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Do Báltico ao Mar Negro, dia 2 – Vilnius

1 de Maio

Dia feriado. Mesmo antes de iniciar a viagem já lamentava estar na Lituânia neste Dia dos Trabalhadores, tão cheio de tradição noutros países desta região, mas quase ignorado pelos lituanos, desejosos de quebrar os elos do passado com a União Soviética.

Estamos ligeiramente desfazados, com o avanço de duas horas em relação ao nosso tempo, e isso faz-nos acordar já a meio da manhã, sei lá, por volta das 11 horas. O plano é experimentar a “free tour” de Vilnius. Trata-se de um conceito bastante comum nos dias que correm: uma equipa, geralmente jovem, organiza estes passeios, que se iniciam num ponto de encontro central; quem aparecer, vai. Sejam duas ou vinte pessoas. No fim, se não se gostou, não se paga nada. De resto, dá-se o que se achar bem, o que, segundo o senso comum, anda entre os 5 e os 10 Euros.


Ao meio-dia lá estamos, na escadaria da Câmara Municipal. Sozinhos. Começamos a pensar que se calhar, como é feriado, não há passeio para ninguém. Vamos observando potenciais companheiros de “tour”. Um jovem está sentado mais ao lado, mas é falso alarme. Passados alguns minutos faz um telefonema e arranca em passo largo, ao encontro de um amigo que o esperava mais abaixo. O mesmo se passa com uma moça que, reunida com a amiga, se afasta da área. Atrás de nós uma rapariga com uma mala amarela é “suspeita”. Quando outra se aproxima e começam a falar inglês torna-se quase certo. É a guia de serviço. Portanto, somos nós e a miúda russa que chegou. Já de partida juntam-se-nos mais duas, uma malaia e uma de Singapura. Um pequeno grupo muito internacional.


Começamos pelos pontos mais turísticos, bem no centro, mas vamo-nos afastando, parando aqui e acolá para ouvir estórias e detalhes. O dia está quente, com muito sol e nem uma só nuvem no céu. Serão três horas, durante as quais atravessamos Vilnius, chegando até um ponto nas colinas que rodeiam a cidade antiga, oferecendo uma excelente vista panorâmica.

Uma das áreas exploradas mais intensamente é Uzupis. Uma república independente no seio de Vilnius. Tudo na brincadeira, mas mesmo assim com um ambiente especial. É costume no Primeiro de Abril formar-se uma “guarda fronteiriça” que pespega carimbadelas nos passaportes de quem queira atravessar uma das pontes que dá acesso ao bairro. Existe uma bandeira e uma Constituição. Existem algumas regras, bem claras na silanética colocada na “fronteira”. Uma delas: é obrigatório sorrir sem parar, para acabar de vez com a fama de gente sisuda que os lituanos têm.


Uzupis é um bairro que foi em tempos degradado e pobre (uma das ruas era conhecido nos tempos soviéticos como a “rua da morte”), mas que é hoje muito apreciado por gente endinheirada, atraída pela atmosfera especial que ali se criou quando a comunidade artística de Vilnius começou a assentar arraiais por ali. Existem locais especiais, como a Praça do Tibete, decorada com pequenas bandeiras coloridas como é costume ver naquela região asiática. Quem não gostou da brincadeira foi o governo chinês, que colocou a esperada pressão diplomática junto da Lituânia, sem resultados. Por essa altura um investidor chinês construia o novo estádio principal de Vilnius. Resultado: os lituanos ficaram com a Praça do Tibete, mas sem estádio.

O passeio segue junto a um dos dois rios que cruzam Vilnius, o mais estreito, pouco mais que uma ribeira, em cujas as margens se vêem gentes de todas as idades procurando usufruir da quietude daquelas paragens, alguns com os pés mergulhados nas águas frescas que correm céleres.  A Primavera chegou em todo o seu esplendor, e com ela a envolvência torna-se intensamente verde. De resto, Vilnius é uma cidade muito verde, como se pode confirmar a partir de qualquer um dos pontos que oferecem vistas panorâmicas.

De mencionar a rua dos escritores, onde a nata da literatura lituana se encontra representada, quase sempre de forma humoristica, com marcas pesonalizadas junto a números que identificam o autor homenageado. A escolha dos galardoados faz-se por votação pública, a partir de um website na Internet.


Pelas 15 horas o passeio termina. Estamos por nossa conta. Exploramos um pouco mais a cidade, descobrindo locais que tinham ficado de fora da expedição. A catedral de Vilnius, muito branca, no centro da enorme praça que a alberga. O palácio presidencial, fruto de um capricho governamental, que o construiu de raiz, na convicção que país que se preze tem que ter um. Afastamo-nos da principal artéria pedonal, pictoresca, mas demasiado turística. Acabamos por percorrer em quase toda a sua extensão aquela que se virá a revelar a minha rua favorita, que se inicia junto à tal catedral e se estende até ao rio, durance cerca de dois quilómetros.

É uma artéria larga, de tráfego automóvel condicionado, que emana uma atmosfera informal e descontraida. Muitas esplanadas, muito comércio, teatros, cinemas… mas tudo de forma arejada, espaçada. Já para o fim, encontra-se a biblioteca nacional e o Parlamento, que à data da independência, quando a Lituânia se emancipou da União Soviética de forma  pouco pacífica, em 1991, era o Supremo Tribunal.



Regressamos ao centro com a fome a aperta, seguindo um percurso alternativo, que nos mostra novos detalhes, como a bizarra escultura de Frank Zappa. Uma coisa é certa: os lituanos têm um sentido de humor muito intenso.

Combinamos com os nossos anfitriães um encontro às 18:30 no bar de ontem. Chegamos um pouco antes e encomendamos comida e bebida. Depois aparecem eles, que também petiscam qualquer coisa. Já são sete e picos, mas os dias são já muito longos e de repente, no fluir natural da conversa, surge a ideia: vamos mas é até ao cemitério beneditino, que era algo que eu queria ver, mas que não é de fácil acesso a partir do centro. E assim como assim, eles têm o carro à porta. Vamos! À aventura, que o dia já vai longo e é preciso aproveitar os últimos raios de sol.

Foi um dos momentos altos da visita à Lituânia. Aquela hora o cemitério tem um ambiente especial. A noite vai batendo à porta e não há mais ninguem por lá. A luz está… diferente. Entramos quase clandestinamente por um portão entreaberto e exploramos os seus terrenos despreocupadamente.

Terminada a incursão, regressamos ao carro pelo caminho mais longo, intencionalmente, o que nos proporciona mais uma visita guiada. Paramos num pub que é do mesmo “barbas” que já conhecemos do nosso local de eleição. Ainda há pouco tinhamos sido servidor por ele e voltamos a encontrá-lo. Mas estão e fechar e já não nos servem a desejada cerveja. Pouco importa, seguimos caminho, passando por alguns dos locais que tinham sido mostrados durante a “free tour” de início do dia.

De regresso ao carro, voltamos ao centro para uma última bebida, num bar com free wi-fi, coisa preciosa que aproveitamos intensamente. Eles estão cansados e o dia seguinte é de trabalho. O serão está a acabar. Temos direito a boleia até casa, mas antes de nos recolhermos fazemos ainda um ataque ao hipermercado que fica ali perto e que está aberto em permanência. Precisamos de abastecimentos para nos mantermos entretidos durante as longas caminhadas pela cidade. Quando saímos, com as compras, é quase meia-noite, e um grupo de jovens espanhóis – provavelmente estudantes Erasmus – vêm a entrar.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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