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Do Báltico ao Mar Negro, dia 3 – Vilnius

2 de Maio

Mais um dia de sol aberto, como seriam quase todos os passados na Lituânia, essa terra afamada pela chuva constante ao longo de todo o ano. Dá para sair de casa logo pela manhã de t-shirt, com o objectivo de ver em pormenor alguns dos pontos aflorados pela “tour” da véspera.

De casa até ao centro é um cheirinho, são cerca de 300 metros em linha recta, um pouco mais caminhando. Apesar de ser um dia de semana e da hora matutina a zona histórica está apinhada de turistas. São basicamente vizinhos: polacos, russos, estónios. Sente-se aqui o fosso para a Europa Ocidental. Raros são os franceses, alemães, ingleses e afins. Torna-se claro que de Praga para cá é um outro mundo.

Perdemo-nos nos detalhes, entrando por vielas e becos, bisbilhotando, metendo o nariz. Descobrimos uma loja de trabalhos em madeiras que é por si só um museu, estabelecida num tranquilo páteo, paredes meias com apartamentos decadentes e casitas recuperadas, com um escritório de arquitectos sintomaticamente estabelecido numa delas. Mesmo ao lado, desconhecedores, os batalhões de turistas de máquina ao peito marcham, rua acima e rua abaixo, pelo eixo natural da cidade antiga. Procuram igrejas e outros ícones em destaque nos guias Lonely Planet e noutros da mesma  ordem.



Inversamente, a famosa rua pedestre que sai da praça  da catedral está mais simpática, menos populada. Num vão, um grupo de uns 20 jovens lituanos canta e toca música, cesto à frente, num embrionário movimento de capitalização que se adivinha pouco frutuoso, considerando o número de investidores pelos quais as moedinhas terão que ser repartidas.

Voltamos à rua dos escritores, hoje muito calma, quase deserta, e apreciamos os acessos, igualmente merecedores de atenção. O ambiente está decididamente agradável, com aquela alegria única de uma manhã primaveril cheia de sol.

Hoje decidimos fazer aquilo que tinhamos recusado ontem, a medo do calor que apertava: subir até à torre que se ergue no topo de uma colina, mesmo ao lado da grande catedral branca. É o último vestígio do antigo castelo de Vilnius, tantas vezes arrasado por sucessivos invasores que por fim os lituanos decidiram que era escusado continuarem a refazê-lo após cada vaga de ocupação. A subida é afinal mais suave do que se adivinhava, e em menos de nada estamos no topo, onde já se concentram alguns turistas, uns quantos trazidos pelo funicular que facilita as coisas aos mais indolentes.


De lá de cima a vista é gloriosa, com a cidade velha de um lado e o rio a correr do outro, com modernos edíficios de escritórios a erguerem-se na margem oposta.  Não nos demorámos. Era tempo de conquistas as colinas adjacentes, mais imponentes, pintadas de verde pelas árvores que ostentam orgulhosamente a sua nova folhagem. Após uma subida considerável estamos por fim rodeados de floresta. Os sons da cidade não chegam aqui, apesar da proximidade. Quase sem darmos por isso atingimos as cruzes brancas, que se vêem de todo o lado. E depois só sabemos que queremos regressar pela república de Uzupis, pelo que a partir daí é explorar trilhos, à descoberta, na esperança que nos levem na direcção certa.

Depois de alguns contratempos atingimos uma das ruas que desce a colina, em direcção ao centro da auto-proclamada nação. Estamos afinal onde já tinhamos passado na véspera, com a “free tour”, quando ascendemos até ao ponto panorâmico. E, de resto, muito perto do cemitério que visitámos já pela noitinha. Agora é só descer e rever os pontos que ontem nos ficaram no goto.

