a ganhar anticorpos contra a cultura do medo cultivada em todos nós pelos media, mesmo nos mais resistentes, nos que têm alguma compreensão do mecanismo destas coisas. E acho que estas palavras se aplicam, mais ou menos, a todos os elementos do grupo.

No curto trajecto do posto de fronteira para a estação de comboios as fotos estão interditas. Por razão misteriosa para mim e muita frustração porque há ali muito coisa interessante. Verdade que é o efeito “novidade”. E além disso, nesta viagem, como na última que fiz, estou a usar apenas telemóvel para as fotografias, e é um dispositivo que não se dá muito bem com disparos em movimento.

Tal como o Nic tinha explicado, na plataforma da estação de comboios há meninas impecavelmente uniformizadas que vendem bebidas e snacks. Especialmente cervejas. Especialmente porque é o que malta quer. O Nic passa-me à frente com as mãos cheias delas, e fico logo com uma. Antes da composição se pôr em marcha muitas garrafas passarão para as mãos dos ocidentais.

A carruagem está por nossa conta. Assim é que é: estrangeiros bem confinados. Vai ser uma viagem louca. Nem sei quantas horas. Talvez doze. Talvez mais. Saímos da fronteira a meio da manhã e chegámos a Pyongyang já ao final do serão.

Enquanto observava a paisagem com toda a atenção, todos os outros despachavam cerveja após cerveja. O avanço do comboio parecia trazer um paralelo misterioso com a embriaguez de quase toda a gente naquela carruagem. Tenho a impressão que de umas 35 pessoas, constituintes dos dois grupos da YPT, apenas eu e uma moça francesa ficámos de fora da bebedeira colectiva. Na posse de umas quantas frases básicas de coreano uns quantos cumprimentavam e despachavam mais umas palavras a cada alma que se cruzava com o comboio.

Entretanto eu abria muitos os olhos e absorvia tudo. A paisagem natural, os campos lavrados, as pessoas que apanhavam erva reunida em fachos. Passamos por aldeias, vejo cidades ao longe. E o amarelo, quase sempre dominante.

Há quem suspeite que as casas mais próximas da linha de comboio são uma manobra de marketing, excepcionalmente construídas e cuidadas para impressionar os passageiros. Não sei. A tarde foi amadurecendo e as cores quentes do sol que se aproxima da linha do horizonte tomaram conta da paisagem. Estava guardada para nós um espectacular pôr-de-sol.

Depois veio a escuridão, as janelas fecharam-se, o kindle saltou-me para as mãos e foi esperar pela chegada. De repente estamos a atravessar os subúrbios, passamos junto à imponente Torre Juche, que na escuridão ostenta uma decoração gloriosa, que vai rodando, e que naquele momento nos mostra a bandeira da Coreia do Norte em toda a sua extensão.

Chegamos à estação. Saímos todos. O comboio não levava muita gente e os passageiros escoam-se para fora do terminal bastante rapidamente. Lá fora o nosso autocarro. Conhecemos nesse momento os nossos guias norte-coreanos. Na realidade, um deles, um rapaz tímido que parece ser o ajudante, já tinha embarcado no comboio na fronteira. A guia principal fala ao grupo, explica algumas regras básicas, faz-nos rir um pouco com o seu sentido de humor.

Chegamos ao hotel que não poderemos abandonar em caso algum sozinhos. Lá dentro somos reis, podemos fazer tudo, usufruir dos bilhares, da piscina interior, da sauna, dos bares, das lojas e até do jardim da cerveja que existe no perímetro exterior.

Eu, o Bryan e outro viajante damos uma volta pelas instalações. E depois recolhemos ao quarto. 28º andar. Uma vista deslumbrante. Belo hotel. Vamos ver o que o dia seguinte nos reserva.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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