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Do Báltico ao Mar Negro, dia 10 – Varsóvia

9 de Maio


O plano para hoje é atravessar o rio e explorar Praga. Isso mesmo. Praga. Não a capital da República Checa que foi o meu lar durante três maravilhosos anos, mas o bairro de Varsóvia com o mesmo nome. Foi aqui que o exército russo esperou pacientemente que os alemães despachassem o levantamento de Varsóvia, tratando de dois problemas a um só tempo: não só os soviéticos viram com prazer a mobilização de recursos militares alemães para um conflito inesperado, com as baixas que a acção acarretou, como certamente sorriram com a dizimação do exército polaco levantado das sombras, uma força que certamente lhes traria problemas no futuro, não fosse a razia total que sofreram às mãos dos alemães durante as semanas que durou o levantamento de Varsóvia.

Praga é, em suma, uma coisa bizarra: tradicionalmente um bairro pobre e degradado, foi, por algum motivo que a razão desconhece, escolhido pela comunidade artística de Varsóvia como epicentro. Não tardou a que caisse na moda, e de repente toda a gente queria mudar-se para aqui. Onde os artistas e a nova elite se escondem, não sei, porque só descobri a miséria que tornou esta Praga famosa. Já ia avisado para ter algum cuidado e ir olhando por cima do ombro, mas, apesar de alguma fauna suspeita, não senti uma ameaça acima do que se sente quando se anda na baixa de Lisboa a qualquer hora do dia.


Algumas ruas têm de facto prédios ultra-degradados, onde pessoas sobrevivem em condições que fazem os piores blocos de Chelas parecerem palácios. Outros, não são tão maus. Tratam-se dos blocos socialistas, que neste meio roçam a habitação de luxo. Exploro alguns páteos interiores, chego a entrar num par de edíficios. O que se vê lá dentro é ainda pior do que as fachadas de tijolo em desintegração, ainda crivado do chumbo dispensado generosamente pelas forças armadas alemãs durante a guerra.

Um toque pictoresco são os altares à Virgem Maria, que se encontram em muitos desses páteos. Descobri três ou quatro, mas diz-me o Darek que há para cima de um milhar.

Mas excitei-me com a narrativa, esquecendo-me que antes de cruzar o Vístula explorei um pouco mais das zonas nobres de Varsóvia. Primeiro, quis dar uma vista de olhos, com luz do dia, ao primeiro arranha-céus da Polónia, que foi inicialmente hotel e depois muitas coisas mais, até chegar aos dias de hoje numa espécie de escombro erecto. Ali cresceu  no período entre guerras e pelo que consta, a sua construção foi tão sólida que escapou à destruição apenas com algumas escoriações.


Adorei uma pequena rua que corre paralela à principal via da cidade antiga, a primeira tão sossegada e serena, a segunda fervilhante e tomada pelas hordas de turistas. Se já não bastasse ser atraente apenas por si, tem ainda um belo jardim, anexo ao edíficio que alberga o museu da caricatura e que é um verdadeiro oásis de tranquilidade e frescura.

Encontrei o memorial a levantamento de 1944, espectacular, grandioso, de meu agrado. No espaço estavam grupos de crianças, trazidas em viagem de estudo. É a perpetuação da tal pieguice colectiva, a transmitir-se às novas gerações. Felizmente partiram passado um pouco, deixando-me espaço para recolher as imagens desejadas. Um local a visitar. Na minha modesta opinião, claro.


Depois, segui para uma segunda de mão do centro histórico. No fundo, nada de novo desde ontem. Não descobri nenhuma novidade, a luz era idêntica, as pessoas pareciam as mesmas. Mas era porali que devia passar para atingir a ponte que pretendia usar para alcançar Praga.


Das deambulações por essa bairro já falei, antes de tempo, por isso a narrativa passa subitamente para o final da tarde. Arrasto-me de volta a casa, muito cansado. Gostei de atravessar um apeadeiro urbano, à saída da ponte, outra, que usei para regressar ao meu lado do Vístula. É uma zona onde vejo muito gente jovem, cosmopolita, em esplanadas bem conseguidas, com uma atmosfera fresca. Vá-se lá saber porquê desta preferência, considerando o zumbir constante do tráfego no tabuleiro da ponte.


Em menos de nada estou em casa. A localização do apartamento é soberba, mesmo no meio da cidade, a poucos minutos a pé de tudo. A hora combinada inicialmente não me teria chegado para concluir o passeio, e um SMS enviado com a devida antecedência adiou o encontro para as 19:00. Ainda mal tinha acabado de chegar e já o Darek me falava de mais uma saída. Acho que a minha cara foi esclarecedora, porque logo de seguida veio a sugestão de passarmos um serão em casa, com uma breve tirada para visitar o supermercado local. E assim foi. Regressámos com cervejas frescas e outros abastecimentos, e curei a fadiga de 32 km a andar com boa conversa, informação sobre a Moldávia recebida, uma introdução a Portugal oferecida. Na manhã seguinte a alvorada é às 7, porque o Darek vai para Londres, e eu sigo para outras partes da Polónia, já perto da fronteira com a Ucrânia. A expedição ao supermercado foi aproveitada para se comprar já o bilhete de comboio. O meu amigo entreteve-se a pintar-me um quadro negro: que este comboio que eu ia apanhar era do mais rasca possível, com carruagens construidas para viagens de curta distância, que parava em todo o lado e, melhor que tudo isso, que há poucas semanas, exactamente este comboio tinha colidido de frente com uma outra composição, resultado o acidente em algumas dezenas de mortos. Bem, concluiu ele como paliativo, talvez por causa disso eles tenham agora carruagens melhores (apesar de, obviamente, a qualidade das carruagens não ter tido culpa nenhuma da catástofore).

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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