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Do Báltico ao Mar Negro, dia 16 – Lviv

15 de Maio


Mais um dia que nasce cinzento, com a ameaça de chuva sempre presente. Comecei por visitar um palácio, antes privado, e agora museu. Em 1919, nas comemorações da vitória da Polónia sobre forças ucranianas, um pequeno avião militar despenhou-se no telhado, iniciando um incêncio que consumiu boa parte dos andares superiores do belo edíficio. Nas suas traseiras, no jardim, uma exposição de modelos de castelos e fortificaçãoes da região.

Depois fui à descoberta da citadela, actualmente envolta numa área obscura por uma série de oficinas e estaleiros. Uma das suas torres, relativamente intacta, está envolta por uma vedação de arame, mas encontro outra, com sinais evidentes de maus tratos em batalha, que está aberta e pode ser explorada. Pequena mas interessante. Quando chego, um casal de jovens está descontraidamente instalado no seu topo, observando-me como aves de rapina, mas, talvez pertubados com a minha presença, abandonam o espaço pouco depois.

Regresso ao centro da cidade e experimento o McDonalds local. O que eu queria era Internet, mas por alguma razão não consigo acesso. Tenho contudo que reconhecer que a refeição que encomendei por menos de 5 Eur me encheu durante horas: o menu, feito de hamburguer triplo, pacotão de batatas fritas e um balde de coca-cola. Ainda tinha pedido um batido de morango, que engoli a custo, já muito cheio.

Entretanto o dia começava a limpar e eu estava perto do centro. Foi um prazer rever aquela zona tão bela, e aproveitei para descobrir novos recantos. Sem esperar vou desembocar num mercado de livros usados, com alguns vendedores de outros elementos coleccionáveis (moedas, selos, parafernália comunista). Um ambiente interessante, com os vendedores estranhamento assemelhados nas maneiras a sem-abrigo. Apesar se ser apenas um pequeno espaço, atravessei-o  algumas vezes, afastei-me mas não consegui resistir a regressar. Alguns velhotes jogavam xadrez, e uma pequena multidão de turistas alemães chegou. Hora de sair dali.


Basicamente foi um dia de revisitas, feitas com muito prazer, sobretudo com a bonita luz que se pôs. É complicado falar de Lviv, dia após dia, sem me tornar repetitivo. No fundo, é uma porção de beleza que se renova, não cansa, mas não pode ser colocada em palavras tantas vezes quanto pode ser apreciada de alma cheia.

Sentei-me num fino café, onde me delicio com um chá enquanto acedo à Internet, e por ali fico mais de uma hora, descansando o corpo exausto, preparando-me para mais andanças. A seguir tenho uma missão: comprar o bilhete para amanhã, para o comboio para Kiev. O Oleg escrevinhou-me num papel as instruções em ucraniano, mas mesmo assim estou um pouco nervoso com a barreira linguistica. Mas tudo corre bem,fora o longo período de espera na fila. Saio com o desejado bilhete.


 

Há músicos de rua que acentuam a alegria de uma cidade já feliz. Ando com o Oleg, que entretanto encontro para uma cerveja, e ele promete-me um local especial, à laia de despedida. E que local! Estamos a falar de um pub em diversos andares de um edíficio mais antigo que sei lá, e que recria um mundo de fantasia, como que vindo de um livro de Tolkien, cheio de imaginação e fantasia. Há a sala das moedas de ouro, e a sala do dragão vivo e, imagine-se, a sala onde o tempo de Lviv se encontra guardado, sem mais, literalmente! Mas o cromo raro desta colecção encontra-se no telhado: uma esplanada com uma vista sobre a cidade de cortar a respiração, na qual temos a sorte rara de encontrar uma mesa vaga. A cerveja é decepcionante, quase morna e sem pressão. Mas isso é um pormenor de somenos importância perante o cenário. Como corolário, existe uma chaminé, marcada claramente como o ponto mais alto do prédio, onde se pode trepar e obter as fotos mais extraordinárias, lado a lado com o limpa-chaminés que inspira primordialmente o “pub”. No meio de tudo isto o “trabant” que se encontra ali suspenso e para onde as pessoas podem entrar para uma foto única, é quase um detalhe secundário.

Na mesa  ao lado um grupo castiço: estudantes de várias nacionalidades, mas principalmente locais e de diversos países árabes – Argélia, Marrocos, Palestina. Quando chega um outro grupo, de gente de negócios, com uns quantos americanos, sei que está na hora de sair dali. Não suporto ouvir falar “americano”, muito menos naquele ambiente.


O Oleg está inspirado e promete preparar um jantar em casa. É parco mas delicioso: costeleta com pão. E depois, para remendar os buracos ainda existentes no estômago, queijo, para barrar nas fatias sobrantes de pão.

Mais tarde, enquanto preparo a mochila para a partida, sinto já uma nostalgia antecipada por aqueles dias de Lviv.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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