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Do Báltico ao Mar Negro, dia 32 – Iasi

31 de Maio

Iasi não é exactamente um manancial de locais interessantes, apesar de ser a segunda ou a terceira maior cidade do país. Vai daí, já não tenho muito que fazer, não sei bem como preencher este segundo dia na capital da Moldova romena. Começo a andar com o objectivo vago de chegar  ao cemitério principal, mas, sem saber exactamente para onde me dirigir,as esperanças de alcançar o local não são elevadas. Enquanto caminho numa avenida sem grandes pontos de interesse vou mexericando no GPS, e descubro, quase por acaso, que na realidade o cemitério que quero visitar se encontra na base de dados do mapa. Problema resolvido. Agora sei o rumo certo.


Desta feita ninguém me barrou a entrada. Entro numa ampla avenida ladeada por bancos e ciprestes e começo a explorar. Há algo de profundamente errado neste cemitério: há carros por todo o lado, circulando livremente pelas estradinhas interiores; os condutores buzinam quando lhes dá na telha, sem qualquer respeito pela natureza sacra do sítio. Para piorar as coisas ouvem-se as máquinas de cortar relva e mato, operadas pelo pessoal responsável pela manutenção. Não consigo um momento de tranquilidade, e, se planeava sentar-me um pouco a ler para matar tempo, rapidamente me apercebo que tal não sucederá. Decididamente não é um dos meus cemitérios favoritos, e não apenas pela agitação que o abala. Não encontro muitos detalhes verdadeiramente belos. Passado pouco tempo bato em retirada.

Volto a passar pelo mercado povoado de ciganos pobres que tinha encontrado à chegada. Algumas vendedeiras dispõem meia dúzia de alfaces, o seu pequeno espólio, ansiosos por uma venda que lhes permita dar o dia como ganho. Outras trazem umas garrafitas de água cheias de leite, certamente fresco. O bairro é pobre, mas de novo não há riscos em andar por ali.

Regresso ao centro, desta vez por  outros caminhos. Sinto o pulso à cidade, à falta de óbvios objectivos. Dou por mim junto ao centro cultural, sento-me um pouco no banco do costume, entretido, a ler. Chega uma leva de jovens em evidente visita de estudo, ocupando todos os bancos em redor, com enorme algazarra. Acabou a leitura. Deixo-me estar simplesmente a observar tudo aquilo, até que, eventualmente, se retiram, tão rapidamente como chegaram. Mas agora já não quero sossego. Acabo de me lembrar que o grandioso centro comercial, mesmo ali ao lado, abriu hoje.

Wow! Que belo “shopping”, tudo novinho em folha, e evidentemente a novidade do ano em Iasi. Percorro os corredores e os espaços amplos, olhando para as lojas de sempre, mas sobretudo para as romenas, que ali estão ao seu melhor. Quase que fico embriagado com as vistas, preciso de me sentar. À entrada há um café, onde me instalo a beber uma cervejinha, que me sabe mesmo bem. O wi-fi exige uma password mas a empregada diz que não tem. Vai confirmar. Pois, não tem. Passado uns minutos chega o gerente, falando em romeno primeiro, depois mudando para inglês. Está angustiado com a situação. Faz dois telefonemas, tenta duas passwords mas nada. Digo-lhe para não se preocupar mais, que não é importante, e ele lá vai, à sua vida, que hoje tem um dia importante.

A etapa seguinte é recolher informação ou quiçá comprar o bilhete para o autocarro de amanhã para Targu Mures. Faço a caminhada até à estação, dizem-me que para já convém fazer a reserva junto do agente correspondente, que poderá ser encontrado na rua, já que está quase a sair o autocarro da tarde para Targu Mures. Lá vou eu, ando às aranhas um bocado. No mini-bus nem o condutor está, quanto mais um agente. Mas faltam poucos minutos para a partida portanto é apenas uma questão de esperar. E quando aparece o motorista “falo-lhe” no assunto, ele dá uns berros para chamar a atenção do tal agente que está à conversa com não sei quem, e lá vou eu tratar da reserva. Simples. Nome e hora pretendida. Um aperto de mão simpático para selar o acordo.

Tenho fome e gostava de usar Internet, e está um McDonalds ali defronte, a sorrir para mim. É tempo. Aqui os preços não são tão amigáveis como na Ucrânia, mas mesmo assim… acho que paguei  4,50 Eur pelo menu. Pelo menos posso ficar ali, confortavelmente instalado, a usar a net de boa velocidade.

Quando dou por mim o tempo já está curto. Tenho que me encontrar com a Lacramioara às 6:00. Vou por uns atalhos manhosos, sempre junto ao rio. Dois marmanjos estão a preparar um charro e são surpreendidos com a minha passagem. Riem-se imenso. E consigo chegar a horas. Logo depois ela aparece na companhia de um novo convidado (um imbecil inglês todo pedante que não me agrada, nem tão pouco a ela, conforme me diz mais tarde).

À parte aquela má companhia, o serão é divertido. Hoje é dia da Lacramiora cozinhar, e até convida uma amiga. Fazemos um picnic no chão, com panquecas e uma especialidade romena, preparada com queijo de cabra, manteiga, e uma farinha de milho que cobre os outros ingredientes.  A amiga, Carina de seu nome, soube ontem que vai passar seis meses a Praga, e o meu conselho é muito bem-vindo. Falamos um bom bocado, depois o senhor pedante vai sair com uns amigos, e a Carina despede-se. Fico eu e a Lacramioara, a fazer tempo, porque o “bife” que era suposto  demorar uma hora só chega perto da uma da manhã.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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