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Do Báltico ao Mar Negro, dia 6 – Kaunas

5 de Maio

Este era aquele dia em que podiamos ter ido dar uma volta pelo país. Desde o primeiro momento, quando o plano para esta viagem se iniciou, que senti um problema de base: a maioria das coisas que me despertaram interesse encontrava-se francamente longe dos dois grandes centros urbanos onde ficaria. Ponderei em alugar um carro, mas a oferta de ambos os anfitriões de nos levarem a passear apenas pelo custo do combustível fez-me colocar essa hipótese de lado. Só que, na hora da verdade, e mesmo com o Tomas em pulgas para arrancar por ali fora, decidi abortar a expedição. Estamos a falar de fazer quase 500 km num dia. Cansativo, especialmente depois de cinco dias intensos. E dispendioso também, cerca de 50 Eur. E assim ficou excluida a visita à antiga base de misseis nucleares, que durante tanto tempo se manteve abandonada e que há uns poucos meses, para o melhor e para o pior, foi renovada e transformada num museu. Com a vantagem de se encontrar enquadrada num parque natural, que, segundo os meus contactos lituanos, é de rara beleza. O segundo objectivo do dia seria o famoso “monte das cruzes”. Mas nada disso importa agora, porque a verdade é que a expedição não se fez. Em vez disso, o Tomas propôs-nos um festival de aviação que teria lugar na ilha do rio, a partir das 15 horas. E assim se fez. De manhã fiquei em casa, na preguiça, e por volta das 14 horas pusemo-nos a caminho.


Bem, o evento não era bem um festival de aviação; mais uma reunião do aeroclube local, com algumas actividades de interesse questionável, mas mesmo assim uma forma pictoresca de passar um bocado. Havia música ao vivo, barraquinhas de venda de cerveja. Modelos telecomandados evoluiam no céu. Houve largada de pára-quedistas e algumas acrobacias feitas por um singelo avião. De grande entusiasmo para o público lituano foi a exibição do modelo da aeronave que em 1939 cruzou o Atlântico, proveniente dos EUA, naquela que foi a odisseia mais marcante da história da aviação lituana. A aventura acabou mal, quando os alemães abateram o avião sobre a Polónia, causando a morte dos dois aviadores que seguiam a bordo. Os mesmos dois aviadores que podem ser encontrados nas notas de 10 (ou será de 20?) Litas.



Uma pequena avionete faz um par de passagens pelos terrenos do evento, lançando caramelos embrulhados em fitas, que despertam grande excitação junto dos mais pequenos… e do Tomas, que passa por nós em passo rápido, incitando-nos a segui-lo até um ponto em que, segundo ele, tinham caido vários projécteis doces e para onde ninguém tinha corrido.

O evento está a chegar ao fim. Estavam previstos passeios em balão, mas uma aragem mais forte do que o desejável impede a largada. Resta-nos iniciar o caminho de regresso.

Entretanto o Tomas convida-nos para o aniversário de uma amiga dele, que estaria a ter lugar algures junto ao lago, a uns 5 km de Kaunas. Declinamos o convite, que naturalmente agradecemos. Ele prossegue, com o seu passo super-rápido, e nós vamo-nos instalar num relvado cheio de flores amarelas, de regresso à ilha. Ali ficamos, primeiro a ler, depois, quase a dormitar. Talvez uma hora, ou um pouco mais.

Quando por fim nos levantamos o dia mudou, para melhor. As núvens que pairaram sobre Kaunas, inclusive largando algumas gotas, tinham-se retirado, e a tarde tinha-se tornado doce, com um sol já avançado, quentinho ainda. Andámos por ruas novas, não pela charmosa zona antiga, mas por outros bairros, mais próximos do imaginário da cidade soviética, cinzentos, degradados, tristes. Foi uma excelente forma de terminar um dos últimos dias de Kaunas. Sendo Sábado a cidade estava sossegada. Havia uma energia muito positiva no ar. Atravessámos a via pedestre e explorámos o sopé da colina que se ergue por detrás da zona antiga, afastando-nos definitivamente da influência do rio e dos seus quarteiroões mais “socialistas”.

De regresso aquela afamada rua de passeio, subimo-la até ao topo, onde nunca tinhamos ido, para ver de perto a bonita igreja ortodoxa que lá se encontra. Já cansados procuramos um pouso adequado. As condições: que haja Internet, sopas e cerveja. Encontramos uma esplanada que reúne tudo isso, mas afinal a sopa fica adiadas. No seu lugar encomendamos pão com alho, que, ao chegar, se revela algo diferente do que conhecemos. Na Lituânia este tipo de petisco consiste em tiras de pão muito frito, depois esfregadas com alho. E é delicioso! Sinto-me no paraíso. Sentado ali, na esplanada, com um bonito final de tarde, temperatura muito amena, raios de sol já bem dourados pelo avançado da hora, as atraentes lituanas passando nas suas saias curtas, com Internet de qualidade, um copo de cerveja geladinho e aquele pão com alho divinal. Simplesmente perfeito!


No caminho para casa uma pequena revolução intestinal fez-me atravessar a ponte em passo rápido, em busca de um canto escuro adequado, no matagal da colina oposta. Problema resolvido. Depois, foi atravessar pela enésima vez a zona de esplanadas, onde, com a noite já instalada, os lituanos se preparam para festejar o Sábado. Para nós o dia está terminado. É a hora do sacrosanto chá com o Tomas, alguma conversa e dormir.

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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