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Cuba 2014 – Dia 9 – Trinidad

19 de Dezembro

Como descrever um dia dedicado à ronha total? Não há forma. Fica a memória de um último pequeno-almoço em grande com a mesa posta com as iguarias a que nos habituaram por aqui, bens frescos, produzidos localmente, de qualidade, para aproveitar até à última migalha. Fica o tempo prolongado passado no quarto e no terraço, o duche prolongado, sem nada para fazer, sem o relógio a apressar.

Foi o dia em que tivemos que decidir passa Sancti Spiritus e seguir directamente para Santa Clara. Comprámos os bilhetes na Viazul. Sem problemas. E foi também o dia em que nove dias depois decidi entrar na Internet. Um recorde de ausência absoluto, desde que comecei nestas coisas, bem antes da maioria das pessoas, creio que em 1993. Foi agradável mas não especialmente barato. 4,50 CUC, ou seja, uns 4 Euros. Foi estranho passar pela multidão de cubanos que aguardavam a sua vez para entrar nas instalações da ETECSA local e entrar, como um barão priviligiado. os computadores eram impecáveis, a ligação bastante rápida, mais coisa menos coisa com a velocidade de acesso que tenho em casa. Foi uma hora bem passada, com ar condicionado num dia em as temperaturas subiam como nunca na minha passagem por Cuba.

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Quando saí tratei de saciar uma curiosidade: queria ver um estádio de Baseball e em Trinidad há um. Creio que a equipa local disputa a liga nacional, e o Baseball neste país é uma coisa séria, o desporto mais popular, o único tema capaz de levar a altercações. A única vez que ouvimos cubanos a levantar a voz e a regatearem seriamente foi quando discutiam as incicências das últimas partidas.

Perguntei direcções e passei por um bairro que não parecia pertencer a esta cidadezinha encantada. Uns quantos blocos de apartamentos com aspecto de bairro social e por detrás deles o Estadio Rolando Rodriguez.

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Espreitei para dentro de janelas e vi o arquivo municipal, tal como imaginaria um arquivo municipal à entrada do século XX, com dezenas de volumes de folhas amareladas empilhadas, num emaranhado documental apenas ao acesso do manuseio do bibliotecário que vive por entre as pratelerias empoeiradas da sala. Noutro edíficio vi uma maquete de Trinidad, o que faz todo o sentido, porque existe em Cuba uma paixão por modelos à escala. Mais tarde, por uma outra janela, mais evidente e mais aberta, assisti a uma cerimónia de Santeria. Foi um dia com muitas janelas.

Foi também um dia de estar no terraço e no alpendre de casa, a ver o que se passava em redor: as vizinhas que falam do que as vizinhas sempre falam, os homens que continuam a jogar dominó defronte da cafetaria de onde podem levantar a qualquer momento mais uma bebida, as carroças que vão passando na rua e mesmo os elementos inesperados, como o carro descapotável que se aproxima com algazarra, cheio de balões coloridos, com um operador de câmara a filmar o casal que ali se faz transportar.

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Uma tarde muito relaxada, mas incluindo algums momentos falhados, como quando recebi a notícia que a minha gorducha favorita de Trinidad já não tinha pudim. Valeu-me o táxi a cavalo que se aproximava, numa algazarra crescente que não deixava espaço para dúvidas: naquele improvável veículo vinha um equipamento de som que deixaria cheios de inveja os mais entusiastas amantes do tuning. Trinidad estava repleta de um divertido nonsense neste último dia.

Há mais imagens soltas: do músico que se senta num canto afastado da praça principal onde ninguém o ouve, do cão que impera sobre todos os outros na baixa de Trinidad mas que sofre incriveis ataques de asma ou bronquite de cada vez que dá uma corrida em algum mais indisciplinado que não lhe presta vassalagem, do bar dos Beatles totalmente dedicado ao tema incluindo uma escultura colectiva de bronze em tamanho real.

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Foi o dia em que dei um grande andamento na leitura do Our Man in Havana. Mas acima de tudo foi o dia em tudo o que se passou aconteceu com naturalidade, sem fotografias, sem registos, sem memórias organizadas. Comemos onde calhou e quando calhou. Foi um adeus a Trinidad. No dia seguinte era preciso acordar cedo, o Miguel ficou de nos arranjar um pequeno-almoço simplificado para levarmos, uma merenda para a viagem que muito jeito nos daria.

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About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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