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Etiópia. Dia 10. Adis Abeba.

Primeiro dia a sério em Adis Abeba, depois de uma passagem breve pelos subúrbios aquando da chegada à Etiópia e do regresso na noite anterior. O pequeno-almoço é no Vamos Guesthouse.E depois é sair à descoberta da cidade.

Começando pelo fim, gostaria de dar uma ideia sobre as minhas impressões sobre a cidade: positivas. Gostei bastante de Adis Abeba, para surpresa de muitos, considerando o carácter de urbe mal-amada da capital etíope. Talvez as expectativas baixas tenham contribuído. Ou o excelente tempo que ali apanhámos. O que sei é que foram três dias muito agradáveis e descontraídos.

O que me vem à mente quando penso em Adis Abeba? O número surpreendentemente elevado de pessoas que falam inglês, pelo menos a um nível básico. A simplicidade de processos para tudo. A ausência de crime violento (bom, ou quase) numa megalopolis de três milhões e meio de habitantes e com uma pobreza extrema, na realidade a cidade mais pobre que me lembro de ter visitado.

Fez-se o caminho até uma das duas estações de metro de superfície existentes nas imediações do hotel, parando-se para espreitar uma igreja existente ali próximo. O metro de Adis Abeba é eficiente, muito útil para os visitantes (imagino que para a população local também) mas infelizmente costuma andar demasiado congestionado, mesmo fora das horas de ponta. Às tantas dei comigo a preferir andar uma distância de quilómetros para não ter que levar os apertões e sofrer o stress daquela lata de sardinhas.

Comprar bilhete, vendido a preço simbólico, e passar pela polícia que se encontra à entrada das estações, com rigor e critérios ao gosto de cada um, chegando mesmo à inexistência. Para já andámos duas estações e saímos. Primeiro ponto a visitar: a antiga estação de comboios, agora transformada em algo que não percebi bem, mas certamente moderno. É a chamada La Gare. Ali defronte encontra-se um curioso monumento  ao Leão da Judeia.

Depois fomos à grande praça Meskel, considerada o centro da cidade, desenhada para albergar as grandes paradas militares do regime socialista do Derg. Foi um pouco decepcionante, porque não é mais do que uma grande avenida, com muito trânsito e imensas faixas de rodagem, mas o ambiente envolvente é interessante. As pessoas vêm até ali para se encontrar, sentando-se numa espécie de bancada de onde antes se assistia aos desfiles. Do lado de lá existe (ou existia, porque não o encontrei) um posto de turismo sob a tribuna de honra, onde o ditador Mengistu se sentava com os seus convidados.

Ali mesmo por detrás há o Museu da Cidade, instalado numa antiga casa com muitos atractivos e cuja visita se recomenda. É um oásis de tranquilidade e a exposição é interessante, sendo o bilhete de um valor simbólico. Mais ao lado, o Museu do Terror Vermelho, dedicado às vítimas do sangrento regime do Derg. Antes dessa visita, contudo, parámos para uma bebida fresca numa agradável esplanada que existe no seu telhado.

No museu, de entrada gratuita, um veterano da resistência – que pela fluência e sotaque imagino que tenha vivido nos EUA – explicava a um grupo de turistas como tinha sido sobreviver naquela época.

O dia estava a correr mesmo bem. Acabámos a visita e quase por acaso entrámos numa das carrinhas que fazem as vezes de autocarro em Adis Abeba. Arat Kilo era o destino. Uma área de que gostei bastante. Os bilhetes para estes transportes são de valor basicamente residual. Uns cêntimos. Geralmente são honestos, mas podem esticar-se um bocado – uns cêntimos, portanto – no que cobram ao estrangeiro descuidado.

Arat Kilo é uma zona da cidade onde se percebe a complexidade da estrutura social. Em Adis Abeba existe uma ampla classe média, e isso nota-se aqui. É também uma parte da cidade onde existem universidades, e de repente, não fosse a tez de pele, parece que estamos numa cidade europeia. Comemos numa esplanada numa longa varanda de um primeiro andar com uma bela vista para o bulício da rua. Serviço lentinho, mas também, pressa para quê, o ambiente está óptimo. Os clientes são quase todos jovens universitários e ali por perto existem muitos outros estabelecimentos com clientela dentro da mesma linha.

É também em Arat Kilo que se encontram alguns dos melhores museus da cidade e, não muito longe, a Catedral da Santa Trindade, que visitámos seguidamente. Não a própria catedral, porque não entrámos. Mas o recinto e a sua envolvência. Como todas as igrejas da Etiópia há um “não sei quê” de mesquita no espaço que a envolve. É uma tranquilidade imensa, um espaço de reunião para a congregação, um local onde se pode descansar e recarregar baterias, meditar, sentir a calmaria. E por ali visitámos um bonito cemitério com algumas campas notáveis, especialmente de resistentes contra a ocupação italiana e outros etíopes notáveis, enquanto que no interior da catedral se encontram os túmulos do imperador  Haile Selassie e da imperatriz Menen Asfaw. Foi mais um momento memorável nesta cidade.

Depois desta experiência não se passou muito mais. Fomos andando, para o hotel, devagar. Ainda fomos a uma outra igreja, contudo, mas fomos convidados a sair do complexo porque era necessário pagar para o visitar. Sem problema. Um senhor muito simpático, que nos indicou onde apanhar o metro. Afinal era mesmo ali e eu a pensar que ainda teria que procurar a estação. Como era o terminal da rede não havia muita gente, mas pouco depois já estava cheio, especialmente depois de parar nas estações que servem o enorme “Mercato”, tido como o maior mercado de África, estabelecido pelos italianos.

Pouco depois chegávamos à estação que nos serve. Na realidade a uma outra, não à que já conhecíamos. O hotel está tão bem localizado que se pode escolher uma de duas estações, consoante a direcção de onde se vem ou para onde se vai. Há ali muitas lojas e comprámos alguma fruta para não sermos apanhados desprevenidos pela fome.

Recolhemos ao hotel, reconfortante. Infelizmente não há restaurante no Vamos, mas ao virar da esquina existe outro hotel onde fomos jantar. Todo catita, com ares de grande hotel de luxo, mas com refeições a preços muito agradáveis. Na mesa ao lado um grupo de homens africanos, jogadores de futebol quenianos. Acabámos por ficar um bom bocado depois de acabar a má pizza que tinha encomendado. Para ver um jogo que estava a dar na TV.

 

About Ricardo Ribeiro

Comecei a cruzar o mundo já tarde, mas num espaço de tempo relativamente curto senti recuperado o atraso. Foram cerca de cinquenta países e muitas experiências, em apenas nove anos, quase todas narradas no blog Papaléguas. Mas esses escritos são apenas um diário de viagens. Senti que tinha mais a contar, que podia ensinar algo. E decidi iniciar um segundo blog. Se o primeiro pode ser definido como “de viagens”, este é “sobre viagens”.

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