Com isto a tarde vai a meio. E desde que chegámos à Lituânia ainda não tivemos tempo de Internet. Está na hora de corrigir essa lacuna. Procuramos um dos cafés da rede Coffee Inn, que oferecem wi-fi; estes estabelecimentos encontram-se quase em cada esquina de Vilnius, mas nós queremos um específico, que mirámos na véspera de do qual gostámos. Encontra-se da rua dos alemães, assim chamada pela concentração da comunidade germâmica, basicamente comerciantes, que ali foi crescendo desde a Idade Média. Dizem-nos que antes da II Guerra Mundial era uma artéria repleta de belas casas antigas, mas na sua louca aspiração à modernidade, os dirigentes decidiram que era tempo de apostar no alargamento da via, arrasando para isso uma das suas metades. É palavra corrente que desse acto resultou uma maldição: as lojas estabelecidas no passeio novo não singram, e vão abrindo e fechando sucessivamente. E é verdade. Olhamos em redor e vimos que instintivamente as pessoas se concentram na zona pedonal central ou no passeio oposto, o antigo.

O Coffee Inn é ainda mais agradável do que parecia visto do exterior. Os clientes são todos eles jovens, universitários ou ainda mais novos. Quase todos de computador ao colo, bebericando os seus cafés e saindo de tempos a tempos para aviar mais um cigarro no exterior. Por ali ficámos quase duas horas, agradados com o ambiente e com a Internet. E de lá fomos directamente para o nosso habitual pub, ao encontro do velho amigo Martynas, uma das minhas companhias preferidas dos tempos de Praga, onde ele passou um semestre ao abrigo do programa Erasmus.

Dá-ase agora uma espécie de dejavu: tal como na véspera o encontro é marcado para as 18:30, e da mesma formo bebemos umas cervejas e comemos qualquer coisa, antes de, inesperadamente, brotar a ideia de aproveitarmos os últimos raios de sol num local relativamente afastado. Se ontem era o cemitério, hoje é um bairro antigo que se ergue do lado de lá do rio, onde se podem observar casas tradicionais feitas em madeira, pintadas de todas as cores, genuinas, ainda habitadas por gente normal que levam vidas comuns. Uma excelente ideia! E o Martynas tem bilhetes de transportes públicos para todos, pelo que nos apressamos em direcção à paragem mais próxima.


O bairro chama-se Zverynas e revelou-se uma excelente forma de encerrar o dia. Já com a luz reduzida do lusco-fusco fomos caminhando, por ruas largas mas sossegadas, onde se pode andar pelo meio do asfalto sem pensar nos casuais carros que a tempos largos vão passando. Tal como prometido, as habitações são fascinantes e transportam-nos para outros tempos, para aquela breve época de ouro em que a Lituânia foi independente, iniciada logo após o final da I Guerra Mundial e estendendo-se até 1940, quando o Exército Vermelho decidiu pôr um ponto final nas aspirações destes três Estados Bálticos, e anexou-os, simplesmente. É desse período que a maioria das casas de Zverynas são. À primeira vista parece um bairro pobre, mas o Martynas diz-nos que bem pelo contrário, que é um uma área de residência muito apreciado, logo, de valor crescente. Está na moda, talvez pela tranquilidade que paira no ar, pela proximidade do enorme parque Vingio e pela facilidade com que se atinge o centro, apenas atravessando a ponte que marca, e de que maneira, a separação entre estes oásis de harmonia comunitária, e o bulício da baixa.

Acabamos o passeio a beber cerveja num restaurante tradicional, bem conhecido dos nossos amigos. Quer dizer… era suposto o dia ter terminado assim, mas com o fluir do refrescante liquido o Martynas e a Victoria tiveram vontade de estender o programa e em vez de nos separarmos ali como planeado acabaram por caminhar conosco de volta ao centro. Foi assim que aprendemos sobre os dias quentes de 1991, quando a nata do mundo político lituano conduziu um processo inverso ao da anexação de 1940. Com base no Supremo Tribunal, que hoje é o Parlamento, e aproveitando o colapso da União Soviético, estes dirigentes abriram as portas para outra época na Lituânia. Ali foi erigida uma pequena exposição, com blocos de pedras pintados com palavras de ordem, que, sobretudo à noite, oferecem uma experiência memorável ao visitante.

Bom, acabámos por nos despedir, talvez até ao dia seguinte. E depois foi atravessar Vilnius de ponta a ponta, com alguns desvios para conhecer novas ruas e ter perspectivas diferentes. A noite arrefeceu, mas apenas em relação ao quente dia. A temperatura continuava amena e o passeio não podia deixar de ser agradável.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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