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Do Báltico ao Mar Negro, dia 12 – Przemysl

11 de Maio

Acordamos relativamente cedo, em boa sincronia. Directamente para os computadores, e um bocado de serenidade matinal. Sem pressas, vamos falando em sair. Parte do plano para Pzemysl envolvia uma expedição a um dos fortes abandonados, que no seu todo constituiram uma tremenda fortaleza, construida pelos austro-húngaros, desejosos de reforçar as suas fronteiras orientais face ao sempre ameaçador expansionismo russo. Ao contrário de tantas outras fortificações erigidas pela mesma altura, esta viu feroz acção durante a Primeira Guerra Mundial. Os russos atacaram… e falharam. Apesar das vagas de assalto renhidas, só um dos fortes secundários caiu em mãos russas, e mesmo assim por um pequeno período de tempo apenas.


Mas na véspera o Darek anunciou-me logo, com entoação que transmitia uma nota final ao assunto, que o amigo que nos iria dar uma boleia até aos fortes tinha ido passado uns dias fora e portanto nada feito. Para sua decepção o plano B não poderia concretizar-se: bicicletas. Só que eu não ando de bicicleta. Não gosto, prefiro andar, mesmo demorando quatro vezes mais tempo. Perguntei-lhe por transportes locais. Que havia, mas não sabia nada sobre eles. A conversa morreu por ali e conclui que fortes, nem vê-los.


Contudo, talvez sensibilizado pela minha decepção mal disfarçada, o Darek fez a sua investigaçãozinha online e anunciou-me que se saissemos dentro de dez minutos iriamos a boa hora de apanhar o pequeno autocarro que ia na direcção certa. Olá! É para já!

Em passo rápido fomos até ao ponto de partida do transporte. Encontrado com sucesso, e poucos minutos depois estávamos a caminho. O dia estava radiante. Um Verão adiantado, com muito calor e sem uma núvem no céu. Fez-me lembrar as saudosas expedições de fim-de-semana dos meus tempos checos… a procura do transporte, a expectativa, a prontidão para um dia de aventuras… e, claro, uma certa comungação cultural, eslávica, contribuiu para me trazer do fundo das memórias aqueles momentos bem passados com amigos que o tempo levou.


Da paragem do autocarro até ao forte foi um passeio brilhante, não só pelo dia sorridente mas também devido a uma surpresa muito agradável: um pequeno cemitério, antigo, abandonado, no topo de um pequeno monte à beira da estrada. Nem era bem um cemitério: nada de vedações, trilhos ou ordenações. Tratava-se mais de uma série de campas, sabe-se lá de quando, com uma atmosfera incrível. Uma delas tinha inscrições em cirilico, mas todas as outras era polacas. Os ferros das cruzes que encimavam as campas estavam ferrugentos, deixando claro que me encontrava perante um local ancestral.

O forte não decepcionou. Diria antes que, pelo contrário, surpreendeu pela positiva. Tinha visto fotografias do local, que revelavam uma estrutura interessante, abandonada mas não em ruína total. Mas o que não esperava era a dimensão da coisa. São três andares, repletos de salas, mistérios a cada passo, túneis, escadas, nichos. E depois, os páteos interiores. A fazer lembrar a fortaleza austro-húngara de Kotor, no Montenegro, que visitei em Outubro de 2011. Até as latrinas se encontravam presentes, com a mesma disposição. No topo crescem árvores, por vezes nas posições mais inusitadas, troncos oblíquos, raizes descendo pelas paredes de pedra.

Muitas fotografias depois, fez-se tempo de partir. Tinha acabado de passar um autocarro, o que significava mais de uma hora até ao próximo. Decidimos então espreitar o forte mais próximo, a cerca de dois quilómetros. A caminhada foi agradável, no meio daquele quadro bucólico da ruralidade polaca, com um céu muito azul e um sol a encher tudo de cores vivas. O segundo bastião foi algo decepcionante. Um edíficio apenas, assemelhando-se mais a uma caserna comum, com materiais de construção no seu interior e apresentando sinais de estar a ser parcialmente recuperado, sabe-se lá para que fins. A verdade é que nos distraimos e quando demos por isso faltam escassos minutos para a passagem do próximo transporte. Era imperioso que o apanhássemos. Falhar este objectivo representava um incrível seca de duas horas e uma tarde perdida. Foi mesmo necessário percorrer parte do percurso em passo de corrida, e afinal, em vão, porque o autocarro passou bastante atrasado.

De volta à cidade percorremos mais umas ruas e acabámos a beber cerveja numa esplanada da praça principal, seguida por outro num bar mais recatado, num recanto perdido junto à mesma praça. Baterias recarregadas, estava na hora de conhecer um pouco melhor Przemysl. O Derek conduziu-me até ao topo da antena, onde alguns locais passeavam, usufruindo do parque envolvente. Para lá chegar passámos junto a uma área com uma enorme concentração de igrejas… ou não estivessemos nós na Polónia. Eram quatro, quase ao alcance da mão.

O bairro que trepa pelo monte acima é tranquilo. Apenas um ou outro carro passa. No fim da rua, já à beira da antena de TV, uma tasca instalada no andar térreo de uma moradia familiar chama por nós. Hesitamos. Mas decidimos aproveitar a última hora de luz de outra forma.

Quando descemos, fazemo-lo por outra encosta, coberta por uma floresta densa transformada em parque. O sol que já vai baixo fornece escassa luz, que entra a custo pelas copas das árvores imponentes. É mais uma caminhada agradável, que culmina num café muito ilustre instalado na antiga casa do guarda do bosque. Aquela hora já não se encontram muitos clientes, mas sentamo-nos na esplanada para mais uma cerveja. As empregadas sorriem com os meus esforços de agradecer em polaco. As pessoas olham-me com uma curiosidade amigável. Decididamente não estão habituadas a ver estrangeiros por ali, mas ao contrário do que sucede na República Checa, os seus olhares estão desprovidos de hostilidade ou desconfiança.

Regressamos ao apartamento. O Darek está em pulgas para ir a uma festa a que se seguirá uma noitada de arromba num clube local. Mas as boas intenções acabam por ser goradas. Parece que rebentei com o rapaz, porque uma vez em casa confesa-me que tem que se render ao cansaço, e pouco depois cai a dormir que nem uma pedra. Foi um dia em grande, cheio de aventuras e detalhes observados, boa cerveja, polacas esbeltas… uma pequena cidade a visitar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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