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Do Báltico ao Mar Negro, dia 27 – Odessa a Chisinau

26 de Maio

O autocarro sai às 8:20, mas tenho que apanhar o eléctrico e adicionar uma margem de tempo de segurança confortável para qualquer coisa que possa correr mal. Saio de casa sem perturbar o sono dos meus amigos e dirigo-me para a paragem do eléctrico. As ruas estão desertas. Espero um longo tempo, ao princípio um bocado nervoso. Será que esta carreira circula aos Sábados? E se sim, com que periodicidade. Depois, juntam-se mais pessoas na espera, e convenco-me que tudo correrá bem. Por fim, mesmo na margem da janela de tempo confortável, chega o meu transporte. Pago o bilhete à cobradora. Custa a rídicula quantia de 0,30 Eur. E hoje não há o lento rolar da véspera. De repente, de ligeiramente atrasado para um estado de muito adiantado. Chego à estação rodoviária às 7:40. Felizmente o autocarro já está em posição, e entro, instalando-me, dormitando um pouco.

Era importante que a rota tomada pelo autocarro não incluisse a travessia do Transdniepre, essa estranha unidade política auto-nomeada de país mas não reconhecida por ninguém execpto, imagine-se, pela Nicarágua. E isto porque: primeiro, os guardas fronteiriços dessa nação fantasma ganharam uma reputação de crápulas, apesar de ser reportado pelos mais recentes viajantes que esse tipo de situações fazem agora parte do passado; segundo, porque conto visitar por um dia Tiraspol, a capital, e se calhar não convém ter desde já o passaporte carimbado, não vá levantar confusão mas tarde.

A senhora da bilheteira tinha dito ao Edward que este autocarro (e aparentemente é o único que segue uma rota que contorna o Transdniepre) não entraria no “país”. Só que, com o GPS na mão, vejo com horror a fronteira a aproximar-se, e depois, sem volta a dar, um posto de controlo ucraniano. “Pronto, está tudo lixado”, pensei eu. Mas não. Há ali algo que foge à minha compreensão. Dá a ideia que existe um corredor de livre passagem, porque ao fim de vários quilómetros, quando já espero o pior, a chegada à famigerada fronteira, passamos apenas por um outro posto ucraniano, onde o autocarro é verificado com um olhar de soslaio… e estamnos de novo na Ucrânia.

Mas as sensações fortes não se ficariam por aqui. Quando pensava que estava tudo resolvido, eis que o rumo foge ao que esperava, e lá vamos nós de novo direitos à fronteira. Desta vez não há escapatória. É mesmo uma fronteira. Deixo a Ucrânia, depois das formalidades, e após um pedaço na terra de ninguém, avisto as instalações do lado de lá… moldavas! Que alívio e que surpresa. Observando o mapa juraria que estariamos a entrar no Transdniepre. Como o “país” não é reconhecido não vem marcado na cartografia Garmin que estou a utilizar. Mas a verdade é que é na Moldávia que entro.

A primeira coisa que salta à vista é que estou de novo rodeado de palavras que posso ler. Depois de duas semanas na Ucrânia a tentar interpretar os “hieroglifos” círilicos, consigo perceber não só as palavras, mas também, em muitos casos, o seu significado. Neste jovem país os habitantes são totalmente bilingues, alternando entre o russo e o romeno, mas sem dúvida que a linguagem que domina o espaço público é a versão local do romeno. Não vi uma única palavra escrita em russo nos três dias que permaneni no país.

A  viagem é agradável, pictoresca, já com um cheirinho daquelas paisagens campestres que tanto aprecio na Roménia.  A Moldávia parece ser um país intensamente rural. Desde a fronteira até Chisinau atravessamos talvez 60 km, mas ao longo desta distância apenas um par de aldeias maiores. Nem uma cidadezinha.

O autocarro larga-me numa obscura estação que mais tarde descobrirei tratar-se da “estação norte”. O meu GPS ajuda-me de forma parcial. Não existem mapas da Moldávia, pelo que me limito a seguir a indicação geral de direcção, o que, inicialmente, não é fácil. Não faço ideia se me estou a aproximar ou a afastar da via de entrada para o centro da cidade. Afinal corre bem. Passado umas largas centenas de metros chego a uma estrada que me parece tomar a direcção correcta. E é verdade.

Combinei encontrar-me com o Calin junto do “arco do triunfo” de Chisinau, uma pequena réplica da versão parisiense ou, se preferirmos, da que existe em Bucareste. Mas vou adiantado, mais de duas horas.

Chego ao local combinado, que poderá ser tomado como o centro da cidade e mato tempo como posso. Não tenho dinheiro moldavo pelo que não me posso dar a luxos. Sento-me num banco de jardim a ler. Depois, entediado, instalo-me debaixo de uma árvore, numa espécie de relvado mal-tratado, um pouco a medo, porque por estas terras não é costume usufruir-se dos relvados. Acho que passo um bocado pelas brasas. A hora vai-se aproximando. Mudo a minha base para um ponto à beira do “arco”. E finalmente o encontro.

O Calin vive com os pais, a esposa e uma filha num enorme apartamento junto às chamadas Portas de Chisinau. E tem carro. Logo estou a ser apresentado à mãe, e depois, ao pai. Servem-me iguarias em quantidade e qualidade inimagináveis. Portanto, este é um povo com um bom sentido de hospitalidade. Os pais do Calin, que tem cerca de 30 anos e é um homem enorme, são ambos médicos. A comunicação não é fluente mas vai-se arranjado, numa mistura entre inglês, romeno e francês, com a tradução do meu amigo quando necessário.

Só poderei passar uma noite nesta casa porque no dia seguinte à tarde ele tem de viajar, tal como me tinha informado desde o primeiro momento. É uma pena, porque a minha permanência na Moldávia teria certamente sido ainda mais positiva se tivesse sido hospedado por esta boa gente durante as três noites de Chisinau.

A esposa dele está numa festa de família em casa dos seus pais. Depois de uma troca de telefonemas sou convidado para me juntar a eles. Foi um enorme sucesso. Com mais comida, muito mais comida, que mal consigo aceitar, com a barriga cheia que já levo. E o vinho jorra em quantidades imensas, de fabrico artesanal, à boa maneira moldava. A timidez inicial de todas as partes foi rapidamente vencida, e enquanto elas se retiram para outra divisão da casa, para ver TV, creio, os homens mantêm-se à mesa, discutindo linguistica, história, colonialismo, e outros temas aliciantes. Sou eu, o Calin, o sogro e um cunhado. Enfim, uma festa de arromba.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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