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Do Báltico ao Mar Negro, dia 23 – Sevastopol

22 de Maio

Inesperadamente, o meu último dia em Sevastopol. Deveria apanhar amanhã um comboio para Odessa, mas sucede que esta composição só segue nos dias impares. Paradoxalmente até ao último momento é incertos se a estadia nesta cidade naval será encurtada ou alongada. É que, ontem ao serão, consultando o website dos caminhos-de-ferro, apenas alguns  billhetes se encontravam disponiveis, o que definiu a necessidade de acordarmos cedo para ir à estação e tentar apanhar uma das últimas passagens. É que, como tantas outras coisas na Ucrânia, o sistema de vendas online não estava temporariamente a funcionar.

Surpresa de última hora: mesmo chegando tarde e a más horas à estação consegui obter um belo bilhete na 3ª classe. É assim: na categoria mais baixa, as caminhas são arrumadas num espaço relativamente aberto, sem compartimentos separados do corredor por portas; na realidade, o próprio corredor é aproveitado para colocar mais caminhas; estas, são simples, enquanto na janela oposta existem camas em dois niveis, quatro, portanto, com uma privacidade relativa excepto para quem passa no corredor; na 2ª classe as coisas funcionam com os tradicionais compartimentos de comboio, com uma porta que permite aos passageiros de cada “sala” ter uma certa privacidade. Da primeira classe nada sei, porque os bilhetes custam os olhos da cara, mas parece que há apenas duas camas por compartimento.

Bem, mas a narrativa da aventura ferroviária ficará para mais tarde, para a sua hora devida, porque para já tenho apenas o bilhete na mão. Custou a rídicula quantia de 7 Eur, para uma viagem de 11 horas percorrendo cerca de 600 km.

O Nick tirou metade do dia para me mostrar alguns pontos. O primeiro é o local da majestosa bateria costeira que deveria proteger Sevastopol. Contudo, os alemães vieram por terra, mas os russos, engenhosos, conseguiram virar as gigantescas peças e despejaram chumbo pesado sobre os invasores. Quando o cerco de Sebastopol terminou, esgotadas que estavam as forças dos defensores, as fortificações foram sabotadas, e ficaram assim, abandonadas, até há poucos anos, quando um museu foi construido no local. A entrada é gratuita, mas mesmo assim, por falta de tempo e de interesse para visitar espaços museológicos, apenas visitámos o exterior, calmamente, enquanto conversávamos sobre europeismo e as hipóteses ucranianas de uma aproximação a ocidente.

Depois o Nick levou-me a explorar umas instalações militares abandonas, de interesse muito limitado. Pela minha experiência creio, sem poder colocar as mãos no fogo, que se tratava de uma bateria de misseis terra-ar, de pequenas dimensões, com uns poucos edíficios para o comando e serviços administrativos, espaços de armazenamento subterrâneos e duas plataformas de disparo, onde as baterias móveis estariam instaladas. Mas havia muito lixo, alguns dos espaços mais interessantes estavam bloqueados por entulho, e não demorou muito a sairmos dali, não sem antes esbarramos num portão de uma zona militarmente activa, de onde avistei uma série de lançadores de mísseis tácticos terra-terra, sob alguns olhares de soslaio de uns quantos soldados que por ali andavam.


Parámos um par de vezes para apreciar a orla marítima, vagamente a fazer lembrar a paisagem da Arrábida, a uma cota mais baixa, mas com semelhanças evidentes. A hora da despedida aproximava-se. E a fomeca instalava-se. Decidiu-se o seguinte plano: ir a casa, pegar nos meus tarecos, passar pelo supermercado para comprar abastecimentos para a longa viagem, e irmos almoçar no restaurante onde tinhamos estado no primeiro dia.

E assim foi. Enrolar o saco cama, preparada a mochila, seguir depois para umas compras apressadas, e para a cidade. O sol hoje chegou, e Sebastopol parece outra. Já antes, com tempo cizento, era uma cidade interessante, mas agora ainda o é mais. Pensei se ficaria aborrecido por este inesperado bom tempo chegar no dia em que parto, mas não… senti que foi a chave de ouro com que pude fechar a porta que deixei para trás em grande.

O almoço foi agradável mas algo apressado. O Nick queria começar a trabalhar às 2 e já passa meia-hora. Mas acabamos o nosso chili com carne, acompanhado da deliciosa cerveja que já me tinha encantado e de outra porção daquele bolo com chocolate que não me saia da memória.

