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Do Báltico ao Mar Negro, dia 13 – Przemysl e Lviv

12 de Maio

Acordei e senti-me miserável. O dente que me impediu de dormir uma boa parte da noite ainda doia um pouco, mas para piorar as coisas tinha o braço direito com um problema muscular qualquer e uma infecção num olho. Em grande. Não me apetece nada pôr-me a andar para o mini-bus mas sinto que o Darek quer que me ponha a mexer, por isso, educadamente, começo a arranjar os meus tarecos.


Ele caminha comigo até ao centro, paramos numa farmácia para comprar umas gotas para o meu problema na vista, e despedimo-nos junto ao sítio de onde sai o transporte para a fronteira. Depois de ter recusado duas sugestões de outras pessoas para usar este método de me transportar para Lviv, não consegui resistir à opinião convicta do Darek. Estava decidido a apanhar um autocarro directo, que vai através da fronteira. Mas este método, muito usado pelos habitantes da região, é uma bela poupança. Enfim, estava a apostar no conforto, mas acabei por ficar com a economia. Os dois troços custaram-me menos de 2 Eur.

Bom, mas para já queria dar uma volta sozinho pela cidadezinha, exercitar a minha vista fotográfica, reparar em detalhes que escapam quando se anda com um cicerone, poder parar a cada pormenor que me tenta ao disparo. Não foi um grande passeio, apenas uma forma de me despedir deste cantinho da Polónia tão remoto e tão simpático.


Andei pelas ruas mais ao menos ao sabor da aragem, encontrei locais que já conhecia, e voltei pelo mesmo caminho. Estava na hora de mudar de país. Adeus Polónia, olá Ucrânia.

A carrinha estava basicamente vazia quando entrei e escolhi um lugar. Sinal de que ainda tinha alguma espera pela frente, porque aqui não há horários, as saídas dão-se quando a viatura está cheia. E foram chegando pessoas, todos locais. E encheu, e, à última da hora transbordou, porque quando saimos de Przemysl já iam pessoas de pé. Alguns sairam antes da fronteira, outros, talvez a maioria, ficou até ao destino final.

Estava um dia de calor asfixiante. Quando saí fui surpreendido por um autêntico arraial. É a terra de fronteira. São ruas e ruelas de barraquinhas vendendo comida e bebida, trocando dinheiro, oferecendo todo o tipo de produtos de que se possa precisar. Uma multidão de gente anda por ali, vindos de ambos os lados da fronteira, uns atarefados, outros aguardando por algo ou alguém. É uma enorme Babel, um assombro. Observa-se uma fauna estranha, profissionais de dúbias artes, cujo contrabando não será a menor das actividades, mas que não desdenharão qualquer outro rendimento, por mais ilegal que seja.


Encontrei o caminho para o controle de passaportes seguindo o fluxo natural de gente. Não havia ninguém à minha frente, fui logo “atendido” pela simpática polícia polaca, que tentou dizer o meu nome completo com um sorriso, e perante o gozo do colega do lado. Mais uma vez o meu passaporte electrónico suscitou muitas dúvidas, e teve mesmo que ser feito um telefonema de verificação. Esta situação começa a aborrecer-me verdadeiramente. Uma pessoa paga uma fortuna por um passaporte, e é evidente que existe algo de errado. Até agora não tive problemas de maior, para além do desconforto da desconfiança de sucessivos guardas de fronteira. Espero que um dia não me deixe de facto em dificuldades sérias.

Atravessei a terra de ninguém e entrei no lado ucraniano. De novo, foi chegar e passar, desta vez sem incidentes com o meu documento de viagem. No sentido oposto a coisa não estava tão brilhante. Uma multidão acotovelava-se para se chegar à frente, mas não estavam sequer a deixar passar ninguém naquele momento. A diferença de preços entre a Ucrânia e a Polónia criou uma oportunidade de negócio que é explorado até à exaustão. Resultado, atravessar de Este para Oeste é uma tarefa morosa, porque cada “viajante” é revistado minuciosamente. O tempo de espera pode ser de mais de seis horas, o que no meu caso não aquece nem arrefece, já que na direcção que viajo, como se viu, fui chegar e passar.

Com os pés assentes na Ucrânia recebo o assédio de uma daquelas aves de rapina que tentam a sorte até encontrarem um viajante retardado mental, o que a julgar pela sua sobrevivência deve suceder mais vezes do que consigo imaginar. Este nem se deu ao trabalho de aprender uma palavra de inglês, mas deu para perceber o esquema: que não havia autocarros para Lviv, ou então, pensando melhor, que havia mas era a 30 km. Mas como é que há alguém que cai nestas esparrelas? Bom a verdade é que a pequena estação de autocarros está bem escondida. Depois de aturar a conversata em ucraniano durante quase 100 metros o tipo lá me desamparou a loja. Caminhei mais um pouco, até que uma senhora de uma loja, sentindo o meu olhar inquiridor, fez-me um sinal quase impercetivel como quem diz: “precisas de alguma indicação?” e lá me explicou, por palavras que não ajudaram nada mas acompanhadas com gestos muito explícitos, que era um pouco mais para a frente e virar na primeira à esquerda. E lá dei com aquilo. A partir daí foi simples. Lviv, em círilico, percebe-se bem. Tinha um autocarro daí a 30 minutos. Comprei o bilhete e esperei à sombra, enquanto chegavam mais passageiros para o meu destino.

