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Do Báltico ao Mar Negro, dia 22 – Sevastopol

21 de Maio

Tenho que acordar às 9, que o Nick vai sair para o trabalho. O Artur parte hoje, em direcção a Yalta. E depois, durante os próximos 18 meses, até às Filipinas, basicamente à boleia. Sou largado na baixa e estou por minha conta. Espera-me um longo dia de exploração.

Sevastopol é um local único, com uma atmosfera extraordinária. Há apenas 15 anos atrás era uma cidade fechada. Eu não poderia estar aqui, como de resto nenhum cidadão ucraniano que não estivesse ligado à Marinha. Zona militar deste tempos imemoriais, Sevastopol foi extensamente explorada pela máquina bélica soviética, que aqui instalou a Esquadra do Mar Negro e uma série de outras unidades e serviços. E isso sente-se hoje. É uma cidade que transpira um certo odor colonial, com palácios que remontam aos tempos da Marinha czarista, transformados hoje em centros comerciais ou adaptados para as novas necessidades da moderna marinha ucraniana… e russa, porque o país vizinho mantem aqui uma base operacional.

Nas ruas vêem-se militares por todo o lado, com as suas garridas fardas navais, de várias cores e tipos. Depois, há os monumentos, que abrangem uma vasta banda de épocas e estilos. Desde os memoriais de antes da Revolução de Outubro até à majestosa estatuária comunista. Em Sevastopol o tempo parece ter parado. É certo que os símbolos visiveis do mundo capitalista se instalaram aqui. Vêem-se lojas das bem conhecidas marcas ocidentais, mas, apesar de estarmos na Ucrânia as pessoas entregam a sua fidelidade à Rússia. Pelo menos a maioria delas. E compreende-se. A Crimeia foi uma região beneficiada no quadro na URSS, local de férias para as elites, respirando uma prosperidade estranha a outras partes do império.


Além disso, a enorme base naval de Sevastopol só trazia vantagens a estas estas paragens. Sobretudo num país onde à instituição militar nada faltava e havia muito dinheiro para gastar, com as evidentes vantagens para a sociedade civil. Com o colapso da URSS e a falência das forças armadas soviéticas, o fluxo de verbas para a Marinha aqui instalada cessou quase por completo, e os militares, outrora símbolo de riqueza relativa, deixaram de poder injectar dinheiro na comunidade local. Os suspiros de saudade pelos gloriosos tempos da União Soviética podem ser assim compreendidos, assim como a manutenção dos símbolos dessa era, que podem ser vistos com abundância pelas ruas de Sevastopol.


Andei pelas ruas sem um plano. O Nick tinha-me recomendado, com vigor apaixonado, o Panorama, uma recriação tridimensional num plano circular da batalha contra os alemães. Mas chegado lá olhei para o preço do bilhete e não me cheirou… 4 Eur. Vagueei por um parque, vi mais uns quantos monumentos, andei pela longa avenida central, internei-me por ruas pacatas, cheguei eventualmente à zona do porto, onde caminhei no passeio junto à água.

Sente-se que há uma forte actividade turística em Sevastopol. Doméstico ou semi-doméstico (e com isto estou a pensar nos russos). Mas num dia como o de hoje, a meio da semana, ameaçando chover, apenas as esplanadas e os quiosques de lembranças estão presentes, vendedores desolados, ociosos, esperando pela passagem do tempo. Mesmo assim algumas pessoas andam por ali. Casais, famílias, pares de namorados, jovens com amigos.

Descubro um monumento de estilo socialistas, mas este deve ser especial, porque tem uma chama eterna e uma guarda de honra que, à ordem de um oficial, se cruza com passo de marcha de ganso de poucos em poucos minutos. Do outro lado da praça um mural claramente comunista à beira do qual um cão tinhoso dormita.

Ali ao lado é uma das entradas para a base naval. Ou melhor dizendo, para uma das bases navais, porque há inúmeras instalações espalhadas pela cidade.

Entretanto já me sinto um pouco fatigado, mas ainda tenho muito tempo pela frente. Nas minhas deambulações encontro o Museu da Frota, que, segundo parece, é o museu mais antigo da “Rússia”. Está instalado num adornado palacete e pondero entrar, mas sinto-me intimidado e sigo caminho.

Mais à frente, depois de passar por um florido jardim, avisto uma pequena multidão. Aproximo-me, curioso. A aglomeração dá-se em frente a um teatro com toques imperiais, e as pessoas estão todas engalanadas. Sento-me num banco de jardim e observo tudo e todos cuidadosamente durante longo tempo, até que a concentração se dissolve, à medida que os grupos vão entrando. Por fim, apenas uns quantos aguardam a chegada dos convivas, nervosos, olhos no relógio, telemóveis na mão.

O Nick tinha-me sugerido que me metesse na lancha que cruza aquele braço de mar e desse uma vista de olhos na costa oposta… falou-me num forte-museu e, mais vagamente, em outros pontos de interesse. Primeiro, descartei a hipótese. Às vezes sou preguiçoso, tendo a evitar situações em que tenho que descobrir como fazer… comprar bilhetes, descobrir os locais… mas o destino fez-me estar mesmo ali em frente à lancha, e observei por uns segundos… a coisa era simples, entrar, pagar ao marinheiro que está à “porta”. Tive um impulso e segui uns quantos locais. A travessia custa 0,25 Eur. E divirto-me. Valeu a pena. Por um valor irrisório tenho uma nova perspectiva visual de Sevastopol e ganho uma experiência diferente. Para todos os outros passageiros aquilo é apenas um passo no seu caminho diário, querem chegar a casa, porque do lado de lá só se avistam subúrbios habitacionais.


O tal forte é mesmo ao lado do cais, mas o bilhete custa 4 Eur. Nem pensar. Dou uma vista de olhos em redor, interesso-me pelas barracas de vendas alinhadas ao longo do caminho que leva do cais até à estrada. Muitos dos passageiros páram por ali para uma última compra necessária lá para casa. Um pão, alguns vegetais. Mas bem vistas as coisas, não há muito para mim por ali. Regresso, mesmo a tempo de ouvir a sirene da lancha a anunciar a partida. Corro, e salto para bordo mesmo a tempo.

De regresso à baixa da cidade encontro um café todo finório que o Nick me tinha indicado. Bebo uma Coca-Cola enquanto mato tempo na Internet. Ele está online e coordenamos o nosso encontro. E neste dia não se passa muito mais. Ele está cansado, ficamos em casa, na pasmaceira. Não me queixo,também estou exausto.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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