Despedimo-nos. Dada a hora, garanti ao Nick que não tinha nenhum problema em caminhar até à estação de autocarros. Na realidade foi uma excelente forma de dizer adeus a este local tão particular, que me encantou nestes dias. Passei pela última vez no premontório. Fotografei com outra luz os locais que já tinha captado. Calmamente, que o tempo era folgado. E cheguei. Faltava quase uma hora. Refresquei na sala de espera, com uma garrafa de coca-cola geladinha. E lá entrei para o pequeno autocarro que me levaria a Simferopol, a cercade 60 km de distância.

Segui a multidão com malas e mochilas, que se deslocava como uma massa compacta para um ponto que imaginei ser a estação de comboios. E estava certo. No painel de partidas constava o comboio para Odessa, mas sem indicação de linha. Dei uma vista de olhos. Vi uma locomotiva com uma longa série de carruagens atreladas, e aproximei-me. De novo, acertei em cheio. Nos vagões cartazes anunciavam Odessa, e, depois de confirmar com o pessoal de serviço, entrei para a minha carruagem.

Costumo pensar que à medida que os anos nos vão passando, se torna cada vez mais complicado experimentar novas coisas. Mas ainda se vão arranjando algumas, e viajar num comboio assim foi decididamente uma delas. Observei com enorme curiosidade todo aquele novo mundo, que seria o meu lar para as próximas 12 horas. Faltando mais de meia-hora para a partida, o vagão estava vazio. Pude estudar tudo calmamente. Gostei do meu lugar, e, de forma geral, todo o espaço era melhor do que esperava. A minha caminha articula-se, criando uma espécie de baú por debaixo, que torna qualquer furto practicamente impossível. Só se uma força misteriosa me içar no ar durante o sono é que um qualquer meliante terá acesso às minhas coisas. Por cima, uma segunda cama, e, por fim, no topo, uma plataforma com colchões e almofadas.

As pessoas vão chegando. Estou curioso sobre os cromos que me cairão em sorte, e quando chegam, sei que não poderia ser mais interessante: um homem mais velho, e um casal de jovens. Campónios, divertidos, que assim que chegaram puseram logo a mesa. A incontornável garrafa de vodka e uma outra, de sumo, para misturar uns quantos copos que marcharam de permeio com os “shots” puros. Depois, um frango inteiro, que duvido que tenha sido criado num aviário. Claro está, fui convidado para o banquete, tendo-me esquivado airosamente com muitos agradecimentos.

O comboio pôs-se em marcha, os lugares já todos preenchidos, e a animação dos meus companheiros de viagem a crescer. Está demasiado calor, mas não há nada a fazer. As janelas não abrem. O único incoveniente deste lugar é que está perto da porta que dá acesso à saida e à casa de banho, e de cada vez que alguém lá vai, uma batidela gera algum barulho.

Já estou instalado, colchão colocado, saco cama por cima, e vou deitadinho, lendo no Kindle. Pouco depois chega a revisora de carruagem e uma assistente, a quem a primeira dá uma instrução e um saco selado com lençois e toalha lavada aterra na minha cama. Não sei porque os meus companheiros não tiveram direito ao mesmo tratamento, mas penso que se o bilhete já era super barato, com esta mordomia adicional ainda mais o é.

Lá fora a noite chega, devagarinho. Vou à casa de banho e ficou um pouco à janela, que está aberta, sentindo a carícia do vento refrescante, e penso que estou feliz.

Duas horas depois a luz parda do simulacro do compartimento ilumina o cenário que me rodeia. Isto é como fazer campismo colectivo. Os meus companheiros já levantaram e limparam a mesa, e mesmo ao lado um casal jovem senta-se com latas de cerveja fresca na mão, à conversa com este pessoal.

Na monotonia da noite, entre leitura e sei lá o que mais, acabo por me juntar à festa. Descubro que se vendem as tais latas, bem fresquinhas, neste vagão, e por uma quantia irrisória. A partir daí é um fluir constante. Aparece outro ucraniano que me quer conhecer, maluco por futebol, que, segundo me confidencia, não gosta dos outros, e tenta permanentemente monopolizar a minha companhia. Tenho que gerir aquela situação, dividindo-me entre um e os outros.

No fundo foi uma noite de arromba, uma festa inesperada num vagão de terceira classe, com muito alcóol à mistura, nos confins da Ucrânia, em movimento. Recordo-me de ter ido para a “cama” à 1 da manhã e de ter dormido maravilhosamente.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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