A viagem foi pictoresca. Muito interessante. A Ucrânia é de facto um um outro mundo, pobre, miserável, atrasado. O autocarro ia cheio à pinha. A cada paragem saiam e entravam alguns passageiros, num quadro colorido do tecido rural do país. À minha frente um casal de modernos viajantes polacos sofria com o calor. E estava de facto muito. Foi cerca de uma hora de sauna intensa, mas diverti-me.


Lviv. Um amor (quase) à primeira vista. O autocarro deteve-se junto à estação de comboios. Rara é a cidade onde o centro ferroviário e rodoviário é aprazível. Mas se em Lviv a regra se mantém, a coisa não é muito negro. Aqui nenhum taxista sem escrúpulos aguarda os viajantes. Surpreendeu-me. Simplesmente estava ali sozinho, olhando em redor, sem ninguém me incomodar. Começou bem. Andei uns metros, sentei-me, e comi qualquer coisa, ajustando-me a esta nova realidade, preparando-me para os 3 ou 4 km que me esperavam.

Tinha feito na véspera uma reserva para o Cat’s Hostel, onde uma dormida custa a “exorbitante” quantia de 6 Eur, com um parco mas real pequeno-almoço incluido. E tudo o mais o que se espera ter num hotel: free wi-fi, toalha, roupa de cama lavado. Bom, mas primeiro era preciso lá chegar. Estava a apontar para me apresentar à porta pelas 16 horas mas isso claramente não seria possível. Passava um pouco das 15 e acabei por atingir o destino às 17:30.


Mas porquê mais de duas horas para caminhar 4 km? Porque me perdi de amores por Lviv! Como explicar….? Como muitos sabem, o meu primeiro amor foi Praga, e sobre a capital da República Checa li tudo o que havia a ler, incluindo os relatos dos primeiros ocidentais que se instalaram na cidade depois do colaposo do regime comunista, sobretudo norte-americanos. E dessas memórias guardei uma ideia que, por experiência própria, sei ser completamente distinta da realidade da Praga do século XXI, que conheci em 2005. O turismo em massa mudou a cidade, criando um azedume dos locais contra os visitantes estrangeiros, multiplicando os negócios destinados aos turistas, que se tornaram uma praga. Tudo mudou, com uma modernidade agressiva. Mas o que eu quero agora é falar de Lviv, e dizer que imagino que esta simpática cidade na Ucrânia seja hoje o que Praga foi em 1989. Aqui não há turistas, pelo menos de países ocidentais, ou, melhor dizendo, em número que se dê por eles. As ruas têm um aspecto decadente mas nobre. Lviv é a velha senhora que mantém as feições de uma beleza descedente, mas que não recorreu ainda à cosmética para continuar a atrair. Os detalhes fascinantes que se vêem a cada passo são a coisa real, sem artimanhas. Não é a “Disneylandia” que se encontra em tantos outros destinos em países que pertenceram ao chamado Bloco de Leste. Nada em Lviv foi ou é feito a pensar no turista.

Caminhar desde a estação até ao hostel foi uma sucessão infindável de mudas exclamações, apenas traduzidas no click constante do obturador da minha câmara. Tenho uma sensação de angústia feliz, vinda da certeza que nunca conseguirei capturar o que estou a ver, pelo menos como merecido.

Li num guia turístico que Lviv é uma cidade de pormenores e que o visitante se pode e deve perder nas suas ruas, dias a fio, descobrindo detalhes deliciosos a cada momento. É uma excelente decrição, que subscrevo entusiasticamente.

As infinitas ruas da Lviv antiga são ladeadas de edíficios com tinta desbotada, aqui e ali deprendendo-se das paredes. O estuque também se vai soltando, e podem-se observar umas quantas varadas em preocupante estado de decomposição. Os carros vão passando, incluíndo um número incrível de Ladas e de outros veículos de uma era passada, que nos remetem para o imaginário James Bond e para as suas perigosas incursões no bloco soviético.

Vou-me aproximando do centro e caminho cada vez mais maravilhado. A praça Rinok é a expressão fulcral da cidade. Há um ambiente de festa sem razão. Cachos de crianças de escola visitam-na, como pequenos turistas, tirando as suas fotografias aqui e acolá. Um grupo Hare Krishna manifesta-se empolgadamente, rodeado de espectadores que não fazem a menor ideia do que se trata enquanto aplaudem ritmicamente. Idosos sairam para a rua, sedentos de uma quebra na monotonia das suas vidas, procurando sorver a energia da multidão.

Como vi que a previsão metereológica não é grande coisa para os próximos dias, decido dar uma volta pelas imediações deste centro natural, não querendo desperdiçar aqueles que serão provavelmente os últimos raios de sol de que usufruirei em Lviv. E fiz bem. Vi muita coisa, lá está, os tais detalhes cuja descrição não tem cabimento num blog deste tipo.

Há artistas de rua. E gente que passa, e outra que se instala nas esplanadas. Em Lviv existe uma cultura de cafés cosmopolita, que se aproxima do requinte vienense. Já vou na tirada final, em direcção ao hostel. Atravesso uma via pedonal, cheia de classe. Vou um pouco tenso, a imaginar qual será o plano B se algo correr mal no que toca à acomodação. Mas não. Encontro facilmente o Cat’s Hostel e gosto do ambiente. Para já, no meu quarto, só eu e um japonês, sobre o qual aprenderei mais no dia seguinte. O dono, o jovem Anton, recebe-me com genuina amizade, dá-me a roupa de cama, a password para a Internet, e estou deliciado. Depois de tantos diasa ficar com pessoas, sabe-me bem usufruir da liberdade de espírito de um hostel, sem obrigações sociais. Fico simplesmente deitado, até à noite, a pôr a escrita em dia, a trabalhar, descontraindo, quase ronronando de prazer